Desvendando os Mitos sobre a Morte de Henrique VIII


Ninguém teria chamado Sir Anthony Denny de um homem corajoso, porém, na noite de 27 de janeiro de 1547, o Cavalheiro da Câmara Privada realizou um dever que até os mais resolutos recuariam: Ele informou a Henrique VIII que “No julgamento dos homens, você não deveria viver.”

Um Rei de 55 anos de idade, deitado sobre sua grande e suntuosa cama no Palácio de Whitehall, respondeu acreditar que “a misericórdia de Cristo, é capaz de perdoar-me todos os meus pecados, sim, apesar de serem maiores do que deveriam ser.” Quando perguntado se queria falar com algum ”homem sábio”, o Rei Henrique pediu pelo Arcebispo da Cantuária, Thomas Cranmer, “mas primeiro vou dormir um pouco. E então, conforme achar melhor, vou aconselhar-me sobre o assunto.”

Conforme a vontade do moribundo monarca, Cranmer foi enviado para o local, mas demorou horas para o arcebispo realizar seu caminho nas congeladas estradas inglesas. Pouco após a meia-noite, Henrique VIII estava quase inconsciente e incapaz de falar. O devoto Cranmer sempre insistiu que, quando pediu por um sinal da crença de seu monarca na misericórdia  de Cristo, Henrique Tudor apertou sua mão.

Por volta das 02:00 da manhã, Henrique VIII morreu, provavelmente de insuficiência renal e do fígado, juntamente com diabetes e obesidade extrema. Fora um subjugado final a uma vida desregrada. As fontes para o que ocorreu naquela noite, são bastante respeitadas, embora secundárias, vindas muito depois do evento em: Gilbert Burnet – A História da Reforma da Igreja da Inglaterra (1679) e John Foxe em Atos e Monumentos (1563).

No entanto, existem outras histórias contadas sobre a morte e funeral de Henrique VIII. Ele talvez, tenha sido um dos monarcas mais famosos da história européia e inglesa e por isto, não é surpresa que em livros e na internet, alguns registros estranhos, sentimentais ou atos macabros, tenham sido atrelados a seu falecimento.

Neste artigo, vamos desmascará-los um a um!

Mito: ”Monges, monges, monges!”
Henrique VIII rompeu com Roma e tornou-se o chefe da Igreja da Inglaterra, dissolvendo os monastérios. Os monges e freiras fieis ao Papa, perderam suas casas e foram jogados ao relento. Aqueles que desafiaram o rei, negando sua supremacia Real, como os mártires e cartuxos, foram torturados e mortos.

Será que Henrique arrependera-se no final? ”Ele morreu logo após supostamente proferir as seguintes últimas palavras: Monges! Monges! Monges!”, bom, pelo menos é o que todos dizem; É uma história que tem aparecido na Wikipédia e também em alguns livros. A principal fonte para isto, parece vir de Agnes Strickland, uma poeta do século XIX, que tornou-se historiadora e escreveu em oito volumes, ”As vidas das Rainhas da Inglaterra, desde a conquista Normanda”, e ”A vida das Rainhas escocesas e Princesas inglesas”. Strickland escreveu: O Rei foi atingido com horrores visionários na hora de sua partida; para isto ele revirou os olhos com olhar de natureza selvagem em direção aos mais sombrios recessos de sua câmara, murmurando: ‘‘Monges, monges!”.

A ideia de que Henrique em seu leito de morte, teria olhado para os sombrios cantos de seu quarto e avistado monges vingadores – devemos levar em consideração – foi mais uma tentativa de Strickland em resgatar alguma justiça poética do momento. Ou seja: Isso não ocorreu. O mais provável é que, em sua hora final, Henrique nada tenha lamentado.

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Strickland

Mito: Ele chorou por Jane Seymour:
Outra história bastante comentada é que, enquanto agonizava, Henrique VIII chorou por sua esposa há tantos anos morta, Jane Seymour. Isto suporta a ideia de que a pálida Jane, dama de companhia que substituiu Ana Bolena, fora o amor da vida do monarca. Ele afinal de contas, pediu que ela fosse enterrada a seu lado. E quando um retrato de família fora encomendado em 1545, anos após sua morte, foi Jane quem apareceu sentada a seu lado, ao invés de Catarina Parr, então consorte do monarca inglês. Porém, Henrique não chega a merecer sua reputação de ‘impossível de agradar’ quando trata-se de mulheres. Ele realmente tinha pouca tendência ao sucesso conjugal, porém, vamos esclarecer o fato, no momento em que Jane fora a única consorte que produziu o herdeiro varão, Eduardo, e morrera logo após o ocorrido, isto a elevou para o topo da hierarquia. Era assim que as coisas funcionavam.

Se ele realmente amou Jane mais que suas outras esposas (sem mencionar as amantes), é algo que apenas podemos conjeturar. Porém, uma coisa parece certa, Henrique pouco lastimou-se por sua terceira esposa. O monarca ficou bastante abatido e entristecido nos meses que sucederam sua morte, mas, ao contrário do que Hollywood ama supor, não existem fontes históricas que suportem um luto tão agressivo como geralmente é retratado.

