Elizabeth I – Parte IX: Robert Dudley, o favorito da Rainha

Robert_Dudley_Leicester
citaçãoEmbora contemporâneos acreditassem que Robert Dudley havia nascido no mesmo dia e ano que a Rainha, é mais provável que ele tenha sido, pelo menos um ano mais velho. Cálculos recentes definiam seu aniversário, como sendo no dia 24 de junho 1532. Ele foi filho de John Dudley, Conde de Warwick, Duque de Northumberland e Protetor da Inglaterra, durante o reinado de Eduardo VI. Robert foi o quinto filho de treze, mas nem todos seus irmãos sobreviveram até a idade adulta e até mesmo aqueles que o fizeram, apenas Ambrose, Mary e Catherine sobreviveram até o reinado de Elizabeth I. Pouco sabe-se sobre Catarina, que tornou-se Condessa de Huntingdon, após casar-se com Henry Hastings, Conde de Huntingdon, mas talvez o interesse em Mary (dama de companhia de Elizabeth, que também contraiu varíola), seja devido ao fato de que ela foi mãe do famoso escritor, Sir Philip Sidney e padroeira literária de Mary Sidney Herbert, Condessa de Pembroke.

Robert conheceu Elizabeth quando tinha 8 anos de idade, talvez quando ambos foram pupilos em uma sala de aula Real. Eles tornaram-se bons amigos e sua amizade perpetuou-se por toda a vida. Robert era um rapaz inteligente, sem dúvida, um desafio intelectual para Elizabeth, mas possuía pouco interesse em estudos clássicos. Sua paixão mesmo quando jovem, foi a matemática, astronomia e astrologia. Ele também era um cavaleiro extremamente habilidoso e alimentou este dom, durante toda sua vida. Falando em suas relações de infância com Elizabeth, mais tarde na vida, ele disse que “ele a conhecia melhor do que ninguém, a partir de seus oito anos de idade.” Ele também acrescentou: “e desde aquela idade, ela sempre dissera que nunca iria casar-se.”

Amy Robsart exhibited 1877 by William Frederick Yeames 1835-1918
Amy Robsart encontrada morta.

Em 1550, Dudley desposou a jovem Amy Robsart, a filha de um escudeiro de Norfolk. Tradicionalmente, o casamento tem sido visto como uma união por amor, mas uma cláusula no contrato de casamento, sugere que ele pode ter ocorrido por motivos menos afetivos. Robert foi o quinto filho, portanto, qualquer casamento realizado para ele, seria vantajoso. Durante o período Tudor, era mais fácil casar as filhas, do que os filhos mais novos; já que muitas vezes, estes não eram herdeiros de terras e títulos de seus pais. A própria Amy foi uma herdeira, de modo que o casamento era ainda mais desejável neste quesito. O casamento foi celebrado com grande estilo e pompa, contando com a presença de Elizabeth e o próprio Rei menino, Eduardo VI.

Após a tentativa de seu pai em usurpar o trono para sua nora, Lady Jane Grey ter fracassado, Robert foi preso junto com seus irmãos na Torre de Londres. Ele foi mantido na Torre Beauchamp que ficava apenas alguns metros da Torre do Sino, onde a própria Elizabeth era prisioneira após a Rebelião de Thomas Wyatt. Reza a lenda, que eles viam-se tanto durante este período, que sua amizade tornou-se amor; mas é altamente improvável, considerando que ambos eram estritamente vigiados. John Dudley logo subiu ao cadafalso e Guildford foi executado assim como Lady Jane, um ano depois em 1554. O resto dos filhos de Dudley, foram poupados.

Após um ano em cárcere, eles foram liberados, logo depois sofreriam com a morte de sua mãe, Jane Dudley em 1555. John Dudley, o filho mais velho, morreu pouco depois, mas Henry e Robert juntaram-se às forças de Filipe II e foram lutar na França, onde Henry foi morto em batalha. Robert então voltou para a Inglaterra. Em algum momento durante o reinado de Maria, parece que ele vendeu algumas de suas terras para ajudar Elizabeth a sair da dificuldade financeira. Ele também estava passando sérias dificuldades financeira e Elizabeth, nunca esqueceu-se de seu sacrifício.

