Elizabeth de York e Margaret Beaufort: O relacionamento das Matriarcas da Dinastia

meeAs duas mães da dinastia: Margaret Beaufort e Elizabeth of York, foram duas mulheres que também tornaram-se vítimas dos estereótipos com o passar dos séculos. A primeira tornou-se a velha manipuladora e sem coração, mãe de um filho sem vontade ou brilho próprio; a segunda, uma mulher sem tino para a política, incapaz de governar ao lado de seu marido e insossa para a Inglaterra. Mas isso é verdade?

tumblr_nlj2qq2ECO1ry6805o1_500A história da sogra megera e nora submissa – a mãe controladora e a esposa obediente, provam com o passar dos séculos e estudos aprofundados, estarem muito mais arraigadas no imaginário popular e intrigas posteriores, que em algo real. Como sabemos, Elizabeth teve influência direta na educação de seus filhos e viajava e vivia ao lado de seu marido, expondo sempre suas opiniões, gostos e vontades. Ela não participou ativamente da política, pois seu espaço determinado dentro dela – desde o início de seu matrimônio com Henrique VII – fora altamente limitado; em outras palavras, o monarca queria reinar só e não gostaria que o sangue real nas veias de sua prometida, falassem mais alto que sua reivindicação bélica. Elizabeth contentou-se em ser restaurada como filha legítima de Eduardo IV e de poder agir à sua maneira dentro de sua Casa Real, no coração de seu marido e vida de seus filhos. Isto não faz dela uma pessoa apolítica, e sim, alguém que soube jogar com o que lhe foi provido e como sabemos, ela saiu-se muito bem.

Mas e quanto a Margaret? Ela fora mesmo a mãe de coração e punhos de pedra, incapaz de deixar seu filho reinar e agir por conta própria?

Todos sabemos que Margaret fora de grande influência no caminho que levaria seu filho Henrique VII, ao poder. Sabemos também, que ele ouvia atentamente os aconselhamentos de sua mãe e a mantinha sobre alta estima, porém, ele não chegou onde chegou, apenas por ter uma mãe politicamente apta. Henrique VII era um ótimo cavaleiro, homem inteligente, articulador e político, que sabia pesar as opiniões alheias e principalmente a hora de acatá-las ou ignorá-las. Em outras palavras, Henrique era inteligente e confiante demais em suas próprias estratégias de governo, para deixar que outra pessoa reinasse em seu lugar, sejam elas, sua esposa, ou mãe.

Dentro desta dicotomia romântica entre a esposa inocente e a sogra megera, outra questão nos vêem à mente, sempre que falamos das matriarcas Tudor:

Mas qual seria o real relacionamento entre as duas?

37-WhiteQueen-BBCDuas mulheres que tiveram suas imagens politicamente moldadas após suas mortes – a fim de parecerem-se tão opostas como o sol e a lua – despertam a curiosidade de muitos, sobretudo à respeito do relacionamento que uma mantinha com a outra. Neste artigo, revelaremos um pouco mais sobre estas mulheres, além da natureza deste relacionamento; indo muito além do mito e anti-propaganda – afinal, estas mulheres merecem muito mais do que serem lembradas como seres tão sintéticos e polarizados.

Minha Senhora, A Mãe do Rei:
Muito do que é dito sobre Margaret Beaufort, é sempre o mesmo: Ela casou-se muito jovem, teve um filho varão e um parto tão complicado que lhe deixaria estéril, conspirou para colocar este filho – Henrique VII – no trono da Inglaterra e fora a cruel sogra da doce Elizabeth de York.

Lady_Margaret_Beaufort-02Os dois primeiros são fatos comprovados, ela casou-se muito jovem com Edmund Tudor, teve um único filho e certamente, conspirou politicamente para elevá-lo ao trono inglês; porém, a última acusação é bem mais complexa de avaliar-se do que possa parecer inicialmente.

Dentro das representações ficcionais, vemos a relação de Henrique VII com sua mãe, beirando o complexo de Édipo. Margaret é sempre retratada como uma mãe que sente um amor doentio e obsessivo por seu filho, no qual ela compete incessantemente com a nora pelo afeto. Podemos dizer, que mesmo com tanto romance em torno do relacionamento de mãe e filho, que eles eram próximos um do outro.

O afeto de um pelo outro quando finalmente se reuniram, é confirmado nos registros sobreviventes de presentes e cartas. Henrique honrou sua mãe, ela foi a maior proprietária de terras no reino, vindo apenas depois que do rei e da rainha. Ela também fora declarada femme sole, o que lhe deu o total controle sobre sua própria riqueza. Margaret certamente foi uma presença constante na Corte, e era muito mais envolvida nos assuntos de Henrique e Elizabeth, do que a maioria das mães de outros monarcas haviam sido; embora Cecily Neville, mãe de Eduardo IV, também tenha sido uma presença constante durante os primeiros anos do governo de seu filho.

