Rainha Virgem: Elizabeth I era mesmo virgem?

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É fato por muitos conhecidos, que Elizabeth nunca se casou. Tal entendimento – vindo de uma rainha de seu porte – certamente é inesperado; afinal, ela poderia facilmente dispor de um bom marido. O Conselho Privado, assim como seus mais próximos assessores, incansavelmente pediam para que ela se casasse. Como resultado de uma propícia propaganda política, assim como sua aversão ao matrimônio, fora à ela relegado, o epíteto de: “Rainha Virgem”.

Ao longo dos anos, inúmeros livros, romances, peças de teatro e filmes, têm retratado as relações de Elizabeth I, com figuras como Robert Dudley – Conde de Leicester; Robert Devereux – Conde de Essex, Thomas Seymour -1º Barão Seymour de Sudeley e o Duque de Anjou. Na ausência de provas conclusivas, de uma forma ou outra, a questão ‘fizeram ou não fizeram?’ permanecerá sempre no imaginário popular. Porém, o que está claro, é que tanto em casa quanto no exterior, os boatos sobre a vida amorosa de Elizabeth I – real ou imaginários – circularam durante todo o seu reinado. Longe de ser a Rainha Virgem, para alguns observadores hostis, Elizabeth era a própria ‘prostituta’ da Europa.

The-Virgin-Queen-copyA monogamia, castidade e celibato, devem ter sido praticados por alguns elisabetanos, porém, não era exatamente uma norma. E no entanto, ao leme desta vibrante e emocionante nação – com tantas promessas para um futuro brilhante, crescendo, ficando mais rica e alcançando novos mundos – estava uma mulher que suprimiu de seus súditos, seus próprios, mais íntimos e humanos desejos. Foi uma dura decisão, por amor a seu reino, Elizabeth optou por abnegação, uma decisão que mostraria seu preço. Enquanto isto – assim como sua irmã Maria I fizera antes – ela alegou estar casada com seu reino e por vezes, experimentar um forte medo do parto – devido às experiências de sua meio-irmã (com suas gravidezes psicossomáticas) e sua madrasta Catarina Parr. Mesmo assim, como toda outra mulher do período, às vezes, a simples visão de outras mulheres com suas famílias, maridos e filhos, provocava um enorme mal-estar, levando à Rainha a um frenesi de solidão, ciúmes e raiva.

Crenças contemporâneas sobre os “insaciáveis” apetites sexuais femininos, em conjunto com o fracasso de Elizabeth em casar-se, alimentaram suspeitas de que a rainha estava envolvida em relações sexuais secretas. Seus adversários católicos desafiaram sua virtude e acusaram-na de uma “imunda luxúria”, que havia “contaminado seu corpo e país”. O rei da França, certa vez brincou dizendo que uma das grandes questões do dia era “se a rainha Elizabeth era uma donzela ou não”. As Cortes da Europa estavam alvoroçadas com a fofoca sobre o comportamento da rainha da Inglaterra.

Captura de Tela 2015-08-08 às 16.18.41Há fortes indícios de que ela provavelmente tivesse vários affairs. Elizabeth certamente teve a oportunidade: ela estava constantemente cercada por homens e exercia uma posição de poder sobre eles. A partir do momento em que tornou-se rainha, ela baseou-se em seus recursos de profunda inteligência e famosa sagacidade dos Tudor, sendo auxiliadas por uma sucessão de conselheiros, principalmente do sexo masculino.

Seus primeiros escândalos de cunho sexual, iniciaram-se desde cedo. Thomas Seymour, marido de sua ex-madrasta Catarina Parr – um arrojado bon vivant em seus trinta e tantos anos -, desenvolveria um estranho, novo e doentio affair com sua jovem enteada – com então, 14 anos. Thomas era carismático e encantador e é possível que Elizabeth tenha desenvolvido uma certa paixão adolescente por ele. Ambos tinham uma energia sexual muito forte. Embora não saibamos a real natureza sexual das empreitadas de Seymour à jovem, sabemos no entanto, que ele soube trabalhar tais emoções adolescentes, aproveitado-se delas.

