Maria Stuart – Parte II: Infância na França

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Ao sair Dumbarton, Maria com então cinco anos de idade, fora confiada a Sieur de Brézé, até que chegasse sã e salva à França e fosse entregue ao Rei. À bordo também estavam James, John e Robert, três dos filhos ilegítimos do pai de Maria. Os lordes Erskine e Livingston, guardiões de Maria, também partiram da Escócia. Depois de uma longa e turbulenta viagem, que enervou e enjoou a todos – especialmente Lady Fleming, que em vão, implorou para ser levada à costa – a frota chegou ao porto de Roscoff, na Bretanha. O rei da França ordenou que Maria recebesse as boas vindas e assim fora. A pequena Maria seguiu viagem à cavalo, até pegar uma barca em Nantes, que a levaria até o Rio Loire, através de Anjou e Touraine. Em Tours, ela fora recebida por seus avós maternos, Claude e Antoinette, o Duque e Duquesa de Guise. Antoinette, que não impressionou-se nada com a comitiva de Maria, logo assumira a educação de sua linda neta.

Francis II.
Francis II.

O primeiro encontro de Maria com suas damas francesas, ocorreu em Carrières, onde o Dauphin e sua irmã de três anos de idade, Elisabeth, estavam hospedados com seu mordomo e governanta, Marechal e Madame d’Humières. Se o santo de Maria de cara bateu com o jovem François, o mesmo não aconteceu com sua mãe, Catarina de Medici. Catarina apareceu de repente, sem a menor cerimônia na creche real e ficou observando as crianças. A pequena Maria pegou uma antipatia imediata por ela e sem saber de quem era, perguntou-lhe se sabia que estava na presença da Rainha da Escócia. Diante disto, Catarina bruscamente perguntou, se ela sabia que estava na presença da rainha da França. Isso foi um erro, que Catarina, enciumada com a presença da criança, jamais perdoaria. Maria também conhecera os irmãos de sua mãe, o Cardeal de Lorraine, Charles Guise e Francisco Guise. Eles não eram apenas seus tios, como também seriam as pessoas que manteriam uma dramática influência sobre ela. Ambiciosos e poderosos, eles planejaram juntos, colocar sua sobrinha em uma posição central e cobiçada, entre as coroas da França e Inglaterra. Charles era o herói arrojado, enquanto Francisco era culto e brilhante, porém sinistro. Um conquistador, ele era popular entre as damas e corriam rumores de que ele havia envolvido-se com sua sobrinha. Maria certamente adorava seu tio, que cuidou de sua educação e a quem ela sempre recorria para pedir conselhos. De todo modo, Francisco nunca teria comprometido o nome e poder dos Guise, mantendo envolvimentos inadequados com sua sobrinha.

Aos oito anos de idade, Maria receberia sua primeira e última visita de sua mãe, Maria de Guise. Ela encontrou sua filha no meio de uma metamorfose entre uma criança escocesa e uma culta e refinada dama francesa, mas nem tudo estava bem na Corte de França. Um homem chamado Robert Stuart, que pretendia passar-se por um espião inglês, foi acusado de tentar envenenar Maria antes da partida de sua mãe. Embora o homem tenha sido enforcado por isto, todo o caso permanecera envolto a mistérios. Como sempre, quando havia veneno envolvido, as atenções voltavam-se para Catarina. No entanto, por mais que não simpatizasse com a jovem, Catarina não teria nenhum motivo para querer livrar-se de Maria naquela altura.