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Retrato de Elizabeth em suas vestes de coroação.

Com a adesão de Elizabeth ao trono, em 1558, sua sorte mudou. Ele foi feito mestre da cavalaria da Rainha, uma posição de prestígio, que exigia muita presença pessoal da Rainha, bem como a organização de suas aparições públicas, progressos e entretenimento pessoal. Tal posição, convinha-lhe perfeitamente. Ele não só foi um cavaleiro experiente, como também um grande atleta, que possuía tato para o espetáculo, compartilhando com a Rainha, o amor pelo drama e música. Era óbvio quase no início de seu reinado, que ele era seu favorito. No primeiro ano, ela havia esbanjado títulos, propriedades e dinheiro com ele, tendo passado a seu lado, mais tempo do que com qualquer outra pessoa. Línguas afiadas, passaram a falar sobre sua intimidade e dizia-se, que eles eram amantes e que Elizabeth havia tido um filho com ele. No entanto, embora tais histórias possam ser facilmente descartadas, é quase certo que nesta altura, estivessem de fato apaixonados. Talvez fosse inevitável. Eles conheciam-se desde muito jovens melhor que ninguém, haviam enfrentado muitos obstáculos no passado e talvez, o mais importante, respeitavam-se e confiavam um no outro. Eles sempre discutiam, mas Robert sempre a tratou com o devido respeito que sua posição exigia, embora ela permitisse a ele, que se comportasse e falasse de maneira que ninguém mais ousou.

Sua familiaridade e posição de favorito, significavam que ele sofreu de muitos bastante ódio e inveja, embora também se beneficiasse financeiramente pelos favores da Rainha. Em 1560, ele era o homem mais impopular na Inglaterra elizabetana e assim permaneceu até sua morte. Parecia que ninguém, exceto a rainha e sua família, tinham algo de bom para falar sobre ele. Não importa o que fizesse, ele nunca foi capaz de abalar a hostil opinião pública, algo que o assombrou pelo resto de sua vida. Sua memória, é revivida até hoje através dos traços de sua reputação. Elizabeth era conhecida por ser uma juíza justa de caráter, inteligente como era, é improvável que tenha sido capaz de afeiçoar-se por um pretensioso por tanto tempo. A maioria dos historiadores, permanecem unânimes no que diz respeito ao seu amor e afeição genuína à rainha, ao invés de um calculada manipulação. Se as circunstâncias houvessem caminhado de forma mais favorável, não é improvável que a rainha tivesse casado-se com Dudley. Particularmente, ela lhe disse que não casaria-se com mais ninguém.

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Miniatura de Robert Dudley por Hilliard.

Uma das principais e insuperáveis razões para eles nunca terem casado-se, foi a trágica morte da esposa de Dudley, Amy Robsart. A jovem, foi encontrada morta aos pés de uma escadaria com o pescoço quebrado. Muitos apontaram o trágico incidente a Robert. Durante muito tempo, as pessoas diziam que ele pretendia matá-la, pois sendo assim, ele estaria livre para desposar a Rainha. A dissolução de um casamento legalmente válido, era praticamente desconhecida na época dos Tudor e assim, o divórcio não era realmente uma opção para o casal. Certamente, algo assim teria feito com que a legitimidade dos filhos de Elizabeth e Dudley, fossem bastante duvidosas. Quaisquer que tenham sido os sentimentos pessoais de Robert com Amy, é extremamente improvável que ele tivesse alguma coisa a ver com sua morte. Amy tinha uma saúde frágil e debilitada e provavelmente, havia sido acometida com câncer de mama. Estudos médicos recentes, sugerem que uma mulher em tal condição, poderia sofrer uma fratura óssea espontânea e subir as longas escadarias de sua casa em Oxfordshire, pode ter sido o suficiente para causar uma fratura espontânea em sua coluna, que revelaria-se fatal.