Thomas visitava os aposentos de Elizabeth logo no início da manhã, para brincar com ela em sua cama. Em outras ocasiões, eles brincavam no jardim; certa vez, Seymour chegou a arrancar seu vestido negro de luto pela morte de seu pai. Naturalmente, o assunto veio a público, quando Elizabeth foi supostamente encontrada à sós com o Almirante. Elizabeth negou qualquer escândalo ou mau comportamento. Porém, as coisas haviam ido longe demais…

250px-Thomas_Seymour_DenizotNo início de 1548, ela é obrigada à deixar a casa de sua madrasta, sob circunstâncias questionáveis. Interrogatórios foram feitos à partir de testemunhos de Kat Ashley e pessoas próximas à jovem. Houve até rumores de que Elizabeth estava grávida de Thomas Seymour e que havia ido para a casa de Thomas Parry para dar à luz. A própria Elizabeth fora questionada, mas jurou ainda ser virgem e nada fora provado. Ela resistiu a todos os interrogatórios de Sir Robert Tyrwhit e fez um anúncio público, a fim de manter sua reputação. O escândalo aterrorizou a jovem e ensinou-lhe uma grande lição: Ela teria de ser cautelosa e cuidadosa com o modo que levaria certos assuntos à público. Muito provavelmente, este amargo acontecimento, ensinou à jovem que o cuidado e descrição, eram a chave de tudo.

David Loades em seu livro – Rainhas Tudor – Aponta a natureza sexual do relacionamento:

”Recentemente tem-se afirmado que ocorreram mesmo relações sexuais e que o fato de não ter engravidado, convenceu Elizabeth de que era infértil. No entanto, trata-se de pura especulação, com base em um comentário que a rainha proferiu em 1556 – quando foi informada do bem-sucedido parto de Maria, Rainha dos Escoceses. O que parece claro, é que a jovem Elizabeth “despertou” totalmente com esta experiência e daí em diante, soube que atraía sexualmente os homens…”.
Robert_Dudley_LeicesterOutro polêmico possível affair em sua vida – provavelmente o mais provável de ter ocorrido – foi o com seu amigo de infância e futuro favorito, Robert Dudley – a quem ela tornou Conde de Leicester em 1564. O ”doce Robyn” viveu durante a maior parte de sua carreira como mestre dos cavalos – posição que Elizabeth nomeou-lhe e que garantia contato quase diariamente – e o mantinha separado de sua esposa Amy. A esposa de Dudley estava morrendo lentamente, provavelmente de câncer de mama, mas Dudley deixou sua mulher doente em seu castelo, preferindo manter-se no serviço quase constante da rainha. É desnecessário dizer, que o fato de Dudley estar casado com uma mulher doente – porém mesmo assim não abandonar os serviços de sua Rainha – tornou-se a mais suculenta fofoca na Inglaterra elisabetana.

Desde os primeiros meses de seu reinado, espalharam-se rumores do relacionamento de Elizabeth com Dudley. O embaixador espanhol relatou ao rei da Espanha que “Lord Robert, estava em tamanho favor real, que ele fazia tudo o que queria e ainda dizem que Sua Majestade o visita em suas câmaras, dia e noite”. A afeição de Elizabeth com Dudley foi tão grande, que ela quase não preocupava-se com as fofocas públicas. Dizia-se que ela mantinha uma imagem de Dudley em seu quarto da qual recusava-se a se afastar.

Porém, quando Lady Dudley caiu das escadas e morreu quebrando o pescoço, muitos ingleses especularam que Leicester havia mandado alguém empurrá-la da escadaria, desta forma, assassinando sua esposa para que pudesse casar-se com a Rainha. Outros ainda teorizaram que foi a própria Elizabeth que havia encomendado o assassinato – embora a maioria desconsiderasse tal idéia. Nos anos que seguiram-se, sua estreita relação continuou, porém qualquer possibilidade persistente de um futuro casamento, fora deixada de lado.

220px-AmyrobsartOs conselheiros de Elizabeth estavam determinados a garantir um casamento favorável para ela, tanto como meio de consolidar a posição da Inglaterra na Europa, como para fornecer um herdeiro para sucedê-la. Não houve falta de pretendentes – incluindo Filipe II de Espanha; Erik XIV da Suécia e o Arquiduque Fernando e Carlos da Áustria -, ninguém conseguiu ganhar o favor da rainha ou o apoio unânime de seu conselho. Porém, por volta de 1566 no entanto, eles simplesmente esperavam por um herdeiro e emitiram uma declaração naquele mesmo ano, incentivando Elizabeth a casar-se com quem quisesse, desde que o fizesse logo. No entanto, Elizabeth continuava confundindo seus pretendentes, fingindo estar à procura de um marido, mas de alguma forma, sempre encontrando uma maneira de romper as negociações maritais no último segundo. Embora as negociações estrangeiras continuassem, ela gostava da atenção de jovens cortesãos, como Thomas Heneage, Christopher Hatton, Walter Raleigh e mais tarde, Robert Devereux – Conde de Essex. Todos que flertaram em seu caminho, consequentemente conseguiam o favor da Rainha.

