O Amargo Sussurro da Tempestade Silenciosa

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Eu não tinha marido, mal tinha um namorado de uma família “classuda”, nós nos gostávamos, estavámos encantados um pelo outro, mas nos disseram que não podíamos ficar juntos. Peitamos quem nos impedia, não deu certo, tivemos que terminar.

Foi frustrante, me fechei. Vi minha irmã se envolver com diversos homens, enquanto era chamada de vadia (da mesma forma que eu via diversos homens tendo o mesmo comportamento que ela, mas a eles, erguiam as taças em louvor pelo seu comportamento de machos alfas). Decidi: não queria fazer parte daquilo. Me fechei. Estudei, li quantos livros eu pude, passei o tempo a me aproveitar, a descobrir a minha força interna. Uma vez saí com a ilusão do amor despedaçada em minhas mãos. Prometi: isso não acontecerá novamente, vou carregar meu destino, minha vida, nas minhas próprias mãos (ou o quanto a sociedade permitir que eu assim o faça).

Foi então que aquele homem começou a me procurar. Conheci ele em um evento social, estávamos dançando, eu sempre gostei de dançar, ele se encantou comigo. Alto, corpulento, ruivo, régio. Praticamente meu oposto, sou morena, quase que exótica, sempre me chamaram assim. Tenho grandes olhos negros que, convenhamos, sei usar muito bem, quando me interessa. Acontece que esse homem, de inicio não me interessou. Isso não o impediu de me perseguir, ficar a minha volta, me mandar cartas e juras de amor. Minha irmã o conhecia, ele foi um dos homens que ela se aventurou, e ela foi uma das várias que ele se aventurou ( adivinhe quem foi julgada por isso?) Ele sabia que ela era minha irmã. Vai ver, pensou que eu cederia a ele, tão instantaneamente quanto ela. Ledo engano, eu não sou assim. Não a julgo, mas eu gosto das coisas mais devagar, me machuquei antes, não quero me machucar de novo.

Tempos passaram, ele tanto me quis, que me cansei, mas decidi que eu iria fazê-lo me querer ainda mais, esse é aquele jogo de sedução no qual eu uso meus belos e grandes olhos negros que mencionei anteriormente. Mais do que ter a presa, tê-lo pensando em mim, vivendo por mim é mais excitante. Ah, ele é casado há tempos, a esposa é uma mulher mais velha que ele, de quem ele outrora gostara muito, mas o relacionamento se desgastou, além disso, ele sempre quis ter um filho homem, mas que a esposa já estava velha e sofreu vários abortos que a impediram de engravidar novamente. Ele tem uma filha, diz que a menina é a pérola de seu mundo. Quem sabe posso ser eu a mãe do filho que ele tanto quer?

Ele me promete o mundo, diz que serei sua rainha, a rainha da vida de sua vida. Me bajula, dá lindos presentes, joias, roupas. Deixa a velha esposa em casa e me leva para sair no lugar dela, até para França ele me levou! Imagino o quão difícil seja pra ela saber disso, mas ele continua fazendo, e eu também. Sinto que aquele meu jogo de sedução, lá do início, está se tornando algo mais. Não consigo pensar na vergonha, na dor que ela sente. Só penso em estar ao lado dele, viver com ele, ser sua rainha, dar o filho que ele tanto deseja. E desejo acima de tudo, que ele nunca me trate como está tratando ela.

Estamos juntos a anos e eu espero, paciente, que ele largue a esposa. Já não sinto dó, ela me irrita. Ela não cede, não quer se separar. É católica fervorosa, assim como ele. Pouco importa, eu também sou, apesar de discordar de várias coisas…Será que ela não entende que ele me deseja, que sou eu quem ele quer? Ele vive me dizendo que sou a rainha dele, porque ainda não arrancou a “coroa” dela então? Fica esperando que ela entenda, que ela aceite. Quem já não aguenta mais sou eu. Tudo que começou em uma perseguição da parte dele, se tornou meu jogo, e hoje o meu sentimento. Sou a rainha dele, a coroa me pertence.

