Elizabeth I – Parte XVI: Depressão, Morte e Funeral

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Para muitos, a Rainha Elizabeth ou Gloriana, parecia ser imortal; mas na realidade, seus anos dourados haviam há muito, escapado de suas mãos. A deusa expulsa do Olimpo, a Gloriana imortal, agora estava começando a mostrar os duros sinais que o tempo fizera questão de lhe entregar, a real fragilidade humana. A vida como monarca podia ter seus méritos, mas muitas vezes, era um fardo pesado demais para carregar. Elizabeth estava cansada, física e mentalmente. Ela mesma chegou a dizer: –

“Ser um Rei e usar uma coroa, é algo mais glorioso para aqueles que vêem, do que agradável para os que tem de suportar…”

oldlizElizabeth sempre soube que a popularidade era um fenômeno caro e inconstante, e embora nada dissesse, ela sabia que a seu redor, todos preparavam-se para o eminente fim de seu reinado. Sua face lisa e jovem, existia naquele momento, apenas em retratos meticulosamente encomendados por ela, onde o tempo através dos pincéis de seus pintores, parecia ser mais gentil. A verdade é que ela estava velha e era apenas uma sombra do que fora outrora. A idade e seu peso, chegaram devastadores para a Rainha. Ao visitar a casa de um cortesão, ela precisava usar uma bengala para subir as escadas; e durante a abertura do parlamento, ela quase caíra sob o peso de suas vestes. Ela sabia muito bem, que uma Rainha com idade avançada, não poderia por muito tempo comandar o coração dos mais jovens – que muito ansiavam pelo nascer do sol de um novo mundo. Dentre tantos outros problemas, a Rainha não era mais o botão de rosa Tudor de seu passado. Seus cabelos ruivos perderam o fogo, sua alegria virou paranóia e sua paz virou conflito interno.

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Na primavera do ano de 1603, Elizabeth já havia reinado por 44 anos. A Rainha havia passado por inúmeras provações, como questões de legitimidade, prisões, mandatos de execuções, traições, coração partido, rebeliões, armadas e etc. Uma coisa estava clara, a Rainha com coração de leão, morreria sem um herdeiro legítimo. Robert Devereux havia sido executado apenas dois anos antes, causando um enorme impacto na já frágil e entristecida Elizabeth. Aos poucos, ela estava perdendo o controle nos assuntos de estado, ficando longos períodos sem dormir ou comer e sempre pensando no tempo que havia passado e não mais voltaria. Muitos de seus amigos, servos e parentes haviam morrido, ela sentia-se sozinha e não mais reconhecia aquela sua Corte, agora envolta de rostos novos. Seus médicos detectavam algum tipo de instabilidade mental, beirando a bipolaridade, sem um diagnóstico claro. Elas às vezes sentava-se no chão das salas às escuras, chorando por horas.

O Princípio do Fim:

lala1 copyA Rainha buscava consolo às suas lembranças em locais do passado, e passou a residir em um de seus Palácios favoritos – Richmond, perto do Rio Tâmisa. Até o final do inverno de 1603, Elizabeth estava sentindo-se mal. Ela havia pego um resfriado após uma de suas muitas caminhadas ao ar livre e queixou-se de uma dor de garganta; seguida de dores e mais dores. A partir daí, ficou em pé, prostrada dentro do complexo de seus apartamentos privados e ninguém conseguia convencê-la a ir para o conforto de sua cama. Músicos foram chamados para tocar músicas suaves e acalmarem os nervos da Rainha. “Eu não estou bem” – declarou ela, mas recusou-se ser analisada por seus médicos. Suas damas de companhia, passaram a espalhar confortáveis almofadas ao seu redor, para que ela mudasse de ideia e se sentasse, ou que se por acaso caísse, pudesse ter onde apoiar-se. Seus contemporâneos acreditavam que ela teria recuperado-se desta doença, caso houvesse lutado contra ela, mas ela não mais queria. Estava velha, sozinha e cansada de lutar. Estava pronta para embarcar rumo ao mundo onde todos aqueles que havia amado, partiram antes dela. Como sua condição deteriorou-se, o Arcebispo Whitgift (seu favorito de todos seus arcebispos de Canterbury) foi chamado para seu lado, e Elizabeth agarrou firmemente sua mão. Quando ele falou à ela que ficaria melhor, ela nada respondeu, mas quando ele lhe falou sobre as alegrias do céu, ela apertou sua mão com satisfação. Nesta época de extrema fraqueza, ela foi além do discurso e muitas vezes comunicava-se apenas gesticulando. Era claro para todos aqueles ao redor, que a grande rainha estava morrendo.