Uma das negociações de casamento, foi com o Duque de Alencon, irmão do rei francês. Após um novo e repentino rompimento, alguns de seus cortesãos foram surpreendidos pelas lágrimas da rainha. Porém, era óbvio o motivo delas. Seu cansado corpo de mulher, chorava. Aquele corpo ainda tinha a esperança de receber o toque de um homem e de gerar o nascimento de uma criança, mas sentia-se aflito, receoso. Ela no entanto, via que independente de sua vontade em relação à tal questão, o tempo estava passando e ele era cruel.

250px-Lettice_Knollys1Mesmo com tantos homens e pretendentes, Robert Dudley permaneceu o primeiro e talvez único amor da Rainha. Talvez como uma reação ao casamento secreto de Dudley com Lettice [Knollys] Devereux, viúva Condessa de Essex – em Outono de 1578 – no ano seguinte, Elizabeth recebeu Francois, o Duque de Anjou – irmão do rei da França – à Corte inglesa, para apresentar seu termo para um matrimônio. Mesmo perturbada e irritada com Dudley, Elizabeth continuou a amá-lo.

De acordo com Alison Weir , “Elizabeth ficou devastada quando ele casou-se pela segunda vez, e passou a ignorar completamente nova esposa; em seguida, ela continuou a comportar-se como se Robert nunca houvesse se casado”.

Elizabeth e Anjou, não era um casal ideal. Anjou tinha vinte e poucos anos, era minúsculo e marcado de varíola, além de ser católico e amplamente considerado como travesti. No entanto, Elizabeth sempre desejou ser cortejada pessoalmente por um de seus ilustres pretendentes e por um tempo, parecia ser genuína suas afeições e interesse em Anjou, a quem ela carinhosamente chamou de seu “sapo”.

Após algumas semanas, Anjou retornou à França e as negociações pareciam vacilar em face da oposição pública à união, mas em outubro 1581, Anjou retornou à Inglaterra. Desde sua visita anterior, ele continuou a escrever cartas de amor para a rainha, na qual ele expressou seu desejo de ser “beijando e re-beijado em todos os lugares que vossa bela majestade possa imaginar”, assim como estar “na cama entre os lençóis, em seus belos braços”.

Anjou_1570louvreApós sua chegada em Londres, Elizabeth mais uma vez parecia encantada e arrebatada pela presença de Anjou, e em 22 de novembro, quando a Corte foi montada em Whitehall para celebrar as festividades do Dia da Adesão, Elizabeth declarou em público, que tinha a intenção de casar-se com ele. Ela começou então, a beijá-lo na boca e dar-lhe seu anel. No entanto, durante a noite, Elizabeth aparentemente tinha segundas intenções e anunciou no dia seguinte, que não casaria-se com Anjou.

É duvidoso que Elizabeth realmente tivesse a intenção de seguir em frente com tal matrimônio – dada a hostilidade popular referente a ele -, mas quando Anjou finalmente partiu, ela mostrou-se estar muito triste e agoniada com a perda de seu amante “à quem ela a contragosto, separou-se”.

Foi à partir deste momento, que a icônica imagem da Rainha Virgem iria entrar para a história. A década que estava prestes a começar, foi a era mais gloriosa de seu reinado, culminando com a derrota da Armada Espanhola.

Para isto, ela passou a encarnar profundamente suas próprias investidas e propagandas. Ela tornaria-se a figura da virgem, intocada, amada e casada com seu reino. Sua vestimenta mudaria drásticamente, O uso de camadas de ceruse branco na face, colo e mãos, assim como vestes muito mais ornamentadas e bufantes, projetariam a nova figura reinante inglesa. No momento em que dirigiu-se à suas tropas em Tilbury – um dos mais inspiradores de seu reinado – ela trajava uma placa de metal sobre seu corpete.

elizabeth_i_armada_portraitEm 1588, quando Leicester faleceu, Elizabeth ficou tão deprimida que trancou-se no quarto e Lord Burleigh (William Cecil) finalmente teve de mandar derrubar a porta, a fim de forçá-la a se alimentar.