Diane de Poitiers
Diane de Poitiers

Maria tinha outra querida companheira na Corte francesa, sua nome era Diane de Poitiers, a bela amante do rei francês. Catarina havia conformado-se com este tipo de ménage à trois, mas nutria um profundo ressentimento pela mulher que tinha tudo o que ela não possuía: beleza, bom gosto e o coração do rei. O relacionamento de Henrique  com Diane, era equivalente a um casamento; ela tomava conta das crianças, ele usava suas cores (preto e branco), entrelaçava suas iniciais à dela e passava a maior parte do tempo ao seu lado. Henrique tinha apenas quatorze anos, quando seu pai decidiu pegar a viúva de 31 anos, Diane, para ser tutora de seu tímido e maçante filho. Ele apaixonou-se por ela desde o início e não tinha olhos para a noiva italiana escolhida para ele, Catarina de Médici. Quando a jovem Catarina chegou à França, Diane e Henrique já eram amantes e foi entre este humilhante affair, que ela iniciou sua vida de casada. A filha de um simples mercador e parente do papa, fora constantemente lembrada do quão sortuda era em ascender à família real francesa. Em seu exterior, ela parecia uma pessoa recatada e pronta para agradar, mas ela era maquiavélica por dentro. A misteriosa e repentina morte do irmão de Henrique e herdeiro do trono, seria a primeira a ser atribuída à ela. Os franceses não gostavam desta pouco atrativa estrangeira, cujo o único aliado parece ter sido o rei Francis I. Para piorar as coisas, ela era estéril e seu futuro como Dauphine era incerto. Finalmente, quase que por milagre, Catarina tem um filho, Francis. Ela daria à luz a mais nove filhos, Elizabeth, Claude, Louis, Charles, Edward-Alexander, Margaret, Hercule e os gêmeos, Jeanne e Victoire. Os gêmeos e Louis não sobreviveram. Edward-Alexander, era conhecido como Henrique e tonou-se Henrique III. Elizabeth casou-se com Filipe II da Espanha, Charles tornou-se Charles IX e Margaret tornou-se a notória “Reine Margot”. Catarina estava agora segura em sua posição e quando Francis I morreu da ”doença francesa” (sífilis), a balança do poder, pendeu a seu favor.

Maria de Guise.
Maria de Guise.

Na época da partida de Maria de Guise, Diane caiu doente e retirou-se para seu château privativo de Anet. O Rei sentiu-se miserável sem sua amada, consolando-se com a governanta escocesa de Maria, Lady Fleming. O rei era normalmente fiel à Diane e a bela mas insignificante Lady Fleming, era uma pálida imitação. Infelizmente Lady Fleming engravidou e passou a gabar-se da indiscrição do rei. Diane perdoou e esqueceu, mas concordou com Catarina, que Lady Fleming deveria ser banida da Corte e retornar à Escócia. Ele retornou em desgraça e deu à luz ao menino que ficou conhecido como o ”Bastardo de Angoulême”. Para Maria, a perda de Lady Fleming foi amargamente sentida, quando Catarina a substituiu por uma de suas próprias damas, a sorrateira Madame de Paroys.

No entanto, a infância dourada de Maria continuou; poetas como Ronsard e Du Bellay cantaram seus louvores e Charles, oito anos mais novo, desenvolveu uma fascínio por ela, manchado por seus primeiros sinais de loucura. Francis era fraco e dependia dela constantemente, Margaret ou Margot era selvagem e Edward-Alexander ou Henrique, era efeminado e o favorito de sua mãe. Os tios de Maria, viam o enfermiço Francis com grande interesse e constantemente pressionavam o rei para uma aliança entre Francis e Maria. Em suas mentes, ele não viveria muito depois do casamento e Maria se tornaria Rainha da França. Catarina viu pouco a ganhar em tal união, que colocaria mais poder ainda nas mãos dos Guise. Francis ainda tinha apenas quatorze anos e sua afeição por Maria, nada mais era que fraternal. De todo modo, o Cardeal Lorraine apontou que unindo Escócia e França, iria fortalecê-los contra um inimigo usual, a Inglaterra. Além disso, o protestante John Knox e o meio irmão de Maria, James Stuart, estavam posicionando a Escócia contra a igreja de Roma, uma situação que o Rei da França não poderia permitir que continuasse. Então Henrique I deu seu consentimento e o documento de casamento fora assinado em 19 de Abril de 1558. No quarto dia daquele mês, Maria, guiada por seus ardilosos tios, também colocou sua assinatura em outros três secretos e controversos documentos. Neles, ela aceitou unir Escócia com França e atribuir as receitas escocesas para o Rei da França, até que ele recuperasse o dinheiro gasto defendendo aquele país e no final, ela renunciou a qualquer acordo que Mary-Queen-of-Scots-and-Francis-II-of-France-kings-and-queens-2542349-756-1024contradissesse qualquer uma das duas declarações. Uma luxuosa cerimônia de casamento aconteceu na Catedral de Notre Dame, seguida de júbilos nos quais a comitiva escocesa estava presente. No entanto, a questão do veneno fora novamente levantada, quando nove deles ficaram doentes e quatro morreram. O casal então, retirou-se para o Château de Villers-Cotterets, mas a lua de mel foi breve. O Cardeal impaciente para que o casamento fosse consumado, fez uma visita a eles, seguido pelo próprio rei, que decidira que Francis deveria juntar-se ao acampamento em Amiens para o bem de sua saúde.

