Capítulo Elizabeth I do livro Rainhas Tudor de David Loades

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Mil perdões por apenas postar isto agora. A querida leitora Élen Waschburger – que tem como projeto acadêmico as representação de Elizabeth I em obras cinematográficas – trabalho incrível por sinal – enviou há muito tempo, o capítulo completo de Elizabeth I do livro de David Loades. Como sei que muitos poderão precisar do documento para fins acadêmicos, resolvi disponibilizar na página. Meu muito obrigada à Élen, pela atenção e cuidado.

Elizabeth_I_Rainbow_PortraitLOADES, David. A soberana solteira: Isabel I. In: LOADES, David. As rainhas Tudor: o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV e XVII). Portugal: Caleidoscópio, 2010. p. 225243

A SOBERANA SOLTEIRA: ISABEL I  

O facto mais conhecido a respeito da primeira Isabel é nunca ter casado e “ter vivido e morrido virgem”. Se de facto era virgem é uma especulação interessante, mas irrelevante neste contexto. Durante muitos anos, Isabel ignorou ou evitou os conselhos prementes do seu Conselho – em especial de Guilherme Cecil – e do seu Parlamento para casar e assegurar a sua sucessão. A nação política quase deu em doida de ansiedade por essa questão, e a sua ausência de acção foi considerada irresponsável quase universalmente. Olhando agora para trás, parece ter sido uma estratégia de sucesso. Durante mais de 20 anos, ela conseguiu usar a integridade do seu corpo como um símbolo da integridade do reino e, quando chegou o momento, pôde entregar o trono a um rei adulto e protestante que era também o herdeiro legítimo. No entanto, não é certo que se tenha tratado de uma estratégia. O mais provável é que Isabel não tenha tomado uma decisão política de nunca casar. Estava era demasiado ciente dos riscos que esse empreendimento envolveria e, quando as negociações chegavam ao ponto da decisão, encontrava sempre uma razão para as abandonar. O custo pessoal dessas desistências podem ter sido elevados, mas Isabel não desejava ser apanhada na armadilha de tanto tinha feito sofrer a irmã – a escolha entre ser uma boa esposa ou uma boa rainha. De modo a entender a atitude de Isabel para com o casamento, é necessário parar e tentar avaliar como é que ela via a sua posição geral. Tal como Maria, acreditava que Deus a tinha chamado para o trono, mas, ao contrário da irmã, não tinha qualquer inclinação para resolver os males de toda uma geração. Em vez disso, nos seus desígnios misteriosos, tinha-lhe atribuído a Supremacia Real e tinha-lhe dado o governo da Sua Igreja. Deus tinha-a criado mulher mas, em vez de considerar esse aspecto uma desvantagem, Isabel via-o como um desafio excitante, pois Deus também lhe tinha dado astúcia

e uma sexualidade que lhe permitia manipular os homens bastante convencionais com quem tinha de lidar. Para Isabel não havia questões “impróprias para mulheres”; o que se passava era que uma mulher tinha de gerir a situação de um modo bastante diferente.12 Não podia imitar a imagem masculina e marcial do pai, e não o tentou fazer. O equivalente feminino era a beleza e o mistério – este último em especial. Assim, decidiu-se a fazer de “femmefatale” e a surpreender e desconcertar os conselheiros que não conseguisse dominar por meio de métodos mais convencionais. Talvez muitas vezes fosse mesmo incapaz de se decidir, mas os seus célebres adiamentos e indecisões eram deliberados para demonstrar o seu controlo. Estava ciente de que só o monarca poderia tomar certas decisões importantes e não fazia tenções de que a considerassem um dado adquirido.

De forma a perceber Isabel, é necessário olhar para a sua mãe. Ela tinha apenas 3 anos quando Ana Bolena foi executada, pelo que não estamos perante um caso de exemplo e educação, mas sim de genes. A sua inteligência contundente pode ter sido herdada de qualquer um dos pais, mas Henrique não era conhecido pela sua racionalidade fria quando estava sob pressão, e a capacidade de distanciamento intelectual de Isabel vinha da mãe. Também herdou a sexualidade atrevida que tinha sido tão útil a Ana nos anos em que Henrique a cortejava, e tão prejudicial quando se tornou rainha. Isabel, tal como a mãe, não resistia a namoriscar e usava esta qualidade para manipular os homens. Quando Maria falou de “certas qualidades em que se assemelhava à mãe”, é provável que tivesse em mente uma tendência para a heresia, mas não deixava de ser uma observação arguta. Maria tinha usado a metáfora de ser casada com o reino, mas quando casou com um verdadeiro marido essa imagem perdeu a sua força.3 Isabel usou-a desde o início e tornou-se mais significativa à medida que o tempo ia passando. Quando a câmara dos Comuns lhe pediu que casasse na Primavera de 1559, quando ainda só estava no trono há pouco mais de seus meses ela respondeu:

… quando a responsabilidade pública do governo do reino me foi atribuída, pareceu-me uma loucura imponderada sujeitar-me aos cuidados que podem advir do casamento. Em conclusão, já estou comprometida com um esposo, que é o reino da Inglaterra, e isso deve bastar-vos…4

Em seguida exibiu seu anel de coroação, como prova desse casamento, e concluiu “não me censurem igualmente por não ter filhos, pois cada um de vós, tanto quanto ingleses existem, são meus filhos e familiares…”.

Era uma retórica magnífica e, se foi mesmo pronunciada nesses termos foi provavelmente aceite como tal. Só a conhecemos por intermédio dos Annales 

De Camden, publicados muitos anos depois, mas é coerente com o espírito em que agia em 1559, e o sentimento (se não as palavras) é provavelmente autêntico. Nessa época a especulação concentrava-se em com quem, e não se, a rainha ia casar, e muitos anos de actividade política infrutífera partiram desse princípio – até que o tempo acabou por pôr de parte a opção de ela ter filhos, por volta de 1580.