Mito: “Os cães lamberam seu sangue”:
A história mais macabra de todas, supostamente ocorreu após algumas semanas da morte do Rei, porém, antes que ele fosse colocado em sua cripta ao lado de Jane Seymour, na Capela de St. George. No dia 14 de Fevereiro, o cadáver do rei fora transportado em um caixão de chumbo, de Whitehall para Windsor; a procissão de milhares de pessoas, durou dois dias. Havia uma grande efígie funeral em cima do caixão, completa, com a coroa em uma extremidade e os sapatos de veludo carmesim em outra. Segundo um cronista temerosamente disse: foi tão realista que “parecia exatamente como se estivesse vivo.”

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Burnet


Na metade do caminho, o caixão fora alojado na Abadia de Syon, antigamente uma das casas religiosas mais prestigiadas da Inglaterra. Isto é fato. No entanto, o resto é suspeito. Por causa de um acidente, ou apenas pelo inquestionável peso do caixão do monarca – Henrique VIII pesava por volta de 137 kg em sua morte – supostamente houve um vazamento de sangue ou material pútrido no chão, durante a noite. Quando os homens chegaram de manhã, um cão de rua pôde ser visto lambendo a secreção emanada pelo caixão. Pelo menos é o que conta a lenda.

Isto remete-nos a um inesquecível sermão no domingo de Páscoa de 1532, do rei, com sua quase segunda esposa, Ana Bolena. O Frei William Peto, provincial dos franciscanos e ardente defensor da primeira consorte de Henrique, Catarina de Aragão, comparou Henrique VIII ao Rei Ahab, marido de Jezebel. Segundo as Escrituras, após a morte de Ahab, cães selvagens lamberam seu sangue. Peto trovejou que a mesma coisa ocorreria com o rei Inglês.

Gilbert Burnet é a principal fonte para a história do caixão vazando. Um teólogo escocês e bispo de Salisbury, ele atualmente é considerado confiável, exceto pelo fato dele não ser. Um historiador, enquanto tratava o livro de Burnet como parte de ”um período em nossa literatura histórica” afirmou que, “uma grande dose de erros foi encontrada e sem dúvida, justamente pela imprecisão geral das transcrições em que seu trabalho fora em grande parte fundamentado, deram origem ao que sucedeu-se a erros sem fim.” Uma das mais conhecidas contribuições de Burnet para sobre o período Tudor, foi a descrição de um decepcionado Henrique VIII ao descrever sua quarta esposa, Ana de Cleves, como uma “Égua de Flanders”. A autora Antonia Fraser, em particular, aponta severamente em seu livro ”As Seis Mulheres de Henrique VIII”, que Burnet não possuía “nenhuma referência contemporânea para apoiar tal fato” (falamos mais sobre o assunto: aqui).

O que parece inegável, é que Agnes Strickland apropriou-se da fundação de mitos que Burnet criou. Na verdade, ela erigiu uma mansão gótica inteira de mitos, em sua própria descrição desta noite em Syon: “O Rei foi levado para Windsor para ser enterrado, ficou toda a noite entre as paredes quebradas de Syon, e o caixão de chumbo não fundido, pela agitação da carruagem, molhou o pavimento com o sangue de Henrique. Na parte da manhã, um soldador veio arrumar o caixão, sob cujo a base – ”eu tremo enquanto escrevo isto”, diz a autora – ”de repente, um cachorro fora visto rastejando e lambendo o sangue do Rei. Se você perguntar-me como eu sei disto, eu respondo, William Greville, que mal conseguia afastar o cão, me disse e assim o fez o soldador”.

“Parece certo que os sonolentos enlutados e coralistas, haviam retirado-se para descansar após as orações da meia-noite terem sido entoadas, deixando o rei morto para defender-se da melhor maneira que pôde, dos ataques de seus inimigos fantasmagóricos, e algumas pessoas podem pensar que estes fizeram suas abordagens de forma rabugenta. Porém, não é de admirar que tão terrível circunstância, devesse ter instigado sentimentos de supersticioso horror, especialmente em tal tempo e lugar; para este profanado convento, que havia sido a prisão de sua infeliz Rainha, Katherine Howard, cujo trágico destino, estava fresco na mente dos homens; e por uma singular coincidência, aconteceu que o cadáver de Henrique descansou lá no mesmo dia, após o quinto aniversário de sua execução. “

Deixando de lado a prosa a estilo Bram Stoker de Strickland, há a questão de saber se uma coisa tão medonha poderia mesmo ocorrer. O embalsamamento do século XVI, não conseguia drenar completamente os fluídos de um cadáver, isto é verdade. E os médicos e especialistas afirmam que é possível que os fluidos soltem-se do cadáver até 17 dias após sua morte.

Mas as fervorosas conexões de Strickland, não apenas para o sermão de Frei Peto, como também para o passado do mosteiro de Syon – ecoando a máxima “Monges, monges, monges”- com a merecida justiça poética no quase aniversário de morte de Catarina Howard, faz com que pareça bastante provável que este era apenas mais um caso de ‘uma história boa demais para se resistir’.

Ninguém perturbou o caixão do indomável Rei Henrique VIII, nem mesmo os rabugentos fantasmas!

janetomb

FONTES:
Artigo escrito por Nancy Bilyeau: AQUI.

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