Arabella Stuart – A Rainha que não foi [Parte I]

clgu7fi3i5isnzgt7napO período Tudor, é repleto de personalidades históricas legadas ao esquecimento. Infelizmente, hoje em dia, parece que os estudos sobre a Dinastia, estão sempre ligados a nomes como Ana Bolena, Elizabeth I e Henrique VIII, nesta ordem. Em consequência disto, muitos provavelmente sequer ouviram falar da enigmática e curiosa vida de Arabella Stuart; uma mulher que assim como Maria Stuart, nasceu, cresceu e viveu, sob o estigma de ser um joguete político entre sua família. Por este motivo, resolvemos falar um pouco sobre a vida desta mulher – digna sem dúvidas, de uma incrível produção hollywoodiana -, que não merece ser esquecida pelo tempo.

Início da Vida:
Podemos dizer que Arabella (ou Arbella), foi uma menina que nasceu “à sombra do trono”. Apesar de raramente ser Captura de Tela 2015-07-18 às 08.50.46mencionada, ela foi considerada uma possível sucessora da rainha Elizabeth I.
Ela foi bisneta de Margaret Tudor, através de sua avó paterna e portanto, era prima tanto de Elizabeth I da Inglaterra, quanto do rei James VI da Escócia.

Vamos voltar um pouco antes do nascimento de Arabella, para conseguirmos entender melhor sua pretensão.

A nobre e notável Bess de Hardwick – Condessa de Shrewsbury, planejou um casamento entre sua filha Elizabeth e Charles Stuart, irmão de Henry Stuart – o marido de Maria, Rainha dos Escoceses.

Qualquer filho legítimo de Charles Stuart, teria uma pretensão à sucessão ao trono Inglês, caso Elizabeth I morresse sem filhos e assim, um casamento apressado foi organizado na Abadia de Rufford em Nottinghamshire.

Arbella Stuart nasceu em 1575. No outono do mesmo ano, a menina foi batizada na pequena vila de Edensor. O costume ditava que aqueles nascidos sob alto escalão, deveriam ser batizados não na capela privada da casa da família, mas publicamente, com toda a cerimônia condizente com a classificação da criança. Edensor foi a igreja paroquial mais próxima da imponente Chatsworth House, que foi propriedade da Condessa de Shrewsbury.

As Conexões familiares da menina eram impressionantes; ela era prima de James VI da Escócia; sobrinha de Maria, rainha da Escócia; prima em terceiro grau de Elizabeth I da Inglaterra; herdeira do condado de Lennox em seu próprio direito e ocupava o sexto lugar na sucessão ao trono Inglês.

edensor--chatsworth-park--derbyshire-trevor-nealEntre os muitos convidados da Corte e representantes de famílias vizinhas, estavam misturados os espiões de Sir Francis Walsingham. O bebê estava deitado nos braços de uma de suas madrinhas, Lady Mary Talbot, que era enteada de Bess de Hardwick. A nomeação do bebê procedeu de forma adequada a seu estado semi-real. Charles Cavendish, um dos tios de Arabella, registrou o evento.

Arabella choramingou de modo encantadoramente saudável e uma vestimenta branca, chamada de ‘chrysome’, foi colocada sobre ela. Com a devida solenidade, a pequenina fora levada para a pia batismal no centro da igreja. Ao lado de Lady Mary, estava o outro tio de Arabella, William Cavendish. Estes dois são os únicos padrinhos mencionados, mas provavelmente haviam outros três ou quatro. A criança foi então, salpicada com água benta e ungida com óleos sagrados. Os padrinhos ofereceram presentes de ouro e prata, que por sua vez foram abençoados pelo padre.

Apesar da grande cerimônia pública do batismo, quando ele foi encerrado, Lady Arabella Stuart foi vista muito raramente, ou quase nunca pelo público, até que completou 12 anos de idade. Margaret Lennox levou ambos os pais e a criança volta para Londres com ela.

Hans_Eworth_Henry_Stuart_Lord_Darnley_and_Lord_Charles_StuartQuando Charles Stuart – Conde de Lennox, sucumbiu à destruição de seus pulmões em abril de 1576, ele tinha vinte e um anos de idade e 18 meses casados. Sua morte iniciou uma discussão envolvendo a criança Arabella, que iria durar por algum tempo. No entanto, James VI da Escócia, (ou mais provavelmente seu Regente, James Douglas, Conde Morton), quando soube da morte de Charles, ignorou a herdeira legítima, Arabella e declarou que o título estava extinto.