Já foi referido muitas vezes que Isabel era uma verdadeira actriz e que se preocupava extremamente com a sua imagem.5 No caso de Maria, não havia muito para além do estava à vista, e os seus melhores retratos mostram-na vestida com esplendor mas com um rosto carregado, a avançar implacavelmente para a meia-idade. Isabel foi sempre a Fairy Queen (Rainha das Fadas), com um rosto bonito semelhante a uma máscara, inalterado durante décadas. Não se sabe quantas pessoas viram esses retratos, mas são muitos, frequentemente em cópias contemporâneas de fraca qualidade, e é provável que todos os fidalgos tivessem um nas suas galerias ou salões de visitas como um símbolo quase obrigatório de vassalagem. Isabel estava tão consciente da importância desses retratos que redigiu um decreto em 1562 (quando a sua beleza tinha sido afectada pela varíola), a proibir que se fizessem mais retratos. Posteriormente, Nicholas Hilliard receberia direitos exclusivos sobre a imagem real para impedir representações pouco lisonjeiras.6 Segundo os lamentos de Maria, quando esta gritava com o seu Conselho ninguém lhe prestava atenção, sem dúvida por o atribuírem a um ataque de histerismo. Quando Isabel fazia uma birra, esmurrava algumas orelhas e as pessoas à sua volta tremiam. Quando não estavam na presença dela, sem dúvida que também atribuíam esse comportamento à excentricidade feminina, mas o problema de Isabel era que ninguém sabia se as suas fúrias reais eram verdadeira ou simuladas, e se tentassem testá-las podiam pagar muito caro. Para além da sua juventude (tinha 25 anos quando subiu ao trono) e indubitável beleza, Isabel também tinha outra vantagem sobre Maria, que se esforçava para enfatizar – era “apenas inglesa”. Tal era importante em 1558, quando o sentimento anti-espanhol era forte, e Maria era (como salientavam os inimigos) meia espanhola de sangue, e mais de meia nas afeições.7 O facto de nunca ter saído de Inglaterra e de o seu domínio de espanhol falado ser claramente inferior ao de Isabel não interessava. Apesar das suas tentativas para o evitar, o seu casamento fez com que fosse vista como uma dependente de Espanha. Não surpreendente que Isabel, tal como Feria referiu, “glorificasse o pai”; ele tinha sido um grandioso rei inglês que (podia alegar-se) tinha derrotado os franceses em três guerras sucessivas e afastado esse estrangeiro metediço que o Papa Clemente VII. Mas a mãe de Isabel também era inglesa. Apesar de ter sido educada em França e dedicada à paz com esse país, tinha puro sangue inglês – o que era importante.

Não é claro se foi uma relutância em prejudicar esta imagem que inviabilizou as suas negociações de casamento com príncipes estrangeiros, em especial com Arquiduque Carlos e com os dois Duques de Anjou. Francisco, Duque de Anjou, foi o alvo claro de um ataque de francofobia na obra de 1579, The Discoverteof a GapingGulf, de John Stubbs, que encolerizou a rainha tanto pelas suas insinuações de se estar a “vender a um estrangeiro” como pela sugestão de que não controlava a situação.8 Não obstante, o nível da sua ira era o nível da justificação das críticas, cujo teor correspondia a muitas das advertências que estava a receber do Conselho. Em rigor, os dois factores que fizeram descarrilar todas estas negociações foram uma relutância em reintroduzir qualquer elemento de controlo estrangeiro sobre Inglaterra e os seus assuntos, assim como uma sensibilidade extrema por parte de Isabel a qualquer perda de sua própria soberania. Se, no final de contas, era impossível ser esposa e rainha ao mesmo tempo – então Isabel escolheria sempre ser rainha.

Havia, no entanto, a possibilidade se casar com um dos seus súbditos. Tal eliminaria um dos problemas e facilitaria o outro. Nas primeiras semanas do seu reinado, o Conde de Arundel pensou que tinha boas hipóteses, apesar de Feria o ter considerado ridículo ( e provou-se que estava certo). Lorde Roberto Dudley, no entanto, não era nada ridículo. Ao contrário dos seus concorrentes estrangeiros, era uma entidade conhecida. Vivia muito na corte – Isabel conhecia-o bem – tal como muitos outros que não eram tão bem vistos. Ao contrário da irmã, Isabel não tinha chegado à idade adulta sem qualquer tipo de experiência sexual. Com 14 anos tinha andado envolvida com o Lorde Tomás Seymour, irmão do Lorde Protector. Seymour era casado na altura e a mulher estava grávida. Ambos tinham uma energia sexual muito forte e Seymour era conhecido por ser mulherengo, mas não se sabe até que ponto chegou seu envolvimento. Pouco depois surgiram boatos de que “ela estava grávida do Lorde Almirante”, mas Isabel sempre negou ter tido relações sexuais com ele. É claro que não ia dizer outra coisa, pois claramente não estava grávida, mas é possível que fosse verdade.9 Recentemente tem-se afirmado que ocorreram mesmo relações sexuais e que o facto de não ter engravidado convenceu Isabel de que era infértil. No entanto, trata-se de pura especulação, com base num comentário que a rainha proferiu em 1556, quando foi informada do parto bem-sucedido de Maria, Rainha dos Escoceses. O que parece claro é que a jovem Isabel “despertou” totalmente com essa experiência e daí em diante soube que atraía sexualmente os homens – uma qualidade que Maria nunca possuíra.

A sua reacçãoa Lorde Roberto baseou-se nessa experiência. É quase certo que estava apaixonada por ele no sentido convencional do termo. No verão de 1560 exibia todos os sinais de estar enamorada, e Guilherme Cecil (cujo

grandioso sucesso na Escócia ela tinha quase ignorado) falou seriamente em demitirse. Havia, no entanto, uma complicação séria. Roberto já era casado, e começaram a circular boatos de que tencionava ver-se livre da mulher para casar com a rainha. Em setembro de 1560, Amy foi encontrada com o pescoço partido ao fundo de umas escadas em Cumnor Park, pelo que surgiram as conclusões óbvias. Tão óbvias, de facto, que podemos ter uma certeza razoável de que Lorde Roberto não provocou a morte da esposa. Isabel ficou arrasada. Durante alguns meses tinha parecido que a mulher que havia nela iria sobrepor-se à rainha, mas esta tragédia funcionou como um balde de água fria. O seu Conselho, e em especial Guilherme Cecil, tinha-se oposto unanimemente às pretensões de Lorde Roberto, salientando a sua falta de experiência de governo e o facto de, apesar de ser filho de um duque, o pai ter sido um novo-rico que foi executado por alta traição. Se ela tivesse encontrado uma fora de casar com ele, estaria a proporcionar rivalidade, dissensões e uma batalha interminável para definir (ou limitar) os poderes da Coroa Matrimonial. Todos estes conselhos negativos estavam agora a influencia-la. Conseguiu que o seu amante fosse finalmente ilibado através de um inquérito, mas as perspectivas de casamento depressa desapareceram, para alívio de todos excepto de Lorde Roberto, que manteria a sua pretensão (com cada vez menos hipóteses) durante mais três ou quatro anos. Isabel tinha desejado Roberto e não voltaria a desejar outro homem. O modo brutal como o seu sentido político foi forçado a impor-se aos seus sentimentos provavelmente marcou-a para sempre. Não tinha sido apenas uma questão dos atractivos sexuais dele – ela provavelmente calculou que o podia manipular de uma forma que não seria garantida no caso dos seus concorrentes internacionais. A sua falta de experiência nesse campo era uma vantagem. Talvez tivesse tão apaixonado por ele que nem notasse que a Coroa Matrimonial não significava quase nada. Talvez…

