Review: Livros Cartas da Humanidade e Cartas de Amor de Mulheres Notáveis

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Hoje lembrei que possuo estes dois exemplares em minha coleção e mesmo abordando (por tabela) personagens do período Tudor, eu nunca havia os mencionado para vocês. Pretendo então, fazer um breve review sobre cada um, para que os leitores interessados em adquiri-los, possam tirar suas próprias conclusões.

As cartas deixadas por pessoas ao longo da história e que sobreviveram ao tempo, são um dos nossos documentos primários mais valiosos para estudo. Tudo fica muito mais incrível e intimista, quando trata-se de cartas de amor ou de cartas que foram impactantes para as pessoas que as trocaram, e é sobre isto que estes dois livros abordam.

Livro 1 – Cartas de Amor de Mulheres Notáveis:
Dados iniciais:
Autor: Ursula Doyle
Título Original: Love letters of great women
Páginas: 176

Este primeiro livro que falarei, é uma compilação feita pela editora Record, que tem como objetivo, mostrar ao leitor, ”os desejos secretos de escritoras, artistas, princesas e rainhas”. Nela podemos ler cartas de despedida, de consolo, de anseio, mas sempre focando no tema romance. No livro, podemos encontrar cartas de mulheres como: Ana Bolena, Catarina de Aragão, imperatriz Josefina, rainha Vitória e muitas outras. Existe agora, uma versão masculina, que chama-se ”Cartas de amor de homens notáveis”, inspirado no livro que a personagem Carrie Bradshaw lê no filme ”Sex and the city”.

É um livro fino, muito bonito e bem organizado, com folhas brancas, tamanho pequeno (um pouco maior que de bolso), com uma tradução fiel e que vale muito à pena para quem ama registros históricos, cartas românticas e uma leitura mais intimista e atemporal.

Livro 2 – Cartas da Humanidade:
Dados iniciais:
Autor: Márcio Borges
Páginas: 461
Editora: Geração

Vamos falar agora do outro livro que tenho em mãos, este, uma aquisição recente e muito satisfatória. O livro em questão, também é uma coletânea de cartas escritas ao longo do tempo, porém, não focado apenas em correspondências amorosas e sim, em documentos que de algum modo, mudaram o rumo da humanidade. Neste livro, também figuram dois personagens históricos do período Tudor; Henrique VIII (carta para Ana Bolena) e Catarina de Aragão. Sinceramente, considero ambas as cartas colocadas nestes livros, muito importantes, mas existem muitas outras incríveis, que foram esquecidas. Ou seja, em suma, temos dois livros com as mesmas cartas Tudor no Brasil*, sendo que várias outras poderiam ter sido inseridas nestes documentos. Uma pena…

A ideia deste livro, conforme citada acima, é reunir documentos de suma importância histórica de nossa humanidade. Vão desde cartas que abordam religião, ciência, romance, arte e etc, até intrigas, golpes de estado e situações conflitantes, como guerras. Podemos encontrar nele, além dos nomes do período Tudor, Zaratustra, Obama, Che Guevara, Marilyn Monroe, Maria Antonieta, Napoleão, Platão, Papa Gregório III e muitos outros.

O livro possui o tamanho um pouco maior que o padrão, a encadernação é mais elegante, com letras em fólio dourado e design mais sóbrio, fazendo referência ao estilo de documentos antigos de fato. A capa é brochura, folhas amareladas e papel de qualidade.

Considerações finais:
São ambos livros interessantíssimos, que adorei adquirir. Em todo modo, vale ressaltar que quem tem um, não necessariamente precisa ter o outro. Em minha opinião, o exemplar da editora Geração, talvez seja o mais válido, pelo enorme leque de documentos abordados, não apenas os de teor romântico.

Quanto ao preço, enquanto o ”Cartas de amor de mulheres notáveis” pode ser encontrado de 15 até 25 reais, já o ”Cartas da humanidade”, figura na casa dos 50 a 60 reais.

Cartas Tudor:

Carta de Catarina de Aragão, para Henrique VIII:

”Meu mais caro senhor, Rei e marido,

A hora de minha morte agora se aproxima, e neste caso o terno amor que devo a vós, força-me  a lembrar-vos de algumas palavras de saúde e conforto para sua alma, a qual deve preferir antes de todos os assuntos mundanos e antes dos cuidados e mimos do corpo, para o qual tu me lançaste para tantas calamidades e inquietações. De minha parte, eu vos perdôo de tudo e rezo devotamente a Deus para que lhe perdoe também. Para o resto, recomendo-vos vossa filha Maria, suplicando-lhe que seja um bom pai para ela, como eu havia desejado antes disto. Rogo-vos também em nome de meus empregados, para dar-vos ajuda, que não é muito, sendo que são apenas três. Para todos meus outros serventes eu solicito-vos seus devidos salários e uma ano a mais, para que não fiquem desamparados. Por último, faço-vos este voto, aquele para qual meus olhos desejam sobre todas as coisas.

Catarina a Rainha.