Reclamei tanto, me impus, disse que eu estava perdendo meu tempo com ele. Anos se passaram e ele não largava a esposa. Minha pressão foi boa e forte, ele a abandonou e entrou com o pedido de divórcio. Disse que agora se converteu, não é mais católico romano, segue a igreja da Inglaterra, mas sua rainha sou eu. Quando casamos, eu estava grávida e ele muito contente. Já sentia saudades da filha que fora morar longe. Eu a convidei para ficar aqui conosco de vez em quando, mas ela nega. É teimosa como a mãe e não me aceita. Eu não me importo, pois darei a ela um irmão, o irmão que a mãe dela não conseguiu dar. E o meu MARIDO, me disse que a filha dele adora crianças, então, com o tempo ela vai aceitar, ela vai entender que agora, a esposa do pai dela sou eu.

Ela Nasceu. Cometi o mesmo erro da outra, ele queria tanto um menino, já tínhamos tudo arranjado, mas nasceu uma doce menina, com os cabelos do pai. Eu percebi nos olhos dele, que foi uma frustração. Ele fingiu que gostou, deu um beijo em minha testa e saiu. Eu senti naquele momento, eu percebi a tempestade abaixo de meus pés. Eu olhava para ela e já a amava, tão pequena, tão frágil e tão parecida com ele, mas com os meus olhos.

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Os amigos dele não gostavam de mim, falavam mal de mim pelas costas, eu sabia mas não me importei, eles comemoraram que eu frustrei meu marido, mas dessa vez iriam engolir o riso, porque eu estava grávida de novo…

…E perdi! Vai ver o estresse, as dúvidas, a pressão, os olhares maldosos, o azar, não sei porque, mas perdi nosso filho. Ele nem querido comigo foi, nem ficou em casa, saiu. Pra onde? Não tenho ideia. Sinto novamente a tempestade debaixo de meus pés. Abortei um filho. Estou perdendo o marido, fico só eu e minha filha. Será que estou pagando por aqueles anos dourados de amante?

Eu tinha tudo, seu amor, devoção, ele fez de mim sua rainha, a rainha da sua vida! E hoje ele sai, não me diz onde vai, me destrata. Diz que é assim e eu que aguente como outras melhores que eu aguentaram! COMO PODE? Eu dei meus melhores anos a ele! Eu cedi a sua perseguição! Talvez eu não devesse…talvez tenha sido um erro…Eu aguentei calada por muito tempo enquanto ele ainda estava com a esposa, até que não aguentei mais! Talvez eu não devesse…talvez tenha sido um erro…Eu aguentei os olhares reprovadores dos amigos dele, os desaforos de sua filha. Até minha família me vira as costas, meu tio diz que sou louca, que devo deixa-lo ser homem e não incomodá-lo. COMO PODE? Meu irmão é o único que me apoia. Meu marido saí, some e meu irmão entra, fica comigo, me faz companhia, me acalma.

Ela morreu, a velha. Sinto confusões de sentimentos. Vi meu marido pegar nossa filha e levantá-la, orgulhoso. Eu ri, fiquei feliz, pois depois de tanto tempo, senti um brilho e alegria em seus olhos. Estou grávida novamente, agora tenho certeza que nosso filho virá. Ele decidiu que não vai ao enterro, mas que vai sair para ver alguns amigos. Escolhe a melhor e mais vibrante roupa que tem, uma amarela, se perfuma e sai. Ele fez isso a semana inteira. Nem foi ver a filha mais velha. Nem uma flor no tumulo da ex. Só o amarelo de suas roupas e suas saídas estranhas…desconfio.