É bastante provável que Roberto desejasse Isabel com a mesma intensidade que ela o queria, mas não há como o provar. Ele também queria o título e o poder de ser esposo da rainha, e poderia com facilidade ter encontrado uma forma de se livrar de Amy sem ir ao ponto de a assassinar. É claro que teria sido um escândalo na mesma, mas podia ter sido mais fácil de gerir. Assim teve de se contentar com o estatuto duradouro de “melhor amigo”. A sua energia continuou a ter um efeito constrangedor nela, mesmo quando estava furiosa por ele ter gerido mal a questão dos Países Baixos em 1585, mas politicamente Lorde Roberto tornou-se menos implacável. A sua entrada para o Conselho Privado e a sua nomeação para Conde de Leicester em 1564 tornaram-no uma pessoa influente e um cortesão convencional, em vez de um amante da rainha cujo acesso às atenções reais nunca poderia ser previsto nem controlado. Nunca se

saberá se ela dormiu com ele durante esses meses de tensão sexual de 1560, mas quando Isabel pensou estar às portas da morte em 1562, para além de o nomear “protector” do reino sem herdeiros, negou que qualquer acto dessa natureza tivesse ocorrido entre os dois. Dada a seriedade com que encarava a sua relação com Deus, provavelmente podemos confiar nas suas palavras nessa ocasião.

Isabel sempre jurou que nunca casaria com um homem que não conhecesse, o que de um ar irreal às propostas de Érico da Suécia, do Conde de Arran, do Arquiduque Carlos e do Duque Henrique de Anjou, pois nenhum a conhecia em pessoa. O único dos seus posteriores pretendentes com quem ela se tinha encontrado (duas vezes) era o Duque Francisco, e foi no segundo desses encontros, em 1581, que ela teve um dos seus desempenhos mais problemáticos. Na altura tinha 48 anos e dependia muito de cosméticos para disfarçar o avanço dos anos; ele tinha 25 e era inconstante e ambicioso. O duque foi a Inglaterra numa última tentativa de salvar as negociações de casamento, de que necessitava urgentemente por razões pessoais, mas que aparentemente estavam empancadas. Sem o mínimo aviso, Isabel “entrou em discurso amoroso” com o seu convidado, beijou-o apaixonadamente e deu-lhe um anel, declarando que se casaria em breve com ele10. A corte ficou escandalizada, em especial as aias da rainha, que eram um grupo bastante conservador na época. Depois de uma noite mal dormida de exame de consciência, Isabel mudou de ideias e retirou a sua promessa – para enorme desilusão dele. Este incidente está bem documentado e não teve grandes consequências, mas revela que Isabel era vulnerável a “fluxos de ardor” como qualquer outra mulher. Também nos dá uma ideia breve e bastante triste do que custou à rainha preservar constantemente as suas prioridades políticas quando as suas necessidades emocionais a impeliam num sentido bastante diferente. Isabel teve um reinado duradouro e bem-sucedido, mas com o custo de nunca casar, pelo que permaneceu insatisfeita nessa dimensão. Ao contrário de Maria, nunca considerou o casamento como fazendo parte dos seus deveres para com o reino. Podia até ser verdade, mas tratou-se fundamentalmente de uma questão de tendência pessoal versus responsabilidade política, e a responsabilidade política venceu sempre.

Tal como já vimos, tratava-se em grande medida de uma questão de controlo. Isabel estava bem ciente – e, caso o esquecesse, a obra First Blast de John Knox terlhe-ia recordado – que era considerado contranatura (e até contra as Sagradas Escrituras) as mulheres exercerem poder sobre os homens10. A rainha nunca o aceitou, nem a noção de que as mulheres eram intelectualmente inferiores. Isabel tinha, e sabia que tinha, uma vantagem intelectual sobre a maioria dos homens que a rodeavam, o que lhe dava confiança para nomear os funcionários mais capazes que conseguia encontrar – mesmo quando sabia que ia entrar em

desacordo com eles. Ao mesmo tempo não os podia intimidar como o pai fazia, mas tinha de inventar os seus próprios métodos para os disciplinar. Esperava-se que as mulheres fossem indecisas, e ela tirou partido desse fato atrasando decisões importantes muito para além do que os seus conselheiros consideravam razoável. Por vezes fazia-o na esperança de uma alteração de última hora nas circunstâncias precisasse de ser levada em conta, ou que dispensasse qualquer decisão. Assim, adiou a intervenção na Escócia em 1560, na esperança de que os escoceses se desenvencilhassem sem ela. Chegou mesmo a dar instrução à marinha, que acabou por enviar para o norte, para agir como se não fosse a mando dela – um subterfúgio com que o Almirante Guilherme Winter não quis compactuar11. Isabel hesitou e procrastinou em relação a enviar apoio oficial aos rebeldes dos Países Baixos após o assassínio de Guilherme de Orange em 1558, pois esperava que não fosse necessário e não gostava dos rebeldes, mas acabou por agir quando toda a rebelião parecia estar à beira do colapso. Apesar da abundância de conselhos que recebia, Isabel reservava sempre as decisões desse tipo de assunto para si, e no fim agia com dissimulação, pois não lhe interessava revelar o funcionamento da sua mente. Esta foi uma das principais razões do seu sucesso – nenhum homem conseguir seguir o modo como se processava o seu raciocínio, o que lhe conferia o nível de controlo que desejava. É difícil dizer até que ponto é que esta estratégia foi adoptada de forma consciente, e passados tantos anos é difícil distinguir entre uma indecisão simulada e uma verdadeira indeterminação. Os seus conselheiros tinham de aceitar o que conseguiam ver. O seu comportamento em relação à assinatura da ordem da execução de Maria, rainha dos Escoceses, resume quase duas décadas de ambiguidade e hesitação, que na sua maioria parecem ter sido genuínas12.