Carta de Henrique VIII para Ana Bolena:

O conteúdo de suas últimas cartas estão revirando minha mente, eu tenho me colocado em grande agonia sem saber como interpretá-las, quer na minha desvantagem, como você mostra em alguns pontos, ou em minha vantagem, como entendo em outros, rogo-lhe sinceramente que deixe-me saber expressamente sua opinião sobre o nosso amor.
É absolutamente necessário que eu obtenha esta resposta, tendo sido um ano e inteiro atingido com os dardos do amor, e ainda não tenho certeza se vai deixar que eu encontre um lugar em seu coração e afeição, que por um período impediu-me de chamá-la de minha amante; pois se apenas me amas com um amor comum, este nome não é adequado para você, pois denota um amor singular que está longe de ser comum. Mas por favor, se cumprir o oficio de uma fiel amante e amiga, entregando seu corpo e coração a mim, que fui e tenho sido seu mais leal servo (se seu rigor não me proíbe), eu prometo-lhe que não apenas o nome será dado a você, como também farei de ti minha única amante, rejeitando todas as outras, exceto você de meus pensamentos e afeições e servindo apenas você. Eu peço-lhe que me dê uma resposta completa para esta minha descortês carta, que me permita saber a que distância eu posso contar. E se isto não acontecer, por favor, responda-me por escrito, nomeando algum lugar onde eu possa tê-la, e irei para lá com todo o meu coração. Sem mais, por medo de cansá-la.
Escrito pela mão de quem está disposto a permanecer seu,
H. R.

Carta de Ana Bolena para Henrique VIII (*Esta é a única carta diferente e ela aparece no primeiro livro citado acima. É muito provável que esta carta não tenha sido escrita por Ana, e sim forjada por terceiros, a fim de parecer ter sido escrita pela Rainha. O modo no qual ela fala na carta, assim como sua letra, não refletem as descrições de Ana durante seu confinamento na torre de Londres e sobretudo, não existem registros seguras sobre sua procedência – Fica a critério do leitor).

”Senhor,
O desprazer de Vossa graça e minha prisão, são situações tão estranhas para mim, que ignoro totalmente o que devo escrever e sobre o que devo desculpar-me. Como vindes a mim – desejando que confesse uma verdade e deste modo, obtenha vossa boa vontade – por intermédio de alguém que sabeis ser de longa data, meu inimigo confesso? Tão logo recebi dele vossa mensagem, compreendi vossa intenção; se como afirmais, confessar a verdade poderá de fato garantir minha segurança, cumprirei pronta e fielmente o dever que impõe-me. De todo modo, vossa graça jamais deve imaginar, que vossa pobre esposa será convencida a admitir uma falta com relação à qual não abrigou sequer um pensamento e para falar a verdade, jamais um soberano tivera esposa mais leal do que aquela que tiverdes em Ana Bolena; nome e situação com o qual teria ficado voluntariamente satisfeita, se Deus e o prazer de vossa graça, assim houvessem desejado. Nunca em qualquer momento, a ascensão social ou posição de rainha, fizeram-me esquecer quem sou; pois sempre vi tal mudança de situação, tal como vejo agora, pois tive minha posição afirmada por nenhum fundamento mais seguro que o de vossa graça, sabia que a menor alteração seria bastante e suficiente para atrair tais desejos na direção de outro objeto.

Sendo eu de condição humilde, vós me escolherdes para ser vossa rainha e companheira, levando-me para muito além de minha situação árida e de meu desejo; se naquela ocasião me considerasse digna de tal honra, vossa bondosa graça, não me permitais que uma extravagância leviana ou mal conselho de meus inimigos, roubem-me vossa nobre indulgencia; não permitais que o descrédito – plantado em vossa graça por um coração desleal, lance tão vil desonra sobre vossa dedicada esposa e sobre a princesa infante, vossa filha. Levai-me a julgamento bondoso rei, mas fazei com que eu tenha um julgamento justo e não permitais que meus inimigos jurados sejam meus acusadores e juízes; sim, deixai-me ter um julgamento público, pois minha verdade, não teme sofrer alguma humilhação. Então, vereis confirmada a minha inocência, apaziguadas as vossas suspeitas e vossa consciência, derrotadas a ignomínia e a difamação do mundo; ou então, vereis minha culpa ser publicamente declarada, de modo que, qualquer que seja o destino que Deus e vossa graça me imponham, estareis livre de censura; e sendo meu crime provado legalmente, vossa graça ficará em liberdade, tanto diante de Deus como dos homens, não só a aplicar-me o castigo devido a uma esposa infiel, mas também manifestar a afeição já dedicada àquela pessoa em favor da qual me encontro onde estou, cujo nome, já há algum tempo poderia ter indicado, estando vossa graça ciente de minhas suspeitas à respeito.

Porém, se já houverdes determinado meu destino e se não somente minha morte, mas também a calúnia infame deve conduzir-vos a vossa desejada felicidade, então espero que Deus vos perdoe este grande pecado e também perdoe a meus inimigos que o causaram; e que ele não vos cobre o acerto de contas, pela forma indigna e cruel com que me tratastes, no trono do julgamento diante do qual eu e vossa graça logo deveremos comparecer; e que por julgamento justo, não tenho dúvidas – seja o que for que o mundo pense de mim – minha inocência será amplamente conhecida e suficientemente absolvida.

Meu único e último pedido; que somente sobre mim recaia o peso do desfavor de vossa graça e que não atinja as inocentes almas daqueles pobres cavalheiros (que vim a saber) que enfrentam as agonias da prisão por minha causa. Se alguma vez contei com o favor de vossa graça; se alguma vez o nome Ana Bolena lhe fora agradável aos ouvidos; deixai que tal apelo seja atendido; e deste modo, não mais vos incomodarei, rogando fervorosamente à trindade para manter vossa graça em bons cuidados e que vos dirija em todas as ações.

Sua mais leal e sempre fiel esposa, Anne Bullen,
De meu triste cárcere na Torre, neste dia 6 de Maio.

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