Elizabeth I – Parte XVI: A Rebelião de Essex

Robert_Devereux,_2nd_Earl_of_EssexRobert Devereux, Conde de Essex, foi o típico Dom Juan à moda antiga. Sabia conquistar afetos, assim como possuía uma vívida veia para a conspiração. Em seus melhores dias, tornou-se um favorito de Elizabeth I, mas a velha Rainha, sempre cautelosa, nunca deixou-o em uma posição estável o suficiente; talvez por sua sábia vivência, sabia com louvor, diferenciar o joio do trigo. Quem pode saber?

Elizabeth I.
                      Elizabeth I.

Foi sugerido em romances posteriores e filmes, que Elizabeth apaixonou-se pelo bon vivant Essex; mas não há nenhuma análise histórica conclusiva que suporte tal teoria, sendo mais provável, que esta seja, mais uma das mil lendas apócrifas sobre seu reinado e vida amorosa. Dentro da Corte Elizabetana (como vimos neste artigo), existiam certos protocolos a serem praticados com a rainha. Seus cortesãos, deviam proferir cortesias dentro de um contexto inatingível, quase platônico; de alguém que a desejasse, mas que nunca poderia conquistá-la. Era de muitas maneiras, uma diversão frívola e homens casados, assim como os solteiros, participavam destas cordialidades para com a rainha. o objetivo não era ser cortês à nível pessoal ou iniciar um flerte com intuito de resultar em um relacionamento real ou o romance pessoal com a Rainha. Estrangeiros hostis, por muitas vezes, entendiam errado o intuito destas formalidades cordiais e foi graças a estes inocentes flertes mal compreendidos (ou deliberadamente deturpados), que muitos acreditavam que Elizabeth possuiu vários amores durante sua vida como Rainha. Ou seja, Elizabeth gostava de ser cortejada por Essex – assim como por seus outros cortesãos – mas isto nada mais era, que um protocolo real, não indicando nenhum tipo de afetividade maior entre ambos. Por fim, seja qual for a verdadeira face desta questão, sabemos que Elizabeth (principalmente à esta altura de sua vida), não costumava deixar seu coração governar sua razão.

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                         Robert Cecil.

O tempo das armadas e glórias passaram-se, e os anos finais do longo reinado de Elizabeth, estavam repletos de intrigas sobre quem seria seu possível sucessor, uma vez que ela não possuía herdeiros diretos. Por muitos e muitos anos, Elizabeth transformou possíveis negociações de casamento, em armas diplomáticas. Afinal, quem não queria desposar a Rainha da Inglaterra? Porém, os anos passaram-se, e quando tornou-se claro que a Rainha não mais poderia gerar herdeiros, estes planos (por sinal muito bem arquitetados), foram dando lugar à uma realidade mais cruel. Qual seria o próximo monarca inglês? Elizabeth esquivou-se o quanto pode desta dolorosa questão, sempre evitando falar sobre, ou deixando assuntos em aberto sobre quem seria seu possível herdeiro. Dentro da lei não restavam dúvidas, depois de Elizabeth, quem possuía a melhor reivindicação ao trono, era James VI da Escócia. James, filho de Maria Stuart, era o único sucessor legítimo legal, mas como sabemos, a legalidade às vezes era posta de lado, principalmente dentro de um contexto turbulento; que era o caso daquele período, na Inglaterra elizabetana.

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          Isabel de Espanha.

Foram sugeridos vários pretendentes ao trono, desde Arbella Stuart (bisneta de Margaret Tudor), até Isabel de Espanha, irmã do Rei espanhol, Felipe III. Com o clima de Reforma e Contra-Reforma ainda latente em solo inglês, haviam também, extremistas religiosos de ambos os lados católicos e protestantes, preparados para aceitarem, tanto um monarca católico que apoiasse os direitos anglicanos, como um governante católico que aceitasse os protestantes, e nada menos do que isto. A Inglaterra novamente, encontrava-se em um terreno frágil, pronta para a formação de conspirações e anti-conspirações em todos os cantos.

Dentro destas facções, dois dos líderes mais fortes foram, Robert Cecil, Lord Burghley, e Robert Devereux, Conde de Essex. Apesar de inimigos pessoais, ambos em última análise, suportariam James VI da Escócia como monarca inglês; embora pareça que mesmo com um ponto em comum, o objetivo primordial de cada um, significaria a ruína do outro.

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Hugh O’Neill, Conde de Tyrone.

