A Consumação do casamento de Catarina e Arthur

ConsO casamento, é geralmente uma das memórias mais importantes na vida de um casal. Porém, a memória de seu matrimônio com Arthur Príncipe de Gales, o irmão de seu então marido Henrique VIII, deve ter perseguido e assombrado Catarina por anos à fio. Esta mesma memória, porém, é muito importante para todos os estudiosos, curiosos e historiadores Tudor; afinal, uma pergunta nunca se calou: O que realmente aconteceu entre aquelas quatro paredes, na noite de núpcias do casal?

Este é um tema controverso, já que Catarina de Aragão é uma figura histórica geralmente bem reverenciada. Existem apenas algumas figuras da história Tudor, que possuem defensores ardilosos, que até hoje, tendem a brigar por certos comentários ou assuntos específicos.

Captura de Tela 2015-06-01 às 05.35.19Em meio a Guerra dos Primos, Ricardo III tem seus apologistas; já mais tarde, Elizabeth I e sua mãe, Ana Bolena, tem defensores extremos, que tendem a ser os mais complicados de lidar, e por fim, encontramos os defensores de Catarina de Aragão. O centro de defesa destas pessoas, baseiam-se em um ou dois argumentos;

– Apologistas de Ricardo III, tentam resgatar seu caráter após o incidente com os príncipes na Torre;
– Os defensores de Ana Bolena, querem mostrar que ela fora muito mais que apenas “a outra mulher”;
– E os de Catarina de Aragão, continuam a afirmar que ela não consumou seu casamento com Arthur.

Mas qual é a verdade sobre o primeiro casamento de Catarina? Como podemos ver, a consumação do jovem casal, passou a ser um assunto definitivamente público na corte Tudor. A questão da consumação mudou tudo para Henrique e Catarina, então o que realmente aconteceu? Será que Catarina realmente consumou seu casamento de apenas cinco meses com seu primeiro marido? Será que ela mentiu sobre isto mais tarde, para proteger a si e sua preciosa filha? Ou será que Arthur era apenas um jovem inexperiente e despreparado, por este motivo, resolvendo adiar suas funções como marido? Vamos observar algumas questões, evidências e especulações sobre este misterioso assunto matrimonial.

O Casamento e Leito Preparado:
Captura de Tela 2015-06-01 às 05.34.16Sabemos que Catarina teve seu casamento arranjado com o herdeiro do trono inglês, Arthur – O Príncipe de Gales, desde a infância. Embora tenha nascido em berço nobre e recebido sua criação na Espanha como filha do rei Fernando de Aragão e da rainha Isabel de Castela, ela sabia desde muito cedo que um dia, seu devido lugar seria na Inglaterra. Ela deveria casar-se com o Príncipe herdeiro, tornar-se a princesa de Gales, e eventualmente, a rainha daquele reino longínquo.

Eles casaram-se no dia 14 de Novembro de 1501 – na Catedral de São Paulo – com todas as pompas reservadas a um futuro rei e rainha da Inglaterra. Após longas festividades, que duraram cinco horas, a festa deslocou-se para o Castelo Baynard. O leito marital fora então, cerimonialmente preparado, recebendo gotas de água benta. A cama fora cuidadosamente escolhida, com ricas tapeçarias e mobiliário digno do cargo e status que ocupariam. Nada foi poupado. Seguindo a tradição, eles teriam sido feitos de veludo e seda em cores vibrantes, como vermelho, preto, verde ou azul, com painéis de tecido de prata e ouro. Eles muitas vezes tinham franjas e fitas de tafetá, com pesados bordados florais e motivos dinásticos, como brasão de armas.

Ao morrer em 1495, Cecily Neville – a bisavó de Arthur – legou-lhe um conjunto de cortinas de cama, decorados com a imagem Captura de Tela 2015-06-01 às 05.30.53da roda da fortuna, que pode ter sido utilizado para tal ocasião tão especial, afinal, seria um emblema para a brevidade da vida – um memento mori, muito utilizado no período. Como toque final, os cobertores seriam amaciados e os travesseiros cheios com penas de ganso novas ou afofados. Caberia a John de Vere, o então Lord Chamberlain, o dever de testar o leito, deitando em ambos os lados da cama, a fim de assegurar ao jovem casal, que não haveria nenhuma arma ou espeto depositado secretamente no local, por ardilosos inimigos reais.

