A Criança e a Infância no Período Tudor

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A infância, o breve período da vida de uma pessoa, onde ela desperta o seu desenvolvimento para o mundo e a sociedade que a cerca. Porém, este conceito de infância, como um período separado, sentimental e idealizado de desenvolvimento, é uma invenção relativamente moderna. Com o período vitoriano, muitos valores foram reciclados ou reaplicados dentro da sociedade. A maneira como era visto um relacionamento, infância, romance, namoro e até casamento, foram reconstruídos e vistos sob uma outra ótica.

Ou seja, inicio este artigo dizendo que, ao contrário do que muitos costumam acreditar, a ”infância” como conhecemos e seus valores, é um conceito relativamente recente, inventado no período vitoriano e portanto, não aplicado durante o período Tudor. Os vitorianos passaram a ver a infância, como um período de inocência e brincadeiras – para as crianças ricas pelos menos – mas não era desta maneira, que a infância fora vista em tempos passados. No período Tudor, era esperado que elas se adaptassem e estivessem em conformidade com as expectativas de adultos, muito mais cedo.

Os Tudors viam a infância e os primeiros anos de vida, como algo perigoso. Devido a alta taxa de mortalidade infantil, fazendo com que mais de 50% das crianças não sobrevivessem até a idade adulta, o alto índice de pobreza e doenças, relegavam as crianças, poucos subsídios para sua juventude. Eles acreditavam que as crianças, eram pessoas em perigo iminente de tornarem-se imorais ou imprudentes, a menos que fossem mantidas muito estritamente dentro do caminho da retidão.

Nascimento:

Captura de Tela 2015-04-19 às 05.57.41Muitas crianças nascidas no período Tudor, não sobreviviam à infância. Talvez 25% das crianças, morreram antes de seu quinto aniversário e até 40%, morreram antes de seu aniversário de 16 anos. O parto também era perigoso para as mulheres Tudor e muitas mães morriam ao dar à luz.

Quando a criança nascia (veja mais sobre isto aqui), ela era lavada em água morna e em seguida, para mantê-la quente, era friccionado manteiga ou óleo de rosas nela. O bebê era então, enrolado (envolto em panos como bandagens) em tecidos apertados. Normalmente, o bebê era batizado dentro de alguns dias, pois o risco de morte era alto.

Mulheres Tudor comuns, amamentavam, mas as mulheres de classe alta ou nobreza, entregavam seus bebês para serem amamentados por amas de leite (leia mais aqui). Eles eram colocados para dormir em um berço de madeira e desmamados entre 1 ou 2 anos de idade. Se os pais pudessem pagar, eles recebiam um coral para mastigar, ajudando a dentição. Elas muitas vezes aprendiam à andar, com uma armação de madeira sobre rodas, parecida com um andador.

Bebês:
b2004f827eb7db55edaef0b5e88bc97cO mundo no período Tudor, era um local perigoso para qualquer criança, pois a assistência dada à elas, era totalmente diferente. Atualmente, uma casa moderna contém plugues de tomadas, esconderijos para produtos químicos, protetores para superfícies pontiagudas, redes nas janelas e etc… Porém, o primeiro ano da vida de um bebê no período Tudor, era praticamente todo levado dentro do berço.

Considerando atualmente, à liberdade que os bebês possuem fora do leito, a fim de que mantenham seu desenvolvimento pessoal, tal ideia chega a parecer absurda. Porém, conforme dito acima, uma casa no período Tudor, escondia muitos perigos e a supervisão dada à um bebê, estava longe do zelo integral que lhes é dado atualmente. Isto não significa que as mães e babás foram pessoas negligentes, elas apenas viviam sob um outro contexto, no qual a ideia de prioridade em um dia, não envolvia o cuidado integral e excessivo à bebês, se eles podiam ficar seguros dentro de seus berços. Existem muitos registros de crianças Tudor que fora de seus berços, caíram de janelas, saíram porta à fora, queimaram-se com velas, caiam em valas e etc…

Educação (veja mais aqui):

hornbye-hornbookA educação começava desde muito cedo, especialmente para a realeza e nobreza. A princesa Maria, era capaz de tocar virginal bem o suficiente, para impressionar embaixadores imperiais aos quatro anos de idade, e fora capaz de falar latim aos nove. Aos três anos, o príncipe Arthur Tudor, tinha uma rigorosa agenda educacional, que o fez proficiente em línguas e na arte de governar, versando-o em todos os proeminentes filósofos clássicos por quinze anos.