A princípio, quando a rainha escocesa chegara a Inglaterra em 1568, Isabel tinha querido que ela voltasse ao trono mediante determinadas condições. Por exemplo, tinha de ratificar o Tratado de Edimburgo de 1560, de que dependiam todas as relações anglo-escocesas. No entanto, o Conde de Moray, o regente escocês, já tinha ido longe demais para bater em retirada. Maria tinha sido deposta em favor do seu jovem filho e não se poderia permitir que uma interferências dos ingleses invertesse a situação. Sem nunca deixar de insistir nos seus objectivos, Isabel aceitou esta situação e valeu-se do veredicto de “não provadas” em relação às acusações do envolvimento de Maria na morte do marido para manter as opções em aberto. No entanto, o envolvimento da rainha dos Escoceses na conspiração de Ridolfi em 1571 fez arrefecer o entusiasmo de Isabel pela sua devolução ao trono. Em 1573, Isabel interveio em favor do regente dessa época, o Conde Morton, contra os “Castelhanos” (nome por que era conhecido o partido de Maria da Escócia). A partir daí desenvolveu-se uma

batalha de vontades entre a rainha (que não deixou de considerar a sua hóspede como a legítima rainha da Escócia) e o seu Conselho, liderado por Guilherme Cecil e, posteriormente, por Francisco Walsingham (que a queriam levar a julgamento e, de preferência, executar). Maria era, como Cecil salientou repetidamente, o foco e o símbolo de todas as conspirações católicas, e constituía um perigo para a vida de Isabel e para a estabilidade do seu reino. A princípio Maria tinha levado a cabo uma campanha intensa para ser reconhecida como herdeira de Isabel, o que esta nunca rejeitou explicitamente, mas, com o passar dos anos, quando começou a depender mais de Filipe de Espanha do que dos seus familiares Guise de França, o foco das suas ambições mudou. Maria nunca afirmou explicitamente ser a legítima rainha de Inglaterra – não estava em posição de o fazer – mas, ao apoiar conspirações como as de Francisco Throgmorton e de António Babington, tornou bem clara a verdadeira natureza dos seus objetivos. Por fim, no seguimento da trama de Babington em 1586, Isabel já não estava disposta a lutar contra lógica das provas, pelo que concordou levar Maria a julgamento13. Também proclamou a culpa de Maria quando o veredicto assim a considerou, mas nunca deixou de a considerar sua parente e rainha legítima. O que se seguiu então é razoavelmente claro, Isabel convenceu-se do facto de Maria ter de morrer, mas estava numa ansiedade desesperada pela possibilidade de ter de responder pela morte dela perante o fórum das opiniões europeias. Tentou todos os expedientes para escapar a essa responsabilidade, sugerindo até (aparentemente) uma assassínio secreto. Quando tal não foi aceite, assinou a ordem de execução, permitiu que fosse emitida, e em seguida utilizou todos os truques do seu repertório teatral para fingir que não o tinha feito. Amuou e refilou, mandou o fiel Guilherme Davidson para a Torre e baniu o seu conselheiro mais antigo e dedicado, Lorde Burghley, da corte e do Conselho. Pode até ter ficado incomodada com o curso que tinha sido compelida a tomar, mas era uma perturbação causada pelo sentimento de já não controlava a situação, e não uma simpatia especial por Maria. Também estava, é claro, de olho no jovem rei Jaime da Escócia, que poderia ter perturbado pelo destino da mãe, e que a rainha já tinha identificado como seu provável sucessor.

No que dizia respeito à criação de mitos, Maria ganhara facilmente esse desafio. A sua saída do mundo fora tão digna e emotiva quanto os seus admiradores mais fervorosos poderiam desejar e, apesar das suas relações incertas com a Igreja, depressa foi assumida como uma mártir católica. Isabel tinha perdido totalmente a corrida pelas atenções. No entanto, seria exagerado dizer que Maria era mais perigosa morta do que viva. Uma vez que o filho era da fé reformada, o seu tipo de legitimidade católica morreu com ela. A pretensão de Jaime não foi afectada pelo modo como a mãe faleceu. Apesar de Maria poder ter vencido

a batalha romântica, Isabel ganhou a política, pois a pretensão católica passou em seguida para a Infanta Clara Eugénia, a filha de Filipe II, que tinha menos atractivos para a comunidade não-conformista, em especial tendo em conta que Inglaterra e Espanha estavam em guerra.

Isabel detestava guerras. Independentemente do que pudesse pensar das suas limitações de género noutros contextos, a guerra não era um domínio das mulheres. Não era que não entendesse as questões, mas tinha de ceder o comando estratégico aos homens que de facto chefiariam as frotas e os exércitos que operavam em seu nome, o que lhe desagradava intensamente. Fazia sentido manter o máximo dos combates no mar, pois a Escócia era (mais ou menos) amigável e em todas as outras direcções o mar funcionava como um fosso, mas também havia outra razão. Homens como Hawkins, Drake ou Frobisher, que comandavam no mar, não eram pessoas influentes e não tinham recursos militares próprios. Mostravam uma tendência irritante para ignorar as instruções, mas faziam-no sempre a uma distância segura e tinham noção dos seus inimigos espanhóis como mais nenhum dos seus soldados. Apesar de ser necessário criar um recrutamento obrigatório de vem em quando e organizar os condados para a sua defesa, o melhor era manter os exércitos de campanha o mais pequenos possível, de preferência enviá-los para o estrangeiro e manda-los comandar por soldados profissionais de segunda categoria. Apesar das tendências de Isabel para manter os seus comandantes com falta de recursos, havia algum sentido nesta estratégia. Tanto Sir João Norris na Bretanha como Lorde Mountjoy na Irlanda tiveram um sucesso razoável, mas quando a rainha cedeu à pressão das circunstâncias e utilizou nobres no estrangeiro, estes acabaram por falhar repetidamente. O conde de Leicester estragou completamente a sua comissão nos Países Baixos em 1585-86, assim como o Conde de Essex na Normandia em 1591. A intervenção de Essex na Irlanda em 1599 foi ainda mais desastrosa e, se este não fosse tão incapaz em todos os aspectos, poderia ter sido ma ameaça para a Coroa. A única exceção parcial foi o papel deste mesmo conde na investida de sucesso a Cádis em 1596, e ainda assim a frota estava sob o comando do Lorde Carlos Howard.