Em seguida, uma jovem, inexperiente e provavelmente nervosa Catarina, fora então despida por suas damas. Ela ‘fora reverentemente deitada e repousada’ e o cavalheiro Arthur, colocou-se ao lado dela. A questão da consumação, era a etapa final do processo, essencial aos olhos religiosos e legais, para validar a união e prevenir uma futura anulação; em1469, os lençóis ensanguentados de Isabel (mãe de Catarina), foram apresentados após sua primeira noite com Fernando, como prova de que a relação sexual havia ocorrido. Embora os ingleses não tenham ido tão longe, algum ato de intimidade fora requerido para satisfazer e dissipar os espectadores que acompanharam os recém-casados para os quartos, com seus conselhos, benção, piadas dispensáveis e música. Mas o que poderia ter acontecido depois disto?

Após o esperado dia, foi decidido que, quando Arthur retornasse para sua residência no Castelo de Ludlow, no País de Gales, sua nova esposa, Catarina, iria acompanhá-lo e lá, eles viveriam como um casal. Arthur morreu em 2 de abril de 1502, apenas cinco meses após seu casamento com a Infanta espanhola. Pouco depois, foi determinado que Catarina não estava grávida, e o príncipe Henrique, de 10 anos, fora feito herdeiro do trono. Após um longo período de limbo, abandono e circunstâncias deploráveis para uma infanta que viveu no seio da Europa católica, a fim de manter a aliança e também para reter o grande dote de Catarina, Henrique VII seguiu adiante com planos de casar seu segundo filho e agora seu herdeiro, com a viúva de seu primeiro filho.

Análises Futuras:
Na época, as Cortes da Inglaterra e Espanha assumiram que eles haviam tido relações sexuais. O arauto declarou que:

Captura de Tela 2015-06-01 às 05.32.14E assim, estas pessoas dignas concluíram e consumaram o efeito e complemento do sacramento do matrimônio.”

A senhora espanhola que liderava a casa de Catarina, Doña Elvira, deu seu testemunho e jurou que a princesa nunca teve relações sexuais com Arthur. A dispensa papal fora então concedida, e o Rei Fernando escreveu em 1503 que:

É bem conhecido na Inglaterra, que a princesa ainda é virgem.”

Quaisquer que sejam as razões para a o casamento, Catarina e Henrique VIII foram casados, e viveram juntos por cerca de 24 anos, e desta união, apenas uma criança sobreviveu, a bela Princesa Maria. No momento em que Henrique VIII estava buscando uma anulação para seu casamento com Catarina, em sua busca por um filho varão, ele alegou que havia sido pecaminoso casar-se com a viúva de seu irmão, e que acreditava que ela havia, de fato, consumado o casamento com Arthur, embora ela tenha negado veementemente garantindo na época, ser virgo intacta.

Sabemos como esta história termina. Catarina fora eventualmente (e convenientemente) deixada de lado em favor do novo interesse amoroso de Henrique, sua outrora dama de companhia, Ana Bolena.

– Catarina, a católica/ Alegação I:
Algo que ouvimos muitas pessoas declararem sobre este tema, é que Catarina de Aragão nunca teria dito uma mentira tão Captura de Tela 2015-06-01 às 05.28.49grande e séria, sendo ela a mulher devota e extremamente religiosa que era.

As pessoas argumentam que “ela era uma católica fervorosa” ou que “ela teria sentido uma enorme culpa” por contar uma mentira, e que sua consciência simplesmente não lhe permitiria isto. Enquanto concordamos (e eu acho que todos concordam) que Catarina era uma mulher admirável e uma católica piedosa, temos de lembrar, que as pessoas no século XVI, viam as coisas sob uma ótica um pouco diferente da atual, e que mesmo os assuntos religiosos, eram um pouco confusos.

Em muitos casos, nobres e membros da realeza, consideravam-se: destinados a seu cargo pela vontade de Deus, e que iriam fazer o que tinham de fazer, a fim de cumprir o mandamento de Deus para eles.”