Era costume enviar um filho para longe aos sete ou oito anos, a fim de continuarem sua educação sob os cuidados de outra família, ou como no caso de Ana Bolena, enviar a criança à Corte, para ser colocada na casa de um nobre, quase como uma escola de aprimoramento.

A programação diária para as crianças era muito extensa em comparação aos dias atuais. O que veremos à seguir, é um registro escolar à partir de 1612:

O trabalho começa às 6 e aqueles que chegarem primeiro, tem os melhores lugares. Às 9:00, é dado 15 minutos para o dejejum e recreação; em seguida, o trabalho continua até meio dia, ou depois (para equilibrar os 15 minutos off). A refeição segue e depois trabalham até 3 ou 03:30, com 15 minutos de folga e trabalho até as 5:30, quando a escola fecha com um trecho de um salmo e oração ao seu mestre.

As enfermarias de Elizabeth I, tinham a seguinte programação diária:

Captura de Tela 2015-04-19 às 19.45.33Ela ia para à igreja às 06:00, estudava latim até as 11, fazia a refeição às 11 ou meio-dia, tinha música do meio-dia às 14:00, Francês das 14:00 às 15:00, latim e grego das 15:00 às 17:00, em seguida, orações, ceia, e “passatempos honestos” até às 20:00, seguidos de música até as 21 hs. e depois ia para à cama.

A princesa Elizabeth, aprendeu idiomas segundo o método de ”double translation”. Ela traduzia um texto, e em seguida, alguns dias depois, traduzia-o de volta para o inglês, a fim de ver o quão perto combinava com o original. Foi uma atividade que ela aparentemente gostou tanto, que fazia por diversão em seus anos adultos.

As crianças pobres, é claro, trabalhavam como adultos apenas quando eram fisicamente capazes de fazê-lo. Algumas crianças comuns, eram capazes de irem às escolas paroquiais, mas apenas se seus pais pudessem poupá-las do trabalho.

Castigos e punições:
castigotudorHavia uma crença religiosa, que as crianças nasciam más e com os anos de dura disciplina e castigo físico, a maldade então, sairia delas. Dentro dos manuais de aconselhamento, diziam-se que as demonstrações de afeto, iriam estragar e mimar uma criança. Ou seja, pais afetuosos, não disciplinariam seus filhos tão duramente quanto o necessário e o caráter da criança, ao invés de tornar-se bom, tornaria-se mal. Obviamente, deve ter havido pais que resistiram a esta concepção, pois estes manuais insistiam fortemente neste aspecto. Eles alertavam que poupar a varinha, levaria à sedição e ao mal e talvez, até o parricídio.

”E se esta criança ficar rebelde e não curvar-se a você,
se qualquer um deles desobedecer, não os amaldiçoe e nem exploda (gritar);
Mas pegue uma boa varinha e bata neles com barulho. 
Até que eles chorem por perdão e reconheçam a culpa.
A cara criança, aprenderá então.
Eles o amarão então ainda mais…”

As crianças eram instruídas a verem estes castigos como sendo de seus próprios interesses:

”Uma criança sábia, sabe que é amada; e os homens dizem como devem aprender.
Quem poupar a varinha, a criança então odiará,  e como o sábio homem disse em seu livro; 
De provérbios e sabedoria, vai ver:
Como um esporão afiado, faz um cavalo se mover,
Sob um homem que deve conhecer os conflitos,
Cuidar bem de seu jardim, pode fazer uma criança
aprender bem a lição e ser suave. Hey criança! Aqui tudo podemos ver e ouvir,
Como todas as crianças, castigadas devem ser,
E portanto criança, olhai fazer o bem,
E nenhuma batida forte irá receber…”

UnknownChild3Você já deve ter ouvido falar de “meninos do chicote” ou ”bodes espiatórios”, usados no período Tudor. Este foi um costume menos formalizado e por isto existe mais de um termo designatório. As crianças muito ricas, poderiam evitar de apanhar de seus mestres. Ao invés disto, eles iriam bater em um outro menino, alguém pago, ou o servo da criança, recebendo então, uma dor emocional ao invés de física (ao contrário de seu servo, é claro). Era permitido que os professores ou mestres, dessem até 50 golpes de varinha de bétula. Charles I tinha um servo, chamado William Murray, que serviu como seu bode expiatório. Quando Charles tornou-se rei, ele fez de Murray, seu antigo companheiro, um Conde.