Isabel conseguiu combater uma guerra longa e de sucesso razoável sem nunca ceder totalmente as prioridades militares. Os militares como Essex e Howard tornaramse importantes no Conselho, mas a gestão permaneceu nas mãos de civis – primeiro de Lorde Burghley, e depois do seu filho Sir Roberto Cecil. Tratava-se de um exercício de equilíbrio que envolvia uma perícia considerável, tendo em conta as exigências financeiras que a guerra estava a gerar e a necessidade constante de recorrer ao Parlamento para obter subsídios. Em 1601 a combinação realizada por Isabel da retórica da “Virgem Mãe” e da postura feminina estava a desgastar-se, mas continuava a ser-lhe útil e não

precisou de se reunir com nenhum parlamento nos últimos dois anos de vida. Em 1558 tinha ocorrido o teste supremo à fibra da rainha, quando se esperava uma invasão liderada pelo Duque de Parma a partir dos Países Baixos. O exército reunido para se lhe opor não ultrapassava os 12 a 14 mil soldados, pois a grande maioria dos homens capazes estava a ser reservada para a defesa local, ou então porque, mesmo numa emergência, Isabel estava relutante em ter um exército mais numeroso no seu território. A eficácia deste exército podia estar em dúvida, mas não sua lealdade, e quando Isabel assumiu o papel de comandante-geral foi saudada efusivamente. Alegadamente teria dito:

Meu povo carinhoso, algumas pessoas que se preocupam com a minha segurança convenceram-me a ter cuidado com a forma como me relaciono com multidões armadas, devido ao medo de traição, mas digo-vos que não desejaria continuar a viver se desconfiasse do meu povo fiel e carinhoso. Os tiranos que temam!… Venho para o meio de vós neste momento… estando decidida a sacrificar a minha honra no calor do combate, pelo meu Deus, pelo meu Reino e pelo meu Povo, e a derramar o meu sangue nesse campo de batalha. Sei que tenho o corpo de uma mulher fraca e frágil, mas tenho o coração e a coragem de um rei, e de um rei da Inglaterra…14

Tudo isto era muito estimulante, ajudado pelo facto de estar vestida de armadura como uma Joana D’Arc de uma época posterior. Estas palavras encontram-se em relatos e podem não ser totalmente autênticas, mas o sentimento é, e coaduna-se com toda a sua abordagem ao reinado. Quando falou em Tilbury a Batalha de Gravelines já havia terminado e o principal perigo tinha sido afastado, mas ela podia não o saber ainda – o seu público de certeza que o ignorava15. A estratégia militar de Isabel, como este discurso, era em grande medida defensiva. Ela podia ser agressiva tacticamente, como no caso de Cádis, mas o seu objetivo foi sempre o de proteger a integridade e os interesses de Inglaterra. A única exceção a esta generalização surgiu logo no início do seu reinado, quando se aliou aos huguenotes em França numa tentativa de recuperar Calais. Essa aventura invulgar em 1562-63 foi em grande parte atribuída à influência de Lorde Roberto Dudley, que ainda era muito próximo da rainha nesse tempo (o que poderá ter sido verdade, uma vez que se sabe que tanto Guilherme Cecil como o Marquês de Winchester foram contra essa medida). Tudo terminou em desastre e a lição – se era necessária – não passou despercebida a Isabel. Daí em diante seguiu uma política dupla de permitir (e até encorajar) actos de pirataria aos seus marinheiros, enquanto negava terminantemente qualquer envolvimento e professava o seu desejo contínuo de amizade com o seu “bom irmão” de

Espanha. Não é surpreendente que este tenha almodiçoado essa duplicidade em privado, que atribuía ao sexo dela, ignorando o facto de o seu bisavô, Fernando de Aragão, ter sido ainda mais adepto.

Isabel forjou a sua metodologia de governo porque o único modelo disponível, o da sua irmã Maria, não era satisfatório – e no centro desse improviso estava a sua fé religiosa. Nada poderia ser mais falso do que a ideia tradicional de que Isabel era uma mera oportunista quando se tratava da sua relação com Deus.15 Tinha-se subjugado durante o reinado da irmã porque não existia nenhuma alternativa sensata. A irmã tinha-a sujeitado a uma pressão incansável, que lhe causara enormes ressentimentos, pela mesma razão que a própria Maria tinha sido pressionada pelo Conselho de Eduardo. O seu perfil de herdeira do trono era muito saliente, e poderia ter servido de foco para uma resistência aberta. Além disso, depois do Verão de 1555 parecia tratarse de uma questão de quando, e não de se, chegaria o seu momento. Guilherme Cecil, o seu amigo e confidente, fez o mesmo, com uma jurisdição um pouco mais fraca, pois nenhum dos dois via motivos para se tornar um mártir quando as perspectivas a longo prazo pareciam tão promissoras. Assim, ambos foram o que John Knox chamou desrespeitosamente de “Nicodemitas”. Para ele era fácil; estava na segurança de Genebra! Ninguém acreditava verdadeiramente na conversão de Isabel. A irmã não estava de modo algum convencida e foi incansável na sua hostilidade. No entanto, a submissão existia, e tinha de bastar. Entretanto os protestantes continuavam a vê-la como a sua grande esperança. Quando um monarca era impopular, independentemente do motivo, as expectativas dos descontentes concentravam-se no herdeiro, pelo que Isabel se tornou o alvo de todo o tipo de esperanças – não só dos protestantes ortodoxos como também dos radicais, dos fidalgos sem cargos e dos mercadores londrinos descontentes por não verem cumpridas as suas ambições legítimas em África e no Novo Mundo. Isabel era considerada, tal como observou um

dissidente, “uma senhora liberal, não tão ingrata como a irmã”16. Assim, quando chegou o seu momento, em Novembro de 1558, pendia sobre ela um peso enorme de expectativas. Tão grande, de facto, que a perseguição religiosa, que ainda tinha ocorrido em plena força no verão, terminou sem que se pronunciasse uma palavra a esse respeito. Apesar de a rainha não ter explicitado a sua política e de insistir que se respeitasse o status quo, ninguém duvidava de que o reinado de Isabel era muito diferente do da irmã. Os exilados protestantes começaram a regressar e os bispos católicos em funções tiveram razão em esperar uma luta.

A verdadeira natureza das intenções da rainha já foi debatida ao pormenor, e algo desnecessariamente. Ela não se comprometia a manter o sistema instalado pelo pai, ao contrário de Maria. Era protestante, educada na mesma sala de aula do irmão Eduardo, e igualmente convencida da verdade da doutrina