Isto causou um furor na casa das duas Lady Lennox. Margaret Lennox escreveu imediatamente ao Conselho Escocês, exigindo que o condado fosse devolvido a pequena Arabella. Então, certa de que estava com a razão, Margaret encomendou um retrato do bebê de 23 meses de idade. Nele, a criança está apoiada na vertical e vestida como uma adulta em miniatura. O pequenino e rechonchudo rosto, olha solenemente através de sua tela e em sua mão, segura uma boneca com as vestes de última moda. As bonecas com roupas adultas e caras, eram designadas a crianças no período e simbolizavam também, o status do retratado. Pulseiras, um colar e uma coroa cravejada de pérolas, adornam a figura do bebê. Estava muito claro, para quem quisesse ver, a pequenina possuía um futuro de peso dentro do cenário da realeza inglesa. No canto superior esquerdo da pintura, é possível ler a inscrição: ‘Arabella Comttessa Levinae’ [ Arabela Condesa de Lennox], habilmente ditado por Margaret Lennox – assim mostrando que esta criança era, de fato, a legítima Condessa de Lennox.

Em reposta a demanda de Margaret, o Regente Morton tacitamente respondeu que, como James havia sido menor quando o título fora concedido ao pai da criança, ele poderia ser revogado a qualquer momento. E como o requerente era uma mulher, este era um momento tão bom para fazê-lo quanto qualquer outro.

Bess de Hardwick.
Bess de Hardwick.

Margaret então virou-se para Maria Stuart, para pedir sua ajuda na obtenção do título de sua filha de volta para sua família. Maria – que apoiou a criança – elaborou um documento ao seu testamento – datado de fevereiro 1577 – no qual ela ordenava a James, que abandonasse o título em favor de Arabella. No ano seguinte, Maria repetiu seu desejo ao Bispo de Glasgow. Este por sua vez, não teve o menor efeito e em maio 1578, o Condado de Lennox foi conferido a Robert Stuart, Bispo de Caithness.

Bess de Hardwick, sentia-se menos gentilmente inclinada na direção da Rainha Maria da Escócia após o nascimento de Arabella. A condessa de Lennox morreu em 1578 e Elizabeth I apreendeu as propriedades inglesas que antes pertenciam a Condessa. Ao mesmo tempo, ela foi informada de que a criança Arabella, agora estava sob sua proteção.

Bess e seu marido solicitaram a Robert Dudley, Conde de Leicester, que ele lembrasse a Rainha da exigência de Lady Lennox e seu bebê. Desta forma, Bess estava declarando uma trégua temporária em sua briga com Shrewsbury.

Porém, Bess não dependa unicamente da rainha da Inglaterra para socorrer sua neta. Naquela época, ela estava em bons termos com a prisioneira de seu marido, Maria Stuart , cuja ajuda ela buscou em uma tentativa de obter para Arabella qualquer posse da falecida Condessa, que ainda não havia sido apreendida pela Coroa.

Quando a Condessa de Lennox morreu, ela deixou sua caixa de jóias nas mãos de Lord Thomas Fowler, para ser entregue à Lady Arabella quando ela completasse a idade de quatorze anos.

Com a sugestão de Bess, Maria emitiu um mandado que escreveu de próprio punho – datado de 19 de setembro de 1579- , dirigida a Thomas Fowler, executor do mandato:

“…Faço saber que eu, Maria, pela graça de Deus, Rainha da Escócia… exijo que Thomas Fowler, único executor para a nossa querida sogra e tia, entregue diretamente nas mãos e custódia de nossa bem-amada prima, Elizabeth, Condessa de Shresbury, todas e cada uma destas jóias para o uso de Lady Arabella Stuart, sua neta, se Deus mantiver sua vida até aos 14 anos de idade; se não, então, para o uso de nosso querido filho, o príncipe da Escócia. “

Leicester não trabalhou tão bem quanto Bess esperava, quando ele abordou a Rainha sobre o assunto do subsídio da Condessa viúva e seu bebê, Arabella. A rainha, sabendo que Bess poderia muito bem pagar por sua manutenção, não estava disposta a subsidiar os enlutados em uma vida de luxo. Só porque o ‘Doce Robin’ foi o suplicante, Elizabeth concedeu uma pensão de £ 400 por ano para Condessa de Lennox e £ 200 para Arabella à contragosto. Quanto as jóias, ela sequer obteve um vislumbre.

Mary Stuart.
Mary Stuart.

Antes do mandato o alcançar, Thomas Fowler havia retornado à Escócia, levando a caixa com ele. Logo após sua chegada na Escócia, Fowler morreu e as jóias foram apreendidas pela Coroa. Mais tarde, o filho de Fowler, agindo em nome de Arabella, tentou sem sucesso que os escoceses a entregassem de volta; mas tal como aconteceu com o seu título Lennox, as jóias eram dela por direito, mas James possuía os dois e estava decidido a mantê-los.