Como podemos ver, mais tarde, mesmo depois do casamento entre Catarina e Henrique VIII ser desfeito, ela ferozmente recusou-se a ser reconhecida como algo diferente de “Rainha da Inglaterra.
Quando os homens do rei referiram-se a ela por seu novo/antigo título próprio de Princesa Viúva de Gales, ela os corrigia, dizendo que iria morrer como a Rainha legítima e ungida por Deus.
Com base em sua forte opinião e comportamento nestes assuntos, é seguro dizer que sentia-se destinada e convicta a seu lugar no trono Inglês.

Katherine of Aragon. Illustration for Historic Devices, Badges and War-Cries by Mrs Bury Palliser (Sampson Low, 1870).
Katherine of Aragon. Illustration for Historic Devices, Badges and War-Cries by Mrs Bury Palliser (Sampson Low, 1870).

Pense nisto: A partir do momento que ela era um bebê, ela foi informada de que tornaria-se uma rainha, e recebeu toda sua criação, baseada neste fato. Ela cresceu acreditando e aprendendo que este era seu dever e lugar no mundo.
Por que então, esta mulher não faria tudo o que estivesse a seu alcance, a fim de cumprir este dever, mesmo que isto significasse contar uma grande mentira?
Ao contar uma mentira como esta, a partir do momento em que Arthur morreu, ela deveria ter consciência de que ela seria considerada noiva do príncipe Henrique, tornando-se assim, a rainha que fora preparada para ser.

Mais tarde, naturalmente esta mentira serviria como uma tentativa de mantê-la no trono e como a esposa de Henrique. Enquanto fosse à favor da vontade de Deus (como ela deve ter acreditado ser), tal ação, pode ter sido justificável de seu ponto de vista.

Quanto à questão dos sentimentos de culpa de Catarina, podem existir evidências deles mais tarde em sua vida.
Curiosamente, fora registrado que perto do final de seu segundo casamento e nos últimos anos de sua vida, ela havia começado a usar camisas de pêlo – cilício – , que eram uma forma de penitência pelos pecados na fé católica.
Estas camisas eram usadas por baixo das roupas comuns, e que em contato com o corpo nu, roçavam de forma dolorosa, lembrando a pessoa de seus pecados e indignidade enquanto tentavam conseguir o perdão de Deus.

Captura de Tela 2015-06-09 às 19.26.07Outra figura conhecida por usar cilício, foi Thomas More, que era extremamente dedicado, mas que iria morrer por suas crenças na fé católica e sua recusa em aceitar Henrique VIII como Chefe Supremo da Igreja.
Claro, é possível que Catarina, sendo a mulher religiosa que era, quisesse usar cilício, pelo simples fato deste, fazer parte de suas crenças e representatividade da fragilidade natural humana.

Ela passou a usar o cilício, pouco tempo antes do período em que seu matrimônio com o irmão de seu outrora marido, seria levado em questão. Em todo modo, seriam nestes seus últimos anos, que ela estaria defendendo veementemente o seu caso perante o Rei, bispos, cardeais, e até mesmo o próprio Papa. Fica à critério do leitor, no que acreditar.

– Arthur, O príncipe adoentado – Alegação II:
Agora levemos os fatos até Arthur Tudor, uma vez que existem algumas evidências muito interessantes dignas de observação.
Em primeiro lugar, é dito que ele sempre fora uma criança fraca e pouco saudável, e isto pode ter sido motivo suficiente para a paraartigonão consumação de seu casamento com Catarina. No entanto, não há realmente muitas evidências que apoiem tal fato.
Na realidade, o Marquês de Dorset, relatou que Arthur era de aparência boa e saudável, dificilmente o poderíamos considerar doentio.
Além disto, antes de seu casamento, é relatado que Arthur teria dito que encontrou sua noiva muito agradável e que estava sentindo-se vigoroso e amoroso!”.
É pouco provável que um menino doente e fraco estivesse dizendo ou sentindo uma coisa destas, e suas palavras não parecem confundir as pessoas ou causar quaisquer suspeitas no momento. Se ele fosse realmente um príncipe doente, as pessoas muito provavelmente teriam questionado tal declaração.

Outro ponto importante é que este casamento era político. Ele foi feito em um esforço para formar uma forte aliança entre Inglaterra e Espanha, dois países de localização estratégica na Europa. Será que o rei Fernando realmente concordaria e prometeria a mão de sua filha em casamento para um Príncipe fraco e doente? Tal coisa seria muito improvável, e considerando que o noivado prevaleceu durante toda a infância deles, teria havido tempo suficiente para o Rei e Rainha da Espanha cancelarem o acordo, buscando um noivo mais saudável para sua filha.