reformada. Por outro lado, estava muito ciente de que a maioria dos seus súbtidos não partilhava das suas opiniões e que a via mais segura seria reinstalar “a religião como o rei Henrique a tinha deixado”. Mas não o fez, pois o seu sentido de dever para com Deus era mais forte do que a cautela política. Sir Guilherme Cecil orquestrou cuidadosamente uma campanha de conselhos para reforçar a determinação dela nesse sentido, pois Cecil estava de pleno acordo com a sua senhora nesta questão. Uma igreja protestante era uma condição sine qua non em início de 1559. As verdadeiras questões eram – que tipo de Igreja Protestante se pretendia exactamente e de que modo poderia ser concretizada? De certo modo as respostas eram claras. A igreja de Eduardo VI tinha agido sob a Supremacia Real, o que agradava ao sentido de responsabilidade pessoal de Isabel. Nem todos os protestantes tinham ficado satisfeitos com esse facto no passado, e alguns não o estariam nesse momento, mas, dadas as circunstâncias, uma lei de supremacia era inevitável. O recurso ao Parlamento era igualmente certo. Não só Henrique e Eduardo tinham efectuado as suas reformas através de decretos, mas até Maria, que teria todos os pretextos para ignorar essas leis, tinha-as revogado cuidadosamente antes de instalar o seu próprio reinado. Isabel, no entanto, era uma mulher, e a Supremacia que Henrique tinha exercido era não só pessoa, mas quase episcopal. Sob o comando de Eduardo, o Conselho tinha exercido essa supremacia, mas tanto os membros desta instituição como rei em cujo nome agiam tinham sido masculinos. Maria tinha mantido o título durante alguns meses, mas sem convicção, e tinha-se visto livre dele assim que pôde. Não existia nenhum precedente para que uma mulher tivesse a seu cargo tamanha responsabilidade, pelo que se seguiram muitos debates angustiosos. Por fim Isabel decidiu assumir o título de “Suprema Governadora”, que implicava uma função mais administrativa do que espiritual. Em certo sentido tratava-se de uma distinção sem sentido, porque os poderes da rainha para governar a Igreja não eram afectados, mas era um gesto conciliatório para aqueles (protestantes e conservadores) que não acreditavam que uma mulher pudesse exercer uma função sacerdotal, mesmo através de representantes. Isabel não se deixou inibir por essa limitação. Governou a Igreja através de um Alto Comissariado (que, é claro, era exclusivamente constituído por homens), mas reservou implicitamente para si a decisão final em todos os assuntos, que administrativos ou de doutrina. Ai do membro do clero pouco avisado ou do panfletário que tentasse dar-lhe lições a esse respeito! Isabel depressa demonstrou que, tal como tinha sido seu dever para com Deus estabelecer o seu reinado dessa forma, tinha o dever similar de o defender de qualquer tentativa de “mais reformas”.

A lei de supremacia foi aprovada na Câmara dos Comuns quase sem discussão, o que constituiu um comentário interessante à suposta força do sentimento

católico em Inglaterra nessa época, e passou na Câmara dos Lordes com apenas uma mão cheia de pares leigos a apoiarem os bispos na sua dissensão. A lei de uniformidade, no entanto, foi uma questão diferente, pois na verdade não agradava a ninguém a não ser à rainha e uns poucos dos seus conselheiros. Ao reintroduzir o Livro de Orações de 1552, ofendia todos os que seguiam a Igreja de Henrique, apesar de fazer algumas pequenas concessões conservadoras e de deixar o caminho aberto à manutenção de vestes litúrgicas mínimas, conseguia ofender igualmente os protestantes “mais acirrados”. No entanto, desta vez houve discussão na Câmara Baixa e houve cerca de 20 pares leigos a apoiarem os bispos. Sir Nicolau Bacon, que presidia na qualidade de Chanceler-Mor, não levou o projecto-lei a votação, tal era a proximidade das duas facções, e a rainha aproveitou a proximidade da Páscoa para adiar a reunião. O que poderia fazer? Será que a Supremacia podia ser aceite sem a Uniformidade Protestante? Isabel decidiu claramente que não, e que este assunto tinha de ser alvo de uma nova tentativa. Durante a suspensão temporária de actividades, instalou-se uma disputa entre os “novos” e os “antigos” e foram tomadas medidas implacáveis para expulsar dois bispos católicos por desrespeito. Tudo isso foi organizado por Guilherme Cecil e não é certo que a rainha tivesse conhecimento da artimanha; mas quando o Parlamento se voltou a reunir, Bacon levou o projecto controverso a votação e aprovou-o com maioria por um voto!

Os desejos da rainha foram assim realizados. No verão de 1559 ela tinha a sua própria Igreja, e organizou-se uma tournée real para a implementar. Um por um, os bispos conservadores recusaram-se a subscrever essa Igreja e foram destituídos, ao que parece para grande desilusão da rainha (apesar de não se perceber porque esperaria outro resultado). Cerca de uma dúzia de Sés ficaram vagas devido a mortes prematuras e Isabel teve assim uma oportunidade ouro para moldar a sua Igreja à vontade. Tinha deliberadamente escolhido uma forma de governo episcopal, pois tal correspondia às suas noções de correcção e daí em diante tratou os bispos como seus servos e agentes. Não tinha o conceito de episcopado iure divino e tornara claro – em especial ao arcebispo Grindal – que espera obediência, mesmo quando se tratava da liturgia e dos sentimentos da Igreja. Não havia qualquer aspecto de simulação neste sentido de responsabilidade única. Isabel sabia perfeitamente que não se pode fingir perante Deus, mesmo que seja a rainha de Inglaterra. Para uma mulher que é acusada de protelar constantemente, a defesa da sua política eclesiástica foi decidida e consistente. Guilherme Cecil, que durante muitos anos tentou levá-la a efectuar mais reformas, acabou por o perceber, e até respeitou sua sensatez. Durante dez anos, a rainha concentrou-se em envolver o máximo de súbditos conservadores, o que resultou bastante bem, pois os líderes católicos discutiam qual seria a melhor forma de confrontar essa

mulher invulgar. Então, em 1570, o Papa tomou decisão por eles ao excomungá-la e ao dispensar os seus súbditos da sua vassalagem.17 Este facto teve um efeito muito útil ao associar a vassalagem ao protestantismo, unindo assim a maioria dos seus súbditos na Igreja estabelecida. Independentemente do que os ingleses sentiam a respeito de uma mulher exercer uma jurisdição espiritual, tinha-se tornado a forma nacional de agir e foi duplamente útil para distinguir a Igreja Inglesa da que era controlada a partir de Roma. Não há duvida que Deus escrevia certo por linhas tortas, mas Inglaterra era – afinal – o Novo Israel.