Arabella e sua mãe, foram então morar com Bess e estando totalmente dependente dela, a mãe de Arabella não teve alternativa, senão ceder as ideias positivas da velha senhora na educação de Arabella. No momento em que a menina tinha seis anos, uma rígida rotina educacional havia sido estabelecida, à partir da qual a criança não tinha permissão para desviar-se. Aos sete anos, ela já era fluente em francês e latim, assim como muito bem versada em italiano. Seus dedos gordinhos poderiam fazer uma costura fina, mas ela encontrou no bordado com fios de prata e ouro, uma prática rígida e difícil. Longas horas foram gastas para que ela pudesse dominar os virginais e o alaúde; assim como para comportar-se com graça nas intrincadas danças do período.

Ela não foi considerada uma criança bonita, porém tinha uma boa imagem – graças à excelente postura incutida por Bess [que era conhecida por sua esplêndida figura de costas retas]. Não havia crianças de sua idade em Chatsworth ou Sheffield com quem ela poderia brincar, ou até mesmo compartilhar suas lições. Sua mãe, ainda de luto por seu marido perdido, mostrava pouca atenção à sua única filha. O conde de Shrewsbury foi uma figura austera e remota para Arabella, principalmente porque estava mais preocupado com o problema de Maria Stuart – que havia sido confinada como prisioneira perto em Sheffield Manor.

Durante as celebrações das Doze noites da Festa de Epifania – no ano 1582 -, a mãe de Arabella queixou-se de mal-estar e pouco após isto, Elizabeth Cavendish – Condessa viúva de Lennox, morreu aos 27 anos de idade – deixando a criança aos completos cuidados de sua avó, Bess de Hardwick.

Bess desejava desacreditar o direito ao trono inglês de Maria Stuart, para que Arabella ficasse mais perto da posição. A Rainha Maria – que havia passado uma grande parte de seu tempo com a criança – nutria um profundo afeto por ela; mas quando descobriu sobre os planos de Bess para que Arabella pudesse herdar o trono Inglês, a relação entre as duas mulheres, tornou-se muito amarga.

Captura de Tela 2015-08-08 às 09.09.40Bess substituiu sua antiga casa pelo que hoje é conhecido como Hardwick Hall, em 1585. Ela construiu e mobiliou a casa para condizer com o lar de uma futura rainha da Inglaterra – o que esperava que Arabella se tornasse. Outros dizem que ela construiu esta casa, para ser “um berço para sua infância”. Ela queria que sua casa fosse diferente de qualquer outra construída antes ou depois dela.

A Rainha Elizabeth não tinha filhos e iria, com certeza, continuar assim e Bess sentiu-se justificada em dar ordens a sua criadagem, para se dirigirem à Lady Arabella como: “Sua Alteza” e a menina deveria, daquele momento em diante, ser tratada como realeza – sendo servida em primeiro lugar na mesa, apenas depois que a comida tivesse sido experimentada por provadores em busca de veneno -, dada precedência sobre todos, e as reverências à ela, deveriam ser tão profundas quanto as da rainha. Porém, a própria Arabella não importava-se muito com todo este ambiente protocolar à sua volta e foi mantida firmemente junto de seus livros.

No entanto, Elizabeth I permaneceu obstinadamente em silêncio sobre o assunto de seu sucessor. Apesar disto, o otimismo de Bess manteve-se alto e ela concluiu que as questões deveriam ser levadas um passo adiante. Arabella deveria fazer um casamento adequado e Lady Shrewsbury – experiente nos assuntos políticos como era – lançou-se na busca de conseguir encontrar um bom marido para sua pequena “jóia”.

Robert_Dudley_LeicesterSua escolha para Arabella, foi o filho do Conde de Leicester, Lord Denbigh, que tinha apenas dois anos de idade. Leicester viu no arranjo de casamento, uma maneira de ficar próximo ao trono. Caso Arabella tivesse sucesso, ele estaria na  invejável posição de sogro da Rainha. Assim, Arabella e Robert, Lorde Denbigh, foram formalmente prometidos. Arabella enviou um presente para o menino, junto com uma miniatura de si. Ela escutou solenemente enquanto sua avó explicou, que levariam alguns anos antes dela casar-se e depois, caminhou obedientemente de volta para seus livros.

Previsivelmente, Elizabeth I ficou indignada ao receber a notícia do noivado. Prontamente, Leicester foi condenado pelo Tribunal de Justiça. Infelizmente, o Jovem Lord Denbigh morreu em julho 1584. Nenhum outro acordo marital foi realizado após este, principalmente para não abusar da sorte.

CONTINUA…

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