Reign-sex-sceneO fato de que nenhuma menção nunca foi feita sobre isto, faz com que a questão da má saúde de Arthur, seja extremamente improvável aos olhos de muitos historiadores. Também vale à pena mencionar, que durante a maior parte do casamento de Catarina e Arthur, eles viviam no Castelo de Ludlow, uma bela fortaleza, porém escura, isolada, e fria. Certamente não um lugar propício para um valioso príncipe doente.

Os relatórios da noite do casamento de Arthur e Catarina, também dariam indicação de que houve algum tipo de consumação. Embora ambos contassem com apenas quinze anos de idade, esta foi considerada uma idade perfeita e fértil para um casamento na época.

Em seu livro Six Wives, David Starkey descreve como o casal recém-casado foi posicionado para sua na noite de núpcias:

O que aconteceu em seguida, só Deus sabe. O arauto, uma testemunha estritamente contemporânea, assumiu que a natureza havia tomado seu curso… E, assim, estas pessoas dignas concluíram e consumaram o efeito e complemento do sacramento do matrimônio.”

Catarina e Arthur teriam sido colocados na cama em uma cerimônia muito pública, como acontecia com membros recém-casados da realeza. Houveram pessoas para ajudar Arthur a se preparar para cama e que puderam ver que ele estava adequadamente situado com sua nova esposa. Mesmo o marquês de Dorset relatou que se lembrava que Arthur havia sido colocado na cama ao lado de Catarina e que ele estava “deitado debaixo da colcha.”

Captura de Tela 2015-06-01 às 05.41.54Assim, os dois certamente foram para a cama juntos. Disto, há uma abundância de evidências. O que poderia tê-los impedido de consumar o casamento nesse ponto? Curiosamente, Arthur fez alguns comentários significativos na manhã após sua noite de núpcias com Catarina, pedindo um de seus servos para lhe buscar um copo de cerveja e dizendo: Esta noite estive no meio da Espanha!” 
Mais tarde, o príncipe também disse abertamente, Senhores, é… ter uma esposa é um bom passatempo.” 

Algumas pessoas acreditam que com tais declarações, Arthur estava simplesmente tentando encobrir o fato de que não havia conseguido consumar seu casamento, talvez contando mentiras e agindo de modo excessivamente animado sobre sua nova companheira de cama.

Como um adolescente que via-se destinado a cumprir certas obrigações dentro de seu estatuto, o “vigoroso e amoroso” auto proclamado, pode ter dito tais coisas, para despistar uma multidão de servos e aliados, interessados na intimidade do jovem casal.

No geral, é importante lembrar as razões para um casamento político na época dos Tudor. Com Arthur sendo um príncipe e Catarina uma princesa, eles tinham obrigações para com a coroa da Inglaterra, e mais importante era a criação de um herdeiro para o trono. No entanto, ambos eram novos, e dentro do que fora dito acima, não haviam motivos para que duvidassem de que este seria um longo e frutífero casamento, o tempo estava à favor deles, ou pelo menos, era o que poderiam (como qualquer outro jovem casal) ter acreditado.

No momento em que casaram-se, naturalmente como futuros rei e rainha, seria esperado deles, por toda uma corte afoita (especialmente a avó de Arthur, Margaret Beaufort), que um herdeiro fosse produzido e pudesse garantir uma sucessão segura. Era muito comum e desejável que uma noiva conseguisse engravidar rapidamente depois de seu casamento. Porém, não seria visto como uma infelicidade se ela demorasse alguns meses ou anos para fazê-lo, principalmente quando o jovem príncipe, ainda não fosse coroado rei.

Naturalmente, o fato de que Catarina não tenha engravidado neste cinco meses de matrimônio, mostrando seu histórico médico, mostra que a fértil rainha, pode de fato, não ter praticado com marido, a consumação que acreditamos ser a praticada na época. Porque a que acreditamos?

A Verdadeira Consumação:
Entre uma Corte ansiosa para resultados satisfatórios, a consumação no período Tudor, poderia ser vista de modo muito diferente de nossa concepção atual e nem por este motivo, deixaria de ser considerada como tal, embora não o fosse 7176040423_ce4d8444d6_bespecificamente. Vamos voltar no tempo, um pouco depois da hora em que Arthur e Catarina, estavam juntos, deitados no leito marital.