Foi exactamente por os bispos serem seus servos que Isabel teve tantos cuidados na sua escolha. Não era fácil, pois muito dos melhores candidatos tinham antecedentes duvidosos em termos de dissensão e sérias dúvidas a respeito da supremacia real. A princípio, Guilherme Cecil elaborou listas infindáveis de candidatos possíveis, mas viu que uns eram inaceitáveis para a rainha e que outros tinham recusado a distinção. Tanto Cecil como a rainha estavam ansiosos – por razões diferentes – por tornar os lordes em bispos. Isabel queria os rendimentos deles e Cecil queria convencê-los a concentrarem-se nas prioridades pastorais, mas depressa se soube que os melhores candidatos não estavam dispostos a servir nesses termos e essa política foi rapidamente alterada para incluir compensações financeiras apelativas para quem era abordado. Cecil fez o seu melhor para assegurar a redução ou remissão da dízima, e foi bem-sucedido, um método que deverá ter tido pelo menos a aprovação tácita de Isabel. Depois de Mathew Parkerser ter sido escolhido para a Cantuária – e de aceitar a oferta – a sua opinião também tinha de ser levada em conta, o que tomou todo o processo ainda mais complicado. Cecil também não a única figura de destaque a quem rainha dava ouvidos e, apesar de os seus conselheiros normalmente prevalecerem, sabia que não devia tomar essa influência como garantida. Muitas vezes havia vagas que duravam muito tempo. Oxford chegou a estar sem um bispo em funções (excepto durante um ano) entre 1557 e 1589. Tratou-se de um caso extremo, pois as vagas médias duravam cerca de um ano, mas sublinha a dificuldade que a rainha e o conselho tiveram para encontrar candidatos adequados. Não há provas de que o género de Isabel tivesse alguma influência nesse processo, apesar de ser possível que alguns dos candidatos iniciais terem recuado perante a ideia de servir uma Suprema Governadora. Também não é verdade que rainha tenha sido particularmente contra bispos casados. Alegadamente terá desprezado a esposa de Mathew e manifestado um descontentamento geral em relação aos membros do clero casados, mas podemos afirmar que nunca permitiu que qualquer consideração de estado civil impedisse a promoção de um homem que tivesse outras qualidades. É muito provável que ela preferisse ter um clero celibatário, tal como preferia um nível modesto de ornamentação nas igrejas

e gostava de música religiosa, mas nada disso inibiu o seu firme compromisso para com um conjunto de bispos que muitas vezes tinham opiniões diferentes.18 O único aspecto que não era negociável era o seu controlo pessoal sobre essa Igreja que tanto tinha feito para criar.

Havia muitas poucas imagens bíblicas de poder feminino. A Virgem Maria era tradicionalmente o modelo feminino principal na Igreja, mas era um símbolo de submissão e dependência, não de autoridade. Além disso, estava pouco em voga na teologia protestante, devido a uma tendência de finais da Idade Média para salientar o seu papel de intercessora – e até de a equacionar com a divindade. Apesar de ser possível que o “culto da personalidade” da rainha tenha ocupado o lugar deixado vago pela Virgem na mente de alguns leigos, podemos presumir que tal nunca fez parte das intenções de Isabel. Foi conseqüentemente a figura de Débora, a Juíza de Israel, que foi utilizada para servir a necessidade de uma imagem divina por parte da rainha. Esta associação ocorreu logo desde cedo. Durante a sua entrada de coroação em Londres em Janeiro de 1559, um dos cortejos representava “Débora, com os seus pares, a discutir o bom governo de Israel” e os versos proferidos pela criança encarregue da narração continham uma referência óbvia à mudança de regime que tinha ocorrido recentemente:

Jabim, rei de Canaã, há muito pela força das armas

Oprimira os israelitas; que eram o povo de DEUS

Mas DEUS querendo, por fim, tratar os seus males,

Enviou a digna Débora para ser sua Juíza…19

Era claramente uma tentativa, rapidamente apoiada pela obra Harborow for True and Faithful Subjects de John Aylmer, de combater o fogo bíblico de First Blast de Knox com um fogo equivalente que o contrariasse a partir da mesma fonte de autoridade única. Só podemos supor qual seria a própria atitude da rainha em relação a esta imagística, mas nunca tentou evitar o seu uso e, por isso, devemos concluir que a aprovava. O seu próprio gosto por figuras simbólicas era mais cortesão e clássico. Era Astreia, Belphoebe e, acima de tudo, Gloriana, a rainha das Fadas na imaginação palaciana de Edmund Spenser.

Ela é a poderosa Rainha das Fadas,

Cujo belo retrato ostento no meu escudo,

É a flor da graça e da castidade,

Reconhecida em todos os cantos do mundo,

Minha vida, minha suserana, minha Soberana, minha querida…20

Foi este tipo de imagística que instigou os torneios do Dia da Subida ao Trono, essas celebrações seculares de 17 de novembro que foram criadas por Sir Henrique Lee na década de 1570. Destinavam-se a ser uma fantasia e uma política simbólica, e foram concebidos para ocupar o lugar dos festivais religiosos agora banidos pelo governo protestante – o teatro dos mistérios e as procissões de Corpus Christi. Um espectador alemão, Lupold von Wedel escreveu um desses torneios em 1584:

Os combatentes tinham servos vestidos de várias cores… alguns estavam disfarçados de selvagens, ou de irlandeses, com o cabelo até à cintura como mulheres, outros tinham cavalos aparelhados como elefantes, algumas carruagens eram puxadas por homens, outras pareciam mover-se por si sós… Alguns fidalgos tinham os cavalos com eles, e montavam de armadura completa directamente a partir das carruagens…22

Isabel adorava esses festejos e a lisonja que neles abundava. O Conde de Feria tinha observado logo no início do seu reinado que ela era muito vaidosa e que adorava os elogios das multidões. Tal não se alterou à medida que envelheceu; só gradualmente é que a admiração genuína pela jovem esperta e bonita se tornou uma espécie de coro sicofântico – um ritual que todos os cortesãos deveriam manter. Não se sabe se Isabel chegou a notar a diferença.

Não é não estivesse ciente da passagem dos anos. Tendo também dotes de poetisa, escreveu com um certo humor malandro, algures da década de 1580:

Quando era bela e jovem, e estava nas boas graças, Era procurada por muitos, para ser sua amante, Mas desprezei-os a todos, dizendo-lhes então:

“Ide, ide, ide, procurar noutra parte, não me importuneis mais” Mas aí o belo filho de Vénus, esse bravo jovem vitorioso,

Disse “Ora, senhora desdenhosa, uma vez que sois tão recatada, Ferirei então o vosso coração, para que aprendais assim Ide, ide, ide, procurar noutra parte; não me importuneis mais”.23

Isabel esteve sempre extremamente ciente da sua feminilidade, acima de tudo quanto lamentava o custo pessoal elevado que pagou para manter a sua autoridade e dignidade intactas.