Considerando que Neville era quase trinta anos mais velha que ela, não é inconcebível pensar que o influente papel de Cecily na Corte, tenha deixado uma profunda impressão na jovem Margaret. Ambas tiveram papéis políticos ativos nos primeiros anos do reinado de seus filhos. Ambas possuíam um estatuto Semi-régio legados por eles.

Muitas observações foram feitas sobre Margaret Beaufort vestir-se de maneira semelhante à sua nora – a Rainha – tendo precedência de apenas um passo atrás dela.

Margaret havia trabalhado ativamente para o casamento de seu filho com Elizabeth de York e pode ter acalentando essa ideia muito antes de Ricardo III assumir o trono.

Elizabeth, a Rosa de York e Rainha da Inglaterra:
Elizabeth de York simbolizava o epítome da perfeita rainha medieval. Uma mulher bela, caridosa, cristã e muito amada por seu b58d1f3632e9282b3d0450dcda022aa2povo. Enquanto ainda era jovem, recebeu instrução religiosa, mostrou-se mais inteligente que a maioria das outras crianças, aprendeu boas maneiras, bordado, música, canto, dança, cuidados do lar e outras coisas necessárias para a educação de uma futura esposa e mãe da realeza.

No momento em que Elizabeth tinha cinco ou seis anos, sua educação formal teve início. Ela foi ensinada a ler e escrever, mantendo grande aptidão pelo francês – no qual também falava e escrevia fluentemente – aprendeu habilidades gerenciais como a execução de um agregado familiar, a como gerir servos, como fazer a contabilidade para o orçamento familiar, e como delegar responsabilidades. Ela passou a amar os livros. É descrita como sendo dedicada a Deus, obediente a seus pais, amorosa para com os seus irmãos e irmãs e dedicada à ajudar os pobres.

Elizabeth casou-se com Henrique VII no dia 18 de janeiro de 1486, e ele valorizava muito a mulher a quem chamava de esposa e sua rainha. Não era para menos, ela era linda, inteligente, encantadora, generosa, virtuosa, gentil e amável; todas as características tão desejadas para uma esposa do período.

Sua união com ela legitimou sua conquista e pôs fim aos sangrentos anos de conflito que a guerra civil havia outrora instalado.

O casal fora tido como muito feliz. O filósofo Thomas More, mais tarde lembraria o encantados relacionamento deles. Tinham muito em comum, como danças, jogos, músicas, e artes. Henrique ouvia sua esposa e ela sabia quando deveria falar.

Conforme mencionado acima, devido à certas restrições dentro do campo político, após seu casamento, Elizabeth passou a ocupar-se dos tradicionais papéis de uma rainha consorte, gerindo sua família, propriedades, Corte e seus filhos.

Seu papel na política fora menos óbvio, dentro dos bastidores; em seus momentos íntimos, no qual ela podia exercer seu poder e vontade para seu marido e não seu soberano.

Então, será que Elizabeth de York ressentia-se que sua sogra fosse uma presença dominante pela corte?

Cecily_nevilleMargaret fora uma mulher firme e determinada, não pode-se negar, mas também não podemos negar o amor de seu filho para com sua nora. Não há nenhuma evidência de que Henrique favorecia sua mãe sobre sua esposa.

Uma carta do Papa Alexander, advertiu Margaret de que Henrique já havia prometido à Rainha Elizabeth, que ele iria nomear seu candidato como o próximo bispo de Worcester, portanto, o candidato escolhido por Margaret teve que ser abandonado.

As provas mais frequentemente repetidas de alegada posição dominante de Margaret sobre sua nora, são dos embaixadores espanhóis.

A primeira carta de Pedro de Ayala costuma ser repetidamente usada, com base neste trecho “O rei é muito influenciado por sua mãe … a rainha, como é geralmente o caso, não gosta disso.”

Estas duas frases são frequentemente escolhidas para representar a dita precedência de Margaret, mas quando analisamos todo o assunto da carta, podemos perceber um contexto ligeiramente diferente:

“O rei é muito influenciado por sua mãe e seus seguidores em assuntos de interesse pessoal e em outros. A rainha, como é geralmente o caso, não gosta. Há outras pessoas que têm muita influência no governo, como por exemplo, o Lord do Selo Privado, o Bispo de Durham, o Chamberlain, e muitos outros…”

Ou seja, Ayala está na verdade, falando de várias pessoas que tiveram uma forte influência sobre o rei, incluindo sua mãe.

“A rainha, como é geralmente o caso, não gosta disso”, significa, obviamente, que ele está fazendo uma generalização. Então, esta não é uma boa evidência dos sentimentos reais de Elizabeth e nem de que Henrique só iria ouvir sua mãe nas questões de Estado.

Outro relato mais obscuro é de John Hewyk de Nottingham, que estava buscando uma posição nos aposentos privados da rainha e que:

“…havia falado com vossa graça a Rainha, e deveria ter falado mais com esta [dita] graça, se não fosse pela forte prostituta, a mãe do rei…”

mtudorParece que Margaret interveio nesta ocasião, porém, isto não é indicativo de que ela estivera sendo dominadora. Ela de fato pode ter intervindo, para livrar-se de um homem intruso, se suas maneiras de fato fossem como parecem ser. Talvez pela estrada política de Margaret, ela soubesse bem o suficiente, quando interromper assuntos com pessoas indesejáveis para o reino.