Primeiro, a noiva e o noivo partilhariam o vinho e especiarias, destinadas para fortificá-los durante a noite, aquecer seus corpos e refrescar o hálito. Então, como no caso da irmã de Arthur, casada treze anos depois, eles deveriam tocar a pele um do outro, como símbolo do ato que viria depois. Chegamos ao ”X” da questão, este toque representaria a premissa de uma consumação futura, acalmando uma Corte afoita e representando o ato. Este era geralmente, um rápido e tímido contato de pernas nuas, antes das portas dos quartos se fecharem, onde o jovem casal, seria enfim deixado a sós. O cronista Edward Hall, escreveu que “Este vigoroso príncipe e sua linda noiva, foram trazidos e juntaram-se nus em uma cama, e então fizeram o ato, que para a performance e total consumação do matrimônio, foi mais que necessário e conveniente”. Aquele tímido toque, poderia ter sido o suficiente, para que uma Corte inteira, acreditasse que houvera intimidade suficiente entre o jovem casal. Em todo modo, apenas duas pessoas souberam o que realmente aconteceu naquela noite.

touch-legsPresumivelmente, o casal sabia o que era esperado deles, deitaram-se entre os lençóis perfumados, ouvindo o estalar do fogo e os passos da Corte se afastando, foi a primeira vez que estiveram juntos sozinhos. Arthur havia acabado de completar quinze anos e Catarina era apenas nove meses mais velha. Nenhum deles, possuía qualquer experiência com o sexo oposto e a estatura corporal diminuta de Arthur, poderia indicar que ele ainda não havia passado pelo surto de crescimento da puberdade, que levou seu avô, pai e irmão, a serem mais altos que a média e terem ombros largos e pernas bem torneadas. A comunicação era difícil, já que o inglês de Catarina permaneceria fraco por anos e eles haviam descoberto que a linguagem que tinham em comum – o latim – soava quase irreconhecível quando pronunciados em uma língua estrangeira. Pode ter ocorrido algum contato íntimo, um toque de pele mais curioso. Porém, eles eram jovens e nenhum dos dois deve ter notado qualquer urgência necessária. Dentro desta pequena demonstração de consumação, para uma corte sedenta do que viria a seguir, eles podem ter achado que era o suficiente naquele momento. Em retrospectiva, sabemos que o relógio batia, mas naquele momento, os dois teriam entendido, que não havia pressa.

Captura de Tela 2015-06-09 às 19.32.34Talvez, exaustos após dias de longas cerimônias protocolares, eles simplesmente viram na cama, o símbolo de uma mais que bem-vinda noite de sono. Pode até ser que, 14 de Novembro, caindo em um domingo (também o dia mais santo), o casal católico, tenha cedido ao estrito ensino canônico de abstinência no Sabbath. É possível que Catarina tenha sentido-se desapontada, ou igualmente aliviada. O Arthur gabando-se para seus colegas na manhã seguinte, sobre ter estado no meio da Espanha, talvez tenha sido mais bravata que real experiência. Ele era jovem, imaturo, mas provavelmente sabia que tinha uma reputação a zelar, acreditando ser muito mais conivente, inventar uma espreitada digna ao leito da jovem esposa, que simplesmente um adolescente inseguro e cansado, querendo dormir. Algo feito inclusive nos dias atuais.

Mais Fatos:
Outra informação que faz com que alguns historiadores questionem a veracidade da consumação, é o testemunho de Doña Elvira, a principal responsável pela casa de Catarina, que insistiu que a princesa nunca havia consumado o casamento.
20751Curiosamente, Doña Elvira e Catarina nunca foram próximas, e Elvira até mesmo acabaria traindo Catarina em outro assunto mais tarde, e mesmo assim, ela nunca voltou atrás em sua insistência de que Catarina não havia consumado seu casamento com Artur.

David Starkey diz em seu livro:

Ela, Doña Elvira, e todas as matronas da casa de sua senhora jurariam, que de seu conhecimento pessoal, que a princesa Catarina era uma virgo intacta… e que um exame por pessoas qualificadas o provaria.”

Se Doña Elvira estivesse mentindo, e se um exame em Catarina houvesse realmente ocorrido, as consequências desta mentira seriam catastróficas, e Doña Elvira nunca teria sido capaz de enfrentar a Rainha Isabel de Castela novamente.