Tais entendimentos, obviamente estavam além do conhecimento médico dos elizabetanos e todos, inclusive o próprio Robert, acreditavam que Amy havia sido assassinada. Se a rainha tivesse casado-se com o recém viúvo, as fofocas estenderiam-se ao seu nome, uma propaganda mais que negativa. Além disto, como Robert era odiado por seu monopólio de favor real, promovê-lo a príncipe consorte, poderia causar uma séria rebelião contra a Rainha. No entanto, por anos parece que ambos haviam nutrido a possibilidade de um casamento, Robert em particular, continuou a esperar por ela durante anos. Ele não casou-se novamente até 1578, quando parecia certo que a rainha não casaria-se com ele. Em 1575, durante os gloriosos entretenimentos no Castelo de Kenilworth, Warwickshire, Robert fez sua última proposta de casamento à rainha. Assim como no passado, ela recusou.

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Lettice (Knollys) Devereux, Condessa de Essex.

Em 1578, ele casou-se com a prima materna em segundo grau de Elizabeth, Lettice (Knollys) Devereux, Condessa de Essex. Ele pode muito bem ter apaixonado-se por ela (afinal era conhecida por ter sido uma mulher extremamente atraente e vivaz), mas provavelmente a pressionada final, foi o fato de ela estar grávida, pressão suficiente para uma família honrada no período. Diz a lenda, que Robert escondeu o casamento da rainha por um ano, mas recentemente este fato tem sido posto em causa. É mais provável que a rainha soubesse de seu casamento, assim que ele ocorrera. Teria sido muito difícil para ele esconder seu matrimonio, afinal ele possuía inúmeros inimigos, ansiosos para relatarem cada fato de um deslize seu para a rainha. Lettice abortou seu primeiro filho, mas em 1579/80 deu à luz um filho, que também chamou-se Robert. No entanto, a criança não era saudável e morreu em 1584, deixando Robert devastado. Ele idolatrava seu pequeno filho e com a sua morte, morreu o sonho de perpetuar sua linhagem. Ele tinha um outro filho, também chamado Robert, fruto de seu affair com Lady Douglas Sheffield, no início de 1570, porém ele era ilegítimo, sendo assim, não poderia herdar os títulos de seu pai.

Lady Sheffield mais tarde, afirmou que Robert havia casado-se com ela em uma cerimônia secreta, mas muitos acreditam que isso é uma crença popular e não há nenhuma evidência para apoiar tais reivindicações, sendo que Robert sempre negou. No século XVII, ela apresentou um processo judicial para tentar provar que tinha casado-se com ele, mas não foi bem sucedida. Talvez sua motivação, fosse seu desejo em garantir a seu filho, as propriedades de um Conde. O interessante, é que ela não trouxe este caso a tona, até a morte de Robert e da Rainha. Mesmo que o filho ilegítimo de Robert não pudesse herdar as propriedades do pai, Dudley foi para ele um bom pai, dando-lhe uma educação respeitável. Seu filho era muito talentoso e cresceu para ser uma figura bastante romântica, ao fugir das ilhas para a Europa, com uma dama de companhia da Rainha (após sua morte), apesar do mesmo ter uma esposa e cinco filhas…

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Filipe II de Espanha.

Em 1585, Robert foi nomeado comandante das forças inglesas na Holanda. Os Países Baixos foram revoltando-se contra o Estado de Filipe II e os ingleses estavam os ajudando em sua campanha. Robert ficou na Holanda até 1587, embora ele houvesse voltado durante a crise de Maria Rainha dos Escoceses em 1586/7, e esteve presente na Inglaterra, quando Maria foi executada. O envolvimento inglês na Holanda, não foi particularmente bem sucedido e quando Dudley retornou de forma permanente, ele recebeu uma série de críticas por sua ações por lá. Embora a própria Elizabeth não houvesse ficado satisfeita com o que Dudley havia feito, ela não ouviu uma palavra contra seus esforços na Europa.

Em 1588, quando os espanhóis enviaram suas frotas contra a Inglaterra, Robert foi colocado no comando do exército em terra e organizou a famosa visita de Elizabeth em Tilbury. No entanto, no momento ele não era um homem sadio, sofrendo de câncer no estômago, seus dias estavam contados. Após a derrota da Armada, ele viajou para Buxton para tentar usufruir de suas