Publicamente as duas mulheres estavam em uma frente unida e colaboravam em vários projetos juntas. É improvável que a rainha demonstrasse [se houvesse] sua frustração para com sua sogra na frente de estranhos. Elizabeth viveu uma vida inteira de treinamento real, ela tinha postura suficiente para ter suportado as qualidades menos desejáveis de sua sogra, com sua famosa boa graça.

Margaret fez com que todos fossem plenamente conscientes de que ela era a mãe de um rei. Henrique permitiu que sua mãe mantivesse servos, e muitas vezes delegava casos judiciais para ela, já que possuía um conhecimento impressionante da lei.
Margaret era justa, ela trabalhou fervorosamente nos casos, mas também os abandonou, quando era apropriado.

Foi Margaret quem interveio pela irmã mais nova de Elizabeth, Cecily, quando ela irritou Henrique ao casar-se com um plebeu. Margaret deu abrigo à Cecily e seu marido e negociou com Henrique em nome dela, para que Elizabeth não fosse colocada em uma posição difícil.

Foi Margaret quem cuidou de Elizabeth no rescaldo de Bosworth, que reformou seus quartos para mantê-la confortável e lhe permitiu a privacidade desejada para conhecer seu futuro marido. Foi ela quem manteve quartos permanentes, totalmente à disposição de Elizabeth em sua propriedade no Collyweston. Na casa de Margaret, Elizabeth fugiu com o príncipe Henrique durante a revolta de Cornish em 1497. Elizabeth pensou em Margaret quando buscou auxilio ao ficar preocupada com sua jovem filha Margaret, que seria enviada para a Escócia para se casar; afinal, sua sogra também havia experimentado um casamento e um parto perigoso em tenra idade.

O Rei Henry VII disse ao Embaixador Espanhol:

“Além de minhas próprias dúvidas, a Rainha e minha mãe são muito contra este matrimônio. Elas dizem que, se o casamento for celebrado e que caso devamos ser obrigados a enviar a princesa diretamente para a Escócia, temem que o rei dos escoceses não espere, mas iria feri-la, e pôr em perigo a sua saúde.”

Margaret passou os anos do reinado de seu filho, usando sua influência para favorecer seus projetos de estimação. Ela estava king_henry_viimuito interessada na educação e apoiou duas faculdades da Universidade de Cambridge: O Colégio de Cristo, que ela fundou, e O Colégio da Rainha, que havia sido apoiado por rainhas anteriores da Inglaterra.

Elizabeth, por outro lado, voltou-se para os assuntos de sua casa e família, tendo sido sempre uma mulher de bom coração e voltada para o lar. Ela teve conhecimento de três modelos de realeza antes de sua própria sucessão: Margaret de Anjou, que foi geralmente taxada como sendo “guerreira” e “agressiva”, enquanto Elizabeth Woodville, sua própria mãe, que foi acusada repetidamente de arrogância e nepotismo e Anne Neville, considerada apenas um peão praticamente sem importância.

A posição de Elizabeth, fora cautelosa mas não menos impressionante ou admirável. Ela escolheu seguir o modelo de rainha apresentado em alguns textos do século XV, que sabemos que ela teve acesso. Estes livros defendiam uma rainha ideal, cuja esfera de influência era mais nacional ou nos bastidores. A influência de Elizabeth sobre Henrique, mesmo que sendo de natureza pessoal – como uma companheira, confidente, e através dos atos de caridade e religiosos de sua casa – pode muito bem ter sido amplamente aproveitada em momentos oportunos e relevantes.

Dentro deste jogo de poder, onde todos adotam um postura de combate, ela escolheu demonstrar o lado mais acessível, suave e humano da realeza, uma figura materna que era simpática aos suplicantes e equilibrada, sem interferir diretamente no componente masculino de guerrear ou governar. E essa, provavelmente fora uma decisão bastante sensata, considerando suas antecessoras.

A história tem vilanizado Margaret Beaufort e diminuído a Rainha Elizabeth de York. Porém, ambas foram mulheres notáveis, cada uma à sua maneira. Poucas de suas cartas sobreviveram e, como acontece com a maioria das mulheres medievais, é realmente difícil ouvir suas próprias vozes, mas apesar das diferenças entre as duas, Elizabeth e Margaret encontraram uma na outra, uma espécie de equilíbrio que lhes permitiu serem aliadas e mulheres, e não inimigas.

FONTES:
Nerdalicious: AQUI.
Tudor Brasil: AQUI.
Elizabeth of York: A Tudor Queen and Her World; Weir, Alison – Ballantine Books.

Author her Storian Parent: AQUI.
Susan Higgin Botham: AQUI.

The Free-Lance History Writer: AQUI.

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