Por conhecer sua senhora bem o suficiente e por uma mentira deste porte ter-lhe custado a vida, é improvável que Doña tivesse assumido um risco tão grande, por um princesa que sequer dava-se muito bem.

Captura de Tela 2015-06-09 às 19.35.50No famoso julgamento de 1529 em Blackfriars, a rainha da Inglaterra disse que Arthur compartilhou sua cama apenas sete noites em seu casamento. Ao invés de um príncipe vigoroso, sua comitiva espanhola o descreveu como um jovem doentio. O que na realidade, poderia ser apenas o fato de virem um jovem cansado e assustado, tentando manter as aparências. Ele ainda estava no auge de seu desenvolvimento corporal, e alguns historiadores, dizem que ele era menor do que Catarina, sendo que ela, era uma mulher muito pequena, de aproximadamente 1,50.

Um tribunal realizado em 1531, na Espanha, a pedido do tribunal de apelação do Vaticano ouviu outro testemunho. Um atendente espanhol, que na época disse que “os membros [de Arthur] eram tão fracos que ele nunca tinha visto um homem cujas pernas e outras partes de seu corpo fossem tão pequenas.”

Outro atendente testemunhou: “Francisca de Caceras, que estava encarregada de vestir e despir a rainha e de quem ela gostava e confiava muito, estava parecendo triste e contou as outras senhoras que nada havia acontecido entre o príncipe Arthur e sua esposa, o que surpreendeu a todos e os fizeram rir dele.”

Veredicto:
Parece que a solução deste caso, encontra-se nas entrelinhas. Pelo que podemos concluir acima, o casal sem dúvidas experimentou algum nível de intimidade, embora seja improvável que tenha estendido-se ao sexo meramente dito e sim, mais a uma curiosidade de corpos inexperientes e assustados. Com o irmão de Henrique, conhecendo Catarina nua e praticado 0169_09algum tipo de preliminar (um tímido toque ou algo do gênero), ela não seria mais virgo intacta e sim, apenas virgem do ato. Em todo modo, nunca saberemos ao certo o que aconteceu durante estes cinco curtos meses de casamento, uma vez que praticamente não existem relatórios escritos de Catarina ou Arthur, não podemos nem mesmo ter certeza de seus sentimentos um pelo outro. Tudo o que temos é especulação, e analisando cuidadosamente os costumes, tradições e modos de vida na era Tudor, podemos fazer afirmações mais experientes e suposições sobre o que realmente aconteceu.

Ao alegar que não houve contato íntimo propriamente dito, uma vez que parece ter havido, mesmo que mais de natureza política que sexual, Catarina pode de fato, ter acreditado que havia omitido toda a verdade, algo que qualquer mulher cuidadosa em sua situação, o faria.

Mesmo que esta mentira tenha sido dita, Catarina não deixa de ser uma mulher menos devota e fiel à sua causa e marido. Porém, seus defensores parecem acreditar que sua capacidade de mentir diminui suas devoções a Deus.
Por quê? Todos os seres humanos encontram-se mentindo de uma forma ou de outra, até mesmo com as famosas “mentiras brancas”. A extrema devoção de Catarina não começou até depois de seu casamento com Henrique. Até então, ela já teria omitido certos fatos à respeito de seu matrimônio com Arthur.

Perante a enorme vontade de Henrique em por fim a seu casamento, esta pequena omissão, pode ter salvo (mesmo que não tenha sido tão efetiva), a posição de sua filha como futura primeira rainha inglesa.

Não é possível mentir pela causa certa? Isto diminuiria sua piedade, mesmo que fosse – como ela acreditava – pela vontade de Deus?

Como Leslie Carroll escreve:

Captura de Tela 2015-06-09 às 19.39.59Se ela mentiu sobre ser virgo intacta na noite de núpcias para Henrique, ela escolheu colocar este pecado sobre sua própria consciência ao invés de destruir a aliança diplomática vital da Espanha com a Inglaterra, que era a razão dela ter vindo para a Inglaterra em o primeiro lugar. Mais importante, Catarina escolheu mentir para o bem maior de proteger os direitos de sucessão de sua filha de Maria, o que, a longo prazo, ela fez.
E Catarina arriscou uma dança com o diabo pelo bem maior do catolicismo também. Com Maria no trono, ela sabia que a religião verdadeira seria restaurada. Ela não poderia ter previsto a que custo, e que não iria durar.
” (88-89).