lala2 copyEstava ficando tarde e aqueles que até então permaneciam em vigilância ao redor da Rainha, a deixaram sob os cuidados de suas damas de companhia. Elizabeth não havia até então nomeado um sucessor, mas por fim, ela gesticulou com as mãos para Robert Cecil, como que desenhando um círculo invisível em torno de sua cabeça – fazendo referência a uma coroa – no momento em que ele citou o nome de James VI; este gesto, confirmara por fim seu desejo. A rainha então, desabou sobre suas almofadas, como em um profundo sono de morte, no dia 24 de março de 1603 (era uma quinta-feira, assim como no dia da morte de seu pai e irmã). O cronista John Manningham, informou que sua partida fora fácil e rápida:

“Esta manhã, por volta das três horas, Sua majestade partiu desta vida, suavemente como um cordeiro e facilmente como uma maçã madura caindo de uma árvore…Dr Parry disse-me que estava presente e enviou suas orações para sua alma; e eu não duvido, que ela está entre os santos do céu, em reais alegrias eternas. “

Sua dama de companhia Lady Scrope, tirou de seu dedo o anel de safira que a rainha usara. Ela jogou-o da janela para seu irmão, Sir Robert Carey e ordenou que ele o entregasse para o novo Rei da Inglaterra, James VI da Escócia. Mais tarde, este anel foi entregue a James, como um sinal da morte da rainha; ele agora seria James I da Inglaterra.

O dia de sua morte, era véspera da Anunciação da Virgem Maria, talvez um dia simbólico para o falecimento da Rainha Virgem. O calendário elizabetano, era diferente do nosso. Seus dias eram baseados no Calendário Juliano, onde o ano novo tinha início no dia 25 de Março. O último dia do ano de 1602 para os Tudors, também havia sido o último ano de regência de um monarca desta Dinastia. Com o novo ano, um novo sol nascera; um Rei escocês agora era o Rei da Inglaterra e consigo trouxe a Dinastia Stuart.

Anúncio e Funeral:
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Foi com muita tristeza que a morte da rainha foi anunciada nas ruas de Londres. Testemunhas descreveram que houve um estranho silêncio entre uma atordoada multidão. Por quase 45 anos, Elizabeth havia reinado na Inglaterra, muitas pessoas que lá nasceram, não haviam conhecido outro monarca reinante inglês.

Elizabeth tinha pavor de autópsias e deste modo, assim como desejou, nenhuma fora realizada em seu corpo. Seu corpo foi apenas embalsamado e colocado em um pesado caixão de chumbo. Ele foi levado durante a noite por uma barcaça com tochas ao longo do Tâmisa, rumo ao Palácio de Whitehall, permanecendo por lá, até ser levado para Westminster Hall. O corpo da outrora rainha inglesa, teria de ficar no local até que o novo Rei James, viajasse para Londres e desse as ordens para seu funeral. Neste meio tempo, uma efígie em tamanho real da rainha trajando suas vestes cerimoniais, foi colocada em cima de seu caixão, para que muitos pudessem por uma última vez, ver a grande monarca inglesa.

fig5No dia 28 de Abril de 1603, um mês e quatro dias após a morte da Rainha; seu caixão foi levado de Whitehall, rumo à Abadia de Westminster. Ele foi colocado em uma carruagem fúnebre, seguida de um cortejo enlutado; todos trajavam negro. Ele foi liderado por seis cavaleiros. A Condessa de Northampton liderou as cerimônias como chefe enlutada, enquanto o Mestre de Cavalaria da Rainha, seguiu à cavalo. Sua carruagem foi coberta por tecido negro e seu caixão, por um rico tecido roxo (símbolo da realeza), seguido de sua efígie. O cronista John Stow escreveu:

“Westminster foi sobrecarregada com multidões de todos os tipos de pessoas em suas ruas, casas, janelas, telhados e calhas; que saíram para ver a Rainha. Quando eles viram sua efígie deitada em cima de seu caixão, houve um suspiro e choro geral, como não havia sido visto ou conhecido na memória do homem…”

9cf0f4bfd4b099ee7c8a88a70acfc449Mais de mil carpideiras oficiais, juntaram-se ao cortejo fúnebre e a multidão aumentou gradativamente de acordo com os londrinos, que resolviam se juntarem ao verem a procissão passar. As roupas de Elizabeth I, colocadas em sua efígie (assim como a própria efígie), encontram-se atualmente em exposição no museu da Abadia de Westminster.