Ela enfrentaria outro grande problema, quando Lady Catherine Grey – que muitos consideravam a presuntiva herdeira ao trono – casou-se em segredo. Elizabeth temia que as pessoas pudessem preferir uma mulher casada (e portanto, que teria o constante conselho de um homem e a possibilidade de um herdeiro) e tentassem derrubar seu reinado. Como resultado, Elizabeth aprisionou a concorrência na Torre de Londres.

Conforme ia envelhecendo e isolando-se cada vez mais, ela continuou procurando a atenção de jovens cortesãos. Robert Devereux, o jovem Conde de Essex e enteado de Robert Dudley, foi o último grande flerte de Elizabeth. Apesar da diferença de idade entre eles, a natureza da relação foi novamente especular. Ele logo tornou-se mestre do cavalo e mudou-se para os apartamentos de seu padrasto na Corte. Um dos servos de Essex, vangloriou-se de que “mesmo à noite, meu senhor está em cartas ou um jogo ou outro com ela, e que não vem a seu próprio alojamento, até que os pássaros cantem de manhã.”

Sir_Walter_Raleigh_oval_portrait_by_Nicholas_HilliardEste porém, era um tipo diferente do relacionamento que Elizabeth teve com Dudley e estava mais baseado no desejo de uma mulher envelhecida em sentir-se jovem e atraente, ao flertar com um jovem e belo cortesão. Ela era filha de seu pai. Henrique VIII sentiu-se atraído por Catarina Howard, por quase os mesmo motivos. No entanto, Elizabeth nunca mais foi arrastada por suas emoções, a ponto de perder seu grande senso de realidade política. Em 1601, após o que foi visto como uma tentativa de golpe contra ela, ela ordenou a execução de Essex.

Em seguida – em 1603 – Elizabeth com quase 70 anos, morreu solteira e celebrada como a grande “Rainha Virgem” da Inglaterra. No entanto, sua morte só serviu para retomar a especulação sobre sua vida privada. Seria a rainha uma hermafrodita, um homem, estéril? Nos anos que seguiram-se, as dúvidas sobre a virgindade de Elizabeth, não estavam mais confinadas ao hostil discurso católico e havia uma crescente impressão de que os sentimentos privados de Elizabeth, haviam comprometido a integridade de seu reinado.

A vida sexual de Elizabeth continua a ser um tema de grande interesse e debate mesmo nos dias de hoje. No período elizabetano, a questão foi uma constante fonte de fofocas, não muito diferente de cobertura da mídia de nosso próprio tempo, de vários escândalos entre a atual família real britânica.

Robert_Devereux,_2nd_Earl_of_Essex_by_Marcus_Gheeraerts_the_YoungerEmbora não haja nenhuma evidência das muitas fofocas, na Inglaterra sussurrava-se sobre a possibilidade de Elizabeth ter tido filhos bastardos. No entanto, seu suposto celibato, também, foi igualmente uma grande fonte de fofocas; rumores abundavam que ninguém iria casar-se com ela, pois era infértil ou possuía algum tipo de deformidade sexual.

Em 1985, o professor Bakan escreveu um artigo, ou tese médica, intitulado: “Rainha Elizabeth I: Um Caso de Feminização testicular”. Neste artigo, Bakan invoca a idéia de que Elizabeth I sofria de um caso de hipersensibilidade andrógena (feminização testicular) e que este diagnóstico, explica por que nunca casou-se.

Embora altamente improvável devido as circuntâncias, Elizabeth pode ter permanecido virgem ao longo de sua vida – embora não tenha afastado-se de todo e qualquer tipo de romance e contato físico – a realidade, é que nunca teremos como afirmar.
Em vida, Elizabeth e as Damas do quarto de dormir, haviam tenazmente defendido a castidade de seu corpo, a fim de proteger sua reputação e defender sua coroa. Em morte, é certamente a possibilidade de que ela não era casta, que continua a fascinar e assegurar a duradoura popularidade e apelo de Elizabeth, a mulher – pelo sim ou pelo não – eternizada como Rainha Virgem.

FONTES:
David Loades – Rainhas Tudor: AQUI.
S
park Notes: AQUI.
History Extra: AQUI.

Daily Mail: AQUI.

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