Em Novembro de 1558, Maria I da Inglaterra morreu e foi sucedida por Elizabeth, sua meio-irmã. Os irmãos Guise, sempre tirando proveito de qualquer situação, proclamaram que Elizabeth era ilegítima pelo fato do casamento de sua mãe com Henrique, ser considerado inválido. O Rei da França não iria à guerra contra a Inglaterra por causa deste assunto, mas concordou que Maria, como única herdeira legítima, deveria agora cruzar os braços da França e Escócia, contra a Inglaterra. Este foi outro erro fatal, no qual Elizabeth responsabilizou Maria pelo resto de sua vida.

O ano de 1559, iniciou-se com uma série de casamentos reais. Claude casou-se com o Duque de Lorraine, Elizabeth casou-se com Filipe da Espanha por procuração em Junho e Margaret a irmã do rei, foi prometida ao Duque de Lorraine. No dia 30 de Junho no entanto, desencadeou-se uma série de eventos que marcariam o fim dos dias dourados de Maria. Catarina, que dizem ter possuído uma percepção extra-sensorial, recebeu uma profecia de seu astrólogo Nostradamus, de que o rei morreria ferido. Ele tinha um sonho recorrente, de um jovem leão lutando contra outro velho e arrancando seu olho fora e o escudo do rei, era gravado com um leão. Nas celebrações duplas de casamento, Henrique, que era exímio em justa, desafiou inúmeros participantes, incluindo o Conde de Montgomery, um jovem homem da Normandia, de ascendência escocesa. Quando Henrique, que estava mostrando sinais de fadiga, desafiou-o pela segunda vez, ambos Montgomery e Catarina, imploraram para que o rei parasse. Henrique não deu bola e ordenou que Montgomery participasse novamente da Justa. Então a premonição tornou-se real; Montgomery acidentalmente perfurou seu elmo e uma farpa atingiu o olho do monarca. Henrique caiu no chão, com sangue escorrendo de seu ferimento. Ele foi levado para o Hôtel des Tournelles, onde morreu dias depois. Montgomery um protestante, tornou-se claro, um suspeito, mas Henrique insistiu que ele não fosse culpado pelo acidente. Catarina demonstrou um genuíno pesar pela perda de seu marido que nunca a amara e adotou o lema “Lachrymae hinc, hinc dolor” (Daqui as lágrimas, daqui a dor). Porém, o longo sofrimento da esposa, estava agora em posição de dissipar-se, com sua primeira vingança contra a rival que houvera usurpado seu lugar no coração do rei, Diane. Catarina baniu-a para Anet e exigiu a devolução de todos os presentes que Henrique havia dado para ela, inclusive o belo castelo de Chenonceau. Em troca, Diane recebeu Chaumont, que Catarina acreditava ser um castelo azarento.

Henrique II
Henrique II

Francis sucedeu seu pai e Maria tornou-se Rainha da França e Escócia e Rainha da Inglaterra por nome. Os dias despreocupados haviam terminado. Catarina mostrou a ela toda a reverência cabível, mas estava apenas aguardando sua vez. Logo, Francis iria abrir caminho para seu próximo filho, Charles, a quem ela poderia moldar facilmente. Francis não era mais aquela criança apavorada, que corria para Maria pedindo conforto. Os irmãos Guise, estavam alegres. A união de duas coroas, significava agora, o poder de ambos estado e exército; Francis poderia ser intimidado sobre sua virilidade e capacidade de gerar uma criança. O Cardeal tornou-se um dos mais odiados homens na França. Ele começou a perseguição dos Huguenotes e pode ter sugerido a Maria, que engravidasse de um amante. Maria estava começando a tomar conhecimento dos homens e mulheres ardilosos e inescrupulosos que a cercavam. Sua saúde estava começando a trazer preocupações, já que ela estava propensa a dores misteriosas e desmaios causados por indigestão. Em Amboise, ela e Francis foram submetidos a uma cena terrível. Foi descoberto um complô para sequestrar o rei e a Rainha e colocar o Huguenote rei de Navarra, no trono. Os irmãos Guise decidiram aproveitar a oportunidade, para mostrar o que aconteceria a todos que se opusessem ao poder do rei. Maria e Francis foram obrigados a assistirem a tortura e mutilação dos culpados da varanda do castelo de Amboise. Catarina e os irmãos Guise, também olharam impassíveis, mas Maria tinha horror a violência, assim como o rei e tiveram de deixar o local. Francis estranhamente, ordenou que se afastassem, para deixarem o rei e a rainha passar.