A Campanha Irlandesa:
Em 1598, os ingleses estavam determinados à enviarem uma grande força contra Hugh O’Neill, Conde de Tyrone. Foi dada à Essex, a responsabilidade de levar e encarregar-se com a campanha contra Tyrone e para isto, lhe foi dado amplos poderes administrativos na Irlanda.

A campanha de Essex, foi um desastre marcado pela omissão e recusa em comprometer-se seriamente com seu inimigo. Quando finalmente Essex cedeu à pressão inglesa para marchar contra Tyrone, ele fez um acordo com o Conde irlandês, ao invés de lutar e rompeu com o compromisso inicial. Embora não saibamos ao certo à que termos os dois Condes chegaram, há uma forte suspeita de que ambos concordaram em apoiar a sucessão de James VI, dando também apoio à suas próprias reivindicações de poderes em seus países.

Mas Essex havia ido longe demais; ele recusou-se a seguir as ordens expressas que lhe foram dadas para lutar contra Tyrone. Elizabeth repreendeu-o severamente e neste fatídico ponto, Essex tomou uma decisão fatal. Sem pedir permissão para deixar a Irlanda, Essex abandonou seu posto, tomou um navio para a Inglaterra e partiu rumo à Greenwich, onde rompeu em uma crise de nervos contra a rainha e depois, arrependido, implorou por sua misericórdia.

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               Rompante de Essex.

Neste ponto, Elizabeth já estava furiosa com seu ex-favorito; ela nada iria ouvir sobre seu apelo e acabou banindo-o de sua presença. Neste mesmo dia, Essex foi mantido em prisão domiciliar. Ele ficaria preso durante mais de um ano, enquanto Cecil continuou com suas intrigas. Quando Essex finalmente fora libertado, ele percebeu que seu apoio, havia acabado.

A Rebelião de Essex:
Em uma última e desesperada tentativa de recuperar seu poder, ele concebeu um perigoso plano para capturar a Rainha e destruir Cecil. Essex reuniu-se com cerca de 300 apoiantes e tentou persuadir Lord Mountjoy, seu sucessor na Irlanda, à trazer suas tropas da Irlanda, rumo à Inglaterra para apoiá-lo. Porém, Essex não contava que o astuto Cecil estava ciente de seus planos, monitorando cada um de seus movimentos.

A Gota D’Água:
richardIIqEssex patrocinou uma performance da peça de Shakespeare, Ricardo II, no Globe Theatre, em Londres, no dia 7 de Fevereiro de 1601. À superfície, isto iria parecer um evento inócuo, indigno de menção. Mas na Inglaterra elizabetana, nada era o que parecia ser. Como sabemos, tal peça de Shakespeare, gira em torno da infeliz história de Ricardo; que perdeu seu trono ao dar ouvidos à seus conselheiros ruins. Naquele ponto, seria muito fácil traçar paralelos com a própria Elizabeth como a monarca infeliz, e lançar Cecil e sua facção, como os malignos conselheiros de Ricardo. Nestas circunstâncias, a trama poderia ser vista como uma simbólica ameaça à Rainha.

Elizabeth enviou quatro de seus conselheiros para a grande Londres, rumo à residência de Essex. Impetuoso até o fim, Essex trancou os conselheiros em sua biblioteca e foi para às ruas, na esperança de aumentar seu apoio até o prefeito de Londres. O Prefeito, Sir Thomas Smythe, colocou-o para e o crescente, esperado e espontâneo apoio da nata da plebe londrina, falhou em concretizar-se. Naquela altura, Essex percebeu que havia atingido um ponto sem volta.

O conde de Nottingham liderou uma força de homens até a casa de Essex e após uma curta batalha, forçou Essex a render-se. Essex foi levado a um conselho composto por pariatos, onde fora sumariamente julgado e considerado culpado de alta traição.

Marca de chocolates ilustra a execução de Essex.
Marca de chocolates ilustra a execução de Essex.

Naquele ponto, devido aos antigos favores reais que outrora havia alcançado, Essex acreditou que a já idosa Rainha Elizabeth, pudesse vir à seu socorro. Porém, a Rainha a idade também trouxera a Rainha, uma paciência curta; ela já estava farta de traições. Elizabeth deixou que a sentença fosse executada sem intervenção. Robert Devereux, foi executado em 25 de fevereiro de 1601.

A principal conseqüência da fracassada Rebelião de Essex, é que ela apenas serviu à um propósito; para que Cecil reinasse supremo na Corte inglesa, e sob sua direção, a sucessão de James VI da Escócia ao trono Inglês, foi assegurada quando Elizabeth morreu dois anos depois, em 1603.

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