Após as cerimônias, Elizabeth fora provisoriamente enterrada na vala de seu avô, Henrique VII (onde o mesmo estava com sua esposa, Elizabeth de York), até ser transferida para seu local final, três anos após sua morte.

30219Seu túmulo encontra-se na Capela de Nossa Senhora, dentro da Abadia de Westminster, onde ela divide espaço com sua meio-irmã paterna, Maria I. O funeral da Rainha, seguido de suas cerimônias e preparativos, custaram a James I, onze mil libras. O monarca também mandou confeccionar o famoso monumento em mármore branco, envolto de grades de ferro e granito (custando por volta de £1485), que pode ser visto até hoje por inúmeros visitantes da Abadia.

Elizabeth I, foi a última monarca sepultada na Abadia a ter um monumento erguido em cima de seus restos. Em seu monumento tumular, podemos ler uma bela frase sobre Elizabeth I e sua irmã e primeira Rainha britânica a ser coroada, Maria I:

“Consortes tanto no trono quanto no túmulo, aqui descansamos nós, duas irmãs, Elizabeth e Maria, na esperança de nossa ressurreição.”

Podemos ver também no chão, outra inscrição:

”Perto do túmulo de Maria e Elizabeth, lembre-se diante de Deus, todos aqueles que se dividiram na Reforma por diferentes convicções e entregaram suas vidas a Cristo e à causa de suas consciências.”

Causa Mortis:

Uma vez que não houve autópsia e exames médicos conclusivos no período, é difícil saber exatamente do que a última Rainha Tudor faleceu. Como adepta ao uso do Ceruse Veneziano, muitos acreditam que ela pode ter morrido por um gradual envenenamento por chumbo, que causa muitos efeitos colaterais, entre eles:

-Depressão,
-Alucinações,
-Queda de cabelos (é provável, que a volta do uso da famosa testa alta, tenha ocorrido por isto),
-Paralisia muscular,
-Corrosão cutânea (fazendo com que a quantidade usada, aumentasse cada vez mais),
-Apodrecimento dos dentes,
-Mal hálito,
-Inchaço ocular,
-Pele amarelada,
-Dores de cabeça e até a
-Morte.

Como ela usou tal maquiagem por anos e considerando o fato de que com o uso diário, era facilmente absorvida pelo corpo, esta é uma hipótese que até hoje não fora descartada. Entre outras possíveis hipóteses, a causa de sua morte é atribuída a extrema exaustão, seguida de falência múltipla dor órgãos; complicações por anemia, câncer, AVC, entre outros…

FONTES:
Para ler o registro de um enviado veneziano à Corte Tudor, sobre a morte de Elizabeth I: ACESSE.

Elizabeth I: AQUI.
Elizabethan Era: AQUI.
Elizabeth: The Struggle for the Throne; Starkey, David: AQUI.
Tudor Stuff: AQUI.
British Library (para mais imagens da procissão): AQUI.
Ceruse Veneziano: AQUI.

Veja também, um vídeo Tour do túmulo de Elizabeth I:

effigy

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2 comentários Adicione o seu

  1. Marcio Roberto disse:

    “Quando Elizabeth veio ao trono, a Inglaterra era um país insignificante. Quando ela morreu era uma grande potência europeia.Ela tinha começado seu reinado prometendo evitar os erros de sua irmã Mary e por muito, ela conseguiu.Elizabeth tinha fundado uma igreja nacional, e inspirou uma literatura nacional. Seu pai Henrique VIII tinha reinventado a ideia da Inglaterra, e Elizabeth tonou-se essa personificação viva. Poucos monarcas foram mais amados por seus súditos que ela,nenhum exerceu um poder maior sobre as gerações seguintes. O mito começou pouco depois de sua morte. quando o prefácio para o rei James a aclama como a brilhante estrela rainha do Ocidente. Elizabeth, uma memória famosa e uma estrela que ainda queima com esplendor”. Como bem disse o grande David Starkey ao fim daquela maravilhosa série de 4 episódios sobre a vida dessa rainha, que mesmo séculos depois vive no coração e na mente daqueles que a conheceram e passaram sua imagem até hoje!