O testemunho mais triste desse mundo de oportunidades perdidas encontra-se no trajecto do Conde Essex. Roberto Devereux, o segundo conde, era neto do Conde de Leicester e foi por ele apresentado à corte em 1584, quando tinha quase 18 anos. Era muito bonito, tinha muitas boas maneiras e teve um impacte imediato. Foi com o pai aos Países Baixos em 1585 e foi aí que criou

22 G. von Bulow, “Journey through England and Scotland, Made by Lupold von Wedel in the Years 1584 and

1585”, Transactions of the Royal Historical Society, n.s. 9 (1895), pp. 258-9 23 Elizabeth I:  Collected Works, pp. 303-4.

uma imagem imerecida de si mesmo como sendo um soldado grandioso e arrojado. Na primavera de 1587 era claramente o favorito que se seguia. “Quando ela [a rainha] está fora, ninguém está mais próximo dela do que o meu amo, o Conde de Essex; e à noite o Conde joga às cartas com ela, ou qualquer outro jogo, [pelo que] só volta aos seus alojamentos quando os pássaros começam a cantar de manhã”.21 Mais tarde, nesse mesmo ano, tornou-se Chefe da Cavalaria, um cargo que o Conde de Leicester tinha abandonado com esse propósito, e quando Leicester faleceu no ano seguinte, Essex ocupou o seu lugar em mais do que uma forma. Nunca foi amante da rainha na mesma acepção em que Roberto tinha sido, mas tornou-se o jovem que preenchia as necessidades emocionais de uma mulher de meia-idade, e em certa medida o filho que ela nunca viria a ter. Infelizmente, os gostos emocionais de Isabel nunca foram tão discriminatórios quanto aos políticos. No governo era servida por Guilherme Cecil, Nicholas Bacon, Francisco Walsingham, Christopher Hatton, Mathew Parker e John Whitgift. Só errou no caso de Edmundo Grindal. No entanto, os homens com quem teve laços pessoais foram: (acima de todos) Roberto Dudley, um homem de temperamento inconstante com mais charme do que bom senso; em segundo lugar, por pouco tempo, François, Duque de Anjou, um desastre em todos os sentidos; e finalmente Roberto Devereux, um homem de uma vaidade monumental e sem qualquer sentido de realidade.

Roberto cometeu o erro de tentar transformar o seu favorecimento pessoal em poder político. Acredita que era um grande general e uma figura importantíssima, sem que tivesse nenhuma dessas qualidades. Não teve qualquer sucesso na segunda, pois a rainha (com razão) não confiava nos seus conselhos, mas preferiu atribuir a culpa do seu fracasso às maquinações de Sir Roberto Cecil, o filho de Lorde Burghley, e criou uma disputa danosa com base nesse pressuposto. Na primeira dessas qualidades o seu único verdadeiro sucesso foi a tomada de Cádis, e ainda assim acabaria por arruinar as suas perspectivas nesse campo ao discutir com o Lorde Almirante. Em seguida acabou por se pôr num beco sem saída a respeito da nomeação do novo Governador da Irlanda, acabando numa posição com muita má vontade, estragou completamente a missão, voltou a Inglaterra sem autorização da rainha, e aproveitou o seu estatuto privilegiado para invadir o Conselho Privado a uma hora imprópria. Dificilmente se poderia imaginar um programa de autodestruição mais completo, mas mesmo assim continuar a culpar Sir Roberto Cecil pela sua má sorte. Durante anos Isabel tinha estado intrigada como exasperada pelo seu comportamento, mas desta vez a exasperação prevaleceu. Recusou-se a renovar-lhe o monopólio de vinhos doces, arruinando-lhe assim as finanças extravagantes e convencendo a mente instável

dele que era vítima de uma conspiração diabólica. O resultado foi um golpe de Estado falhado em Fevereiro de 1601, uma sequência de acontecimentos que revela conclusivamente quão irreal era a imagem que tinha de si mesmo. Parecia imaginar que Londres se ergueria em resposta ao apelo de alguém que tinha sido (em 1596) o seu herói. Quando os londrinos se mantiveram impávidos não teve alternativa senão renderse – sem dúvida na esperança de que as cinzas do afecto da rainha pudessem reacender-se para o salvar. No entanto, tinha ido longe demais. O seu crime era o de traição e pagou o preço adequado. Só depois de estar morto e enterrado é que os arrependimentos inundaram Isabel. Segundo se diz, nunca recuperou da obrigação de executar o seu favorito de outrora e faleceu dois anos depois.22 O destino de Essex é um testemunho extremamente triste de uma vida emocional que foi constantemente pouco acertada e frustrada. Foi apenas a sua capacidade de manter separadas a vida pública e privada (nem sempre reconhecida, quer na época ou desde então) que transformou o longo reinado de Isabel de um desastre potencial num triunfo efectivo.

Sir John Davies referiu que todas as questões de Estado “parecem assumir um modo de dança estatal”. Por outras palavras, era muito difícil distinguir onde acabavam as charadas do entretenimento cortesão e onde começavam as questões sérias da política. Nenhum homem tinha conseguido essa mistura ou sobreposição como Isabel. A sua imagem, a sua arte dramática e todo o seu estilo de governo eram singularmente femininos. Os homens com quem tinha de lidar constantemente ou ficavam fascinados, ou espantados e enraivecidos por esses métodos, e a rainha acabou por sofrer as consequências. Em 1603 a Inglaterra já não tinha um rei há 50 anos e havia um grande desejo de passar da incerteza a algo constante. Jaime podia ser um estrangeiro e não tinha qualidades guerreiras, mas Isabel tinha-se tornado uma senhora idosa muito irritante. As suas pinturas e perucas constituíam uma tentativa corajosa de manter a beleza e mistério que tinham sido o seu truque do ofício, mas quem a conhecia bem já não se deixava enganar. O mais importante foi o facto de ter conseguido, desde o início do reinado, aquilo em que Maria claramente falhara – criar uma monarquia de claro teor feminino. Não sabemos se esse feito teria sobrevivido a um casamento, mas há indícios de que Isabel achava que não. Na melhor das hipóteses, o casamento teria levado a alguma falta de clareza devido à partilha de poder com o seu consorte. Na pior das hipóteses, Isabel ter-se-ia tornado uma dona de casa e mãe de grande destaque. Maria sofrera o destino da primeira opção e, apesar de haver algumas vantagens na segunda opção (de onde se destaca a geração de um herdeiro), não correspondia ao sentido de dever de Isabel. No fim de contas, Deus tinha-lhe dado Inglaterra para reinar e tal exigia uma dedicação total que se sobrepunha a quaisquer considerações pessoais:

Mas então senti de imediato uma alteração no meu peito; Os dias eram de inquietude; à noite não conseguia descansar, Pois arrependia-me deveras do que dissera antes.  

“Ide, ide, ide, procura outra parte; não me importuneis mais”.23 Talvez, mas as recompensas tinham sido consideráveis.

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