Catarina de Médici.
Catarina de Médici.

Então, em Junho de 1560, James Hepburn Conde de Bothwell, o homem que mais tarde tornaria-se o terceiro marido de Maria, trouxe à ela as tristes notícias da morte de sua amada mãe na Escócia, devido a uma doença. Maria ficou arrasada, enquanto isso, a saúde de seu marido continuava a deteriorar-se. Francis não lidava bem com o ódio de seu povo e apoiou-se ainda mais e  Maria. Ele desenvolveu um abscesso na orelha que piorava constantemente. Quando a corte preparava-se para sair de Orléans para Chenonceau, Francis caiu do cavalo e teve de ser novamente colocado na cama. Maria então, trouxe Ambroise Paré, um huguenote com a fama de ser o melhor cirurgião na França. Paré disse à Maria, que o abscesso era um tumor, que atingiria o cérebro do rei se fosse removido. Mas Catarina de Médici, motivada sem dúvidas, por suas próprias aspirações e de Charles, atrasou a operação até que fosse tarde demais. Francis morreu no dia 05 de dezembro de 1560. Com a perda de seu marido, Maria também perdeu seu status de rainha da França. Ela retirou-se então, para os costumeiros 40 dias de luto em um quarto escuro. Charles tornou-se o novo rei e Catarina, tirou os irmãos Guise de suas posições. Porém, eles não eram o tipo que desistiriam sem lutar. Para eles, havia apenas uma solução: Maria deveria casar-se com o novo rei e produzir um herdeiro. Como uma alternativa, eles sugeriram o enteado de sua cunhada, o deformado e mentalmente incapacitado, Don Carlos da Espanha. Maria encolheu diante das perspectivas.

Elizabeth de Valois.
Elizabeth de Valois.

Maria recebeu mais algumas visitas. Uma delas, foi de seu primo, Henry Stuart, Lord Darnley, que tornaria-se seu segundo marido, mandado por sua ambiciosa mãe, para oferecer suas condolências; porém, mais provavelmente como uma intenção que conhecesse a jovem viúva. Em Fontainebleau, Maria foi procurada pelo embaixador inglês, Sir Nicholas Throckmorton, que exigiu a ratificação do tratado de Edimburgo. Maria, continuando a acreditar na crença que havia sido instilada por seus tios e sogro, recusou-se a ratificar o tratado. Elizabeth I nunca perdoou tal insolência. Maria então, seguiu rumo a Abadia de St-Pierre-Les-Dames em Reims, onde sua tia, Renée de Guise, presidia como abadessa. No caminho, ela encontrou seu meio-irmão James Stuart, que pressionou-a a voltar para Escócia, explicando para ela, o conflito entre os católicos e protestantes. Neste meio tempo, Catarina havia conseguido fazer com que os planos de casamento dos Guise, falhassem. Ela não permitiria que Maria se casasse com Charles e ofereceu a Filipe da Espanha, a mão de sua filha Margaret, para seu filho D. Carlos. Filipe viu a aliança como muito mais favorável para ele e aceitou. Presa nas sombras da vingança de sua sogra, pouco havia sido deixado para Maria, exceto preparar-se para voltar para Escócia e governar seu reino. Ela atrasou sua partida o tanto quanto pode, mas finalmente fez com que Bothwell agisse como almirante de sua frota. Com o coração partido e cheio de medo, ela chegou no porto de Calais em 14 de Agosto de 1561. Catarina de Medici havia ganho.

Continua…

FONTES:
Marie Stuart: AQUI.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Dinne disse:

    Excelente! Infelizmente os seriados não podem
    Seguir com tanta veracidade.. Seria interessante um post sobre os seriados, comparando o que é real ou não. Obg

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