    1. Tudor Brasil disse:

      Há muito senso comum nessa fala de Starkey; não sei nem por onde começar! No século XVI, a Inglaterra foi vista pelo resto da Europa (especialmente as potências católicas no continente), como sendo um reino menor – fundo de quintal – sem grande expressividade político-econômica. Foi apenas após o auge da expansão marítima inglesa (séculos XVIII e XIX), que a Inglaterra, há muito unificada pelo Ato de União, tornaria-se a potência além-mar que se estuda nas escolas. Elizabeth faleceu deixando a coroa quebrada e um reino marcado por rebeliões, pestes, e crescentes facções na corte. Ela não fundou nenhuma igreja nacional, no máximo estabilizou o status quo promovido no reinado de seu irmão, e sob moldes religiosos vistos como menos rígidos; Foi o pai de Elizabeth I, Henrique VIII, o responsável em ocasionar o cisma com Roma, que daria início aos primeiros moldes do que, séculos depois, seria conhecida como a igreja anglicana. O que Elizabeth I fez em seu reinado, foi estabelecer junto do parlamento inglês, em 1559, o ‘act of uniformity'(Ato de Uniformidade, em tradução literal), que reestruturava alguns moldes religiosos do reinado de seu irmão, Eduardo VI – como por exemplo, o uso do ‘book of common prayer”, que havia sido retirado de uso durante o reinado de Maria I. Acho falaciosa essa ideia de que Henrique ou Elizabeth reinventaram ou personificaram a Inglaterra; esta é uma leitura historiográfica, há muito defasada pelos historiadores modernos, que reavaliam aspectos econômicos, políticos e sociais acerca do cisma. Sobre o mencionado amor que os súditos tinham pela rainha, isso foi apenas no início de seu reinado, assim como ocorreu com Maria I. Do meio ao final de seu reinado, segundo classifica John Guy em seu livro ”Elizabeth, the Forgotten Years”, a popularidade da monarca caiu bastante, sendo a mesma, vista por muitos de seus súditos, como uma mulher na qual eles não se identificavam – muito disso se deve ao fato de que, segundo Guy, ela era uma rainha velha de um povo muito jovem, que não se identificava com suas políticas. Portanto, há de se tomar muito cuidado com visões romanceadas acerca da vida e trajetória dessa monarca. Outro cuidado (que Starkey não toma), é o de compreender propaganda política como sendo verdade absoluta; James enalteceu o reinado de Elizabeth como modo de propaganda política, por ele ter sido seu sucessor. Desclassificar o reinado de quem o colocou no trono, seria atentar contra sua própria reivindicação enquanto monarca inglês. No entanto, mesmo com isso em mente, James não chegou a conferir à Elizabeth, por exemplo, um túmulo mais suntuoso que o de sua mãe, na Lady Chapel de Henrique VII, na abadia de Westminster. Isso se deve ao fato de que, ele trabalhou em cima de dois moldes políticos acerca de sua reivindicação ao trono, um através de Elizabeth e outro através de Maria. Enaltecer Mary (sua mãe), seria também um modo de classificar que ele estaria ali por direito de linhagem, acima de tudo. O historiador David Starkey é por essência, ”ultra-monarquista”, tradicionalista, e com metodologia considerada defasada por muitos na academia inglesa (uma vez que expõe fanatismos e juízo de valor de modo exacerbado em seus trabalhos). Atualmente, ele ganha dinheiro expondo todas essas considerações para um público mais leigo, que lê menos e tem mais acesso à televisão, através de documentários. O trabalho do historiador John Guy, atual professor da Universidade de Cambridge na Inglaterra, vem exatamente propondo um revisionismo, que busca trabalhar e analisar estas considerações pouco problematizadas sobre Elizabeth I, pautadas na historiografia tradicional inglesa – como é o caso dos trabalhos de Starkey.

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