Não me aguentei. Deixei minha filha com meu irmão e fui atrás dele, quero saber, sinto a dúvida pairando em minha cabeça. Sinto minha barriga de 4 meses, começando a pesar. Preciso aproveitar que ainda consigo me deslocar para saber onde ele está e…com quem…

A tempestade passa sobre mim, sem som, apenas sinto sua destruição sob tudo o que encontra, ela é veloz, fatal. Ele e outra moça, loira, mais jovem. Não é tão bela, eu penso…mas eu também nunca fui tão bela, eu era exótica. Ela é jovem, loira, olhos claros, média. Está em seu colo. Ele olha para ela encantado, como um dia me olhou. Me vi como sua velha e abandonada ex, aquela que eu pressionei para que ele largasse e ficasse comigo. Será que essa meretriz faz o mesmo? O que será que ela fala em seu ouvido? O que eu não queria para mim está acontecendo…

Perdi tudo, a começar pelo meu filho. Sinto o embrulho do estômago tão latente, tão forte que acho que não vou aguentar. Ele está aqui, me agride verbalmente, me chama de vadia, é assim que os amigos dele me chamam e agora, ele concorda. Diz que eu só posso tê-lo enfeitiçado, dúvida que nossa menina seja dele. Diz que eu abortei tanto porque nosso casamento foi um erro. Deus castigou. Disse que falam que meu irmão vem demais aqui, quando ele não está. Me acusa de algo tão grave e tão perverso. Diz que os amigos dele, já me viram com outros. Que mentira absurda! Eles nunca gostaram de mim. Eu o acuso, digo que se perdi meus filhos, foi por culpa dele, que me agrediu verbalmente, emocionalmente, me humilhou! No inicio me perseguiu, eu cedi. Depois me prometeu o mundo, me fez sua, para que? Para depois me destratar? Me humilhar? Me maltratar? ISSO NUNCA FOI AMOR! Amor não é isso. Eu achei que fosse. Eu achei que ele tivesse feito tudo isso por me amar, mas não. Quem ama não persegue até que o outro ceda. Quem ama não vende sonhos falsos e promessas ao vento, quem ama não agride, não humilha, não maltrata. Minha irmã dizia que eu era o amor da vida dele. “ Olhe tudo que ele fez por ti!” Agora eu vejo, tudo que ele fez é diferente de tudo que hoje ele faz. Não fui o amor de sua vida. Eu grito, o xingo, ele furioso, saí…

Me levanto e vejo um lugar escuro, parece uma torre, não sei dizer, existe uma janela quase não entra luz, dá para um lugar fechado. Por ela eu vejo as cabeças e os corpos desfalecidos, meu irmão e dois amigos meus, que eu mantinha contato. Acho que vou desmaiar…

Aquele homem diz que está ali cumprindo ordens, pede perdão. Eu sequer preciso que ele me diga quem foi. Eu sei quem foi. Foi o homem que um dia disse que jamais deixaria de me amar, o homem que me perseguiu até que eu cedesse, me prometeu amor eterno, me fez sua “rainha”, para depois me tratar como lixo. Só rezo por minha filha, para que ela entenda que eu a amei e que ela preste atenção no modo como os homens podem tratar uma mulher, para que ela não seja tratada assim. Vou ser assassinada pelo homem que um dia amei e que um dia jurou me amar?! Que doce amargo… Não, foi e ainda é a realidade de muitas mulheres, foi e ainda é a minha. Ó senhor, tenha piedade de minha alma!

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Violência doméstica, não confunda com amor, muitas morreram mas a tempestade não passa em vão! Escrito por Jéssica Rose – Tudor Brasil.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Estoy de acuerdo Jessica. Ya estoy cansada de que salgan articulos diciendo que fue amor. No lo fue. Fue abuso, Ana fue abusada por Enrique. Me da gusto que hayas escrito esto. Ya basta de poner al abuso domestico como algo romantico.

  2. Republicou isso em tudors & other historiese comentado:
    Por fin alguien lo dice. Hablo por muchas que hemos visto o sufrido de violencia domestica, que ya estamos hartas de ver como romantizan relaciones abusivas. En la siguiente pieza escrita por mi amiga Jessica, pone como Ana fue victima de abuso domestico y es un insult para ella y las victimas de abuso domestico, romantizar su historia.

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