No entanto, em ambos os casos, Catarina retém a verdade de alguma maneira.

Em suas declarações, ela sabia que a consumação em si não havia sido feita, mas alguma intimidade teria ocorrido entre o casal e seria suficiente para acalmar os ânimos de muitos. Entrando em seu casamento com Henrique, ela alegou que Arthur deixou-a intacta. Leslie Carroll lista vários exemplos:

A Tradição aceita o testemunho de Catarina, pintando-a em um fulgor santo que os historiadores modernos ainda se esforçam para se reproduzir. Mas na década de 1860, GA Bergenroth descobriu documentos nos arquivos espanhóis que contestam as afirmações de Catarina.
Correspondência entre seu pai, seu sobrinho Carlos, e o embaixador imperial Eustache Chapuys contém alegações de que Catarina não só tinha mentido sobre a consumação, a fim de permanecer na Inglaterra, mas que sua gravidez anunciada em fevereiro de 1510, menos de um ano depois de seu casamento com Henry, também fora uma farsa. Bergenroth encontrou uma carta do confessor de Catarina, Frei Diego, que afirma que ela teve um aborto em janeiro.
No entanto, em 27 de maio de 1510, Catarina escreveu a Fernando para informá-lo que ela perdeu o filho há poucos dias.”
Em outras palavras, durante quase meio ano, ela escondeu a verdade de seu próprio pai.
Apesar de sua piedade genuína, Catarina era claramente capaz de agir com duplicidade quando era politicamente vantajoso manter uma ficção.
“(78-79).

Leslie vai mais longe em detalhes:

Captura de Tela 2015-06-09 às 19.42.11Catarina nunca havia sido avessa a mentir se estivesse determinada a alcançar metas desejáveis.
Em 1507, ela havia dito orgulhosamente a seu pai – um mestre da dissimulação que – ‘Jogou a isca [para Henrique VII] com esta [a possibilidade de um casamento entre ele e sua irmã Joanna]’, a fim de alcançar um melhor tratamento do rei Inglês. Ela também se gabou para Fernando de sua capacidade de manipular o embaixador espanhol, de Puebla: “Eu dissimulo com ele e louvo tudo o que ele faz… Eu digo tudo o que penso poder ser útil para mim com o rei, porque, na verdade, de Puebla é o conselheiro do rei e eu não ousaria dizer nada a ele, exceto o que eu desejo que o rei saiba.
Em 1510, Catarina mentiu para dois monarcas e um embaixador quando ela continuou a farsa de uma gravidez, enganando um reino inteiro, com exceção de um punhado de pessoas que a conheciam
.”

Então, por que ela não teria omitido fatos sobre a consumação com Arthur?

Ela manteve a boca fechada após seu casamento, dando a impressão de que o casal tinha desfrutado de uma vida sexual normal – temendo que fosse despachada para a Espanha, o que seria uma falha em sua missão principal.

E após a morte de seu marido, ela teve de tramar algo bom o suficiente, para que assim, pudesse permanecer na Inglaterra como Princesa de Gales, mas que não fosse considerado como uma consumação propriamente dita.

Então, Catarina era uma política, bem como uma penitente. Não é pra menos, já que ela era a filha da pragmática casal real, Fernando e Isabel. “(87-88).

Não há absolutamente nenhuma razão para que a reputação de Catarina como uma esposa injustiçada e verdadeira católica deva mudar, por ela ter agido como qualquer mulher em seu lugar agiria. Isto não diminui seus sentimentos genuínos para Henrique, Maria, ou a Inglaterra.

Significa simplesmente que ela estava disposta a permanecer casada com o homem que amava e garantir o futuro de sua filha a qualquer custo. Não é este o maior legado que poderia ser dado à ela?

FONTES:
The Six Wives and many Mistress of Henry VIII; Licence, Amy.
Working History: AQUI.
On the Tudor Trail: AQUI.
The Tudor Enthusiast: AQUI.
Notorious Royal Marriages; Carroll, Leslie – Peguin Books, London, 2010.

10253866_748830281898094_2876634184381005183_n

 


 

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s