Mesmo assim, o castigo corporal não terminava com a ”infância”. Os servos e esposas, frequentemente apanhavam. Existe um registro, de que Cardeal Wolsey um dia insultou Will Somers com uma rima: “A varinha na escola e um chicote para um tolo, estão sempre na moda.”

Jane Grey, certa vez notoriamente reclamou:

”Quando estou na presença tanto de meu pai ou mãe, mesmo que eu fale, mantenha silêncio, sente, fique ou vá, coma, beba, fique feliz ou triste, costure ou toque, dance ou faça qualquer coisa, devo fazê-lo, como se fosse de tal peso, medida e número, tão perfeito quanto Deus fizera o mundo; ou então, sou nitidamente zombada, tão cruelmente tratada, recebendo às vezes beliscões, safanões e outros tipos (que eu não nomearei pela honra que carrego) de tão imedidas broncas, que acredito estar no inferno…”

Isso não significa que eles não fossem amados. Apenas existiam conceitos diferentes sobre o amor e educação. Os pais de Jane, por exemplo, talvez fossem simplesmente estritos segundo à ótica do período – como os manuais os ensinavam a serem – e por tal motivo, não toleravam a indolência de sua filha. O velho equívoco histórico, de que os pais no período Tudor não amavam seus filhos, é desmentido em poemas enlutados. Por exemplo, o soneto de Ben Jonson sobre a perda de seu filho;

Para meu primeiro filho – Ben Jonson:

Adeus, ó filho de minha mão direita* e prazer;
Meu pecado foi ter muita esperança de ti, amado menino.
Sete anos não me foram emprestados, e mesmo assim paguei,
Exigido pelo teu destino, justo neste dia.
Oh, poderia eu perder todo pai agora!
Por que um homem irá lamentar o estado em que deveria invejar?
Para ter tão cedo escapado do mundo e de sua fúria carnal,
E, se não houver outra miséria, ainda amadurecerei?
Descanse em suave paz e pergunto se aqui devo mentir
Ben Jonson, seu melhor pedaço de poesia.
Para o bem de quem, à partir de agora, todos seus votos serão destinados,
Como o que ele ama, que pode nunca parecer muito.

*Referência ao sentido do nome Benjamin, que significava ao lado direito.
Ambiente familiar:
Era esperado que as crianças nutrissem um profundo respeito e reverência por seus pais. Crianças nobres, seguidas de seus exércitos de amas de leite, amas secas, governantas e tutores, provavelmente só viam seus pais uma vez por dia – se os viam ea856b6d68c5a2e251eacf33de5dd5a0– em busca de benção antes de dormir. À noite, as crianças seriam apresentadas a seus pais para pedir uma bênção. Elas iriam se ajoelhar na frente deles, removendo seus chapéus. As vezes, elas seriam convidadas à recitarem suas lições do dia, ou um versículo da Bíblia, e em seguida, o pai iria colocar suas mãos sobre a cabeça delas e abençoá-lo – os vestígios deste costume, permanecem atualmente quando os pais dão aos filhos um beijo de boa noite. Mesmo quando adultos, era esperado que as crianças se ajoelhassem em frente a seus pais.
”E criança, adore a teu pai e a tua mãe,
Olhe para que não aflijas, nem a um nem a outro,
Mas sempre, entre eles deve ajoelhar-se,
E pedir sua bênção…”

As crianças nobres por este motivo, acabavam nutrindo um laço afetivo muito profundo com seus tutores e cuidadores, que poderiam durar para o resto de suas vidas. Temos alguns exemplos, como Henrique VIII e sua enfermeira, Elizabeth Denton e até de Elizabeth I, com Kat Ashley.

Vestuário:
Captura de Tela 2015-04-19 às 01.38.33As crianças vestiam as mesmas roupas que os adultos, porém, as mais ricas não usariam ornamentos caros como jóias e etc. Geralmente seus ornamentos eram feitos de corais, até que tivessem a idade para usar jóias. Até os seis ou sete anos, um menino usava roupas inspiradas nas de sua mãe, mas depois desta idade, recebiam suas primeiras calças curtas. Algumas pessoas sugeriam que os pais não deviam deixar as crianças escolherem suas roupas, devido ao tolo gosto de moda, como podemos ver à seguir:

Não deixe as crianças divertirem-se ao escolherem suas roupas. Algumas gostam de tê-las tortas e mal cortadas; mas tal escolha deve ser feita por alguém mais velho e sábio, considerando que suas tolices vão além da medida, se tudo for feito conforme suas vontades e prazeres; e escritores antigos, reputam como fora de juízo e loucos, quem permite isto. Novamente, o vestuário colorido e berrante, não é tão incrível aos olhos das crianças; mas custam aos bolsos dos pais, enquanto escritores antigos dizem que tais pais, são tolos companheiros de seus filhos.

Brinquedos:

O tempo que uma criança dedicaria à brincadeiras e brinquedos, dependeria do quanto os seus pais acreditassem nas noções 51240269_smldefendidas em manuais educativos, de que: as crianças devem ser “sóbrias e tristes” e dedicarem seu tempo ao trabalho, estudos e orações, ao invés de brincadeiras e jogos.

Mesmo assim, as longas horas de estudos e deveres, não as impediam de brincarem, se seus pais assim permitissem ou desejassem. Os brinquedos eram muitas vezes feitos de madeira ou materiais que fossem facilmente disponíveis, como ferro, barro, pedras e até ossos de animais.

Bexigas de porcos eram enchidas para fazer bolas, aros eram feitos de barris velhos e seixos ou pedras, eram usados como bolinhas de gude.

As crianças brincavam com bonecas de madeira. Elas eram chamadas de bebês Bartolomeu, pois eram em sua maioria, vendidas na feira de São Bartolomeu, em Londres. Eles também brincavam com um copo e uma bola – uma bola de madeira e um copo com um cabo. Você tinha que balançar o punho e tentar colocar a bola no copo. Eles também adoravam iô-iôs.

Eles não brincavam por tanto tempo quanto atualmente. Aos três anos de idade, o príncipe Arthur, tinha um regime quase restrito de aulas acadêmicas em 1489, com apenas uma breve janela antes de dormir, para que desfrutasse de seus jogos favoritos e cães de estimação.

Estágios da Infância:
Existiam estágios dentro da vida de uma criança e eles eram conhecidos como ”os sete”. Na primeira etapa, as crianças eram Captura de Tela 2015-04-19 às 01.38.21cuidadas por suas mães, babás ou tutores. Ser “breeched”, significava a passagem do menino para a esfera masculina de vida, ao invés dos cuidados de uma mãe. A infância era constituída por alguns grupos de idades.
1 etapa – Início da Vida: Esta etapa era baseada na independência da criança em realizar tarefas sozinhas, por ser muito nova. Nesta etapa, os meninos não vestiam-se como meninos, usando roupas parecidas com as de suas mães. Eles aprendiam a usar o mordedor e andador e mamavam no peito.

2 etapa: À partir do sétimo aniversário, à masculinidade dos meninos era definida e calças eram dadas a eles. Além disto, a companhia masculina, era inserida em seu cotidiano. Era esperado que nesta idade, as crianças pobres passassem a trabalhar para ajudarem suas famílias. Obviamente, o efeito do trabalho duro, causava certos danos à muitas crianças, como deformações ósseas, falta de nutrição e acidentes de trabalho.

3 etapa: Aos doze e quatorze anos, as meninas passavam a entrar na idade da preparação para o matrimônio. Algumas crianças nobres, eram prometidas em matrimônios desde à infância. As crianças de famílias ricas, geralmente tinham seus casamentos arranjados para elas. Se elas se recusassem a casar com a pessoa da preferência de seus pais, elas apanhariam até mudarem de ideia. As crianças de famílias pobres, tinham mais escolha sobre com quem se casar. No entanto, as meninas geralmente se casavam muito jovens. Nesta etapa, a criança era um adulto, em quase todos os aspectos, segundo a sociedade.

Conclusão:
Embora não fossem iguais aos adultos, eles definitivamente, não eram vistos como crianças indefesas e seres puros e dignos de zelos e proteções como no período vitoriano e atual. A vida das crianças no período Tudor, era muitas vezes brutal e cheia de experiências que horrorizariam um pai moderno. Os primeiros anos foram preenchidos com os potenciais perigos de doenças, acidentes e violência, embora as decisões que podem parecer-nos hoje como equivocadas, na verdade representavam os melhores esforços dos pais naquele período. É claro que muita coisa mudaria desde então…

FONTES:
Under these restless skies: Aqui.
Local Histories
Author her Storian Parent: Aqui.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Daiane disse:

    Estou amando o site! Estão de parabéns, tenho um grande interesse pelo período Tudor, no momento estou terminando a serie The Tudor e venho me informando sempre por aqui!

    1. Tudor Brasil disse:

      Ficamos muito felizes, Daiane. Seja bem-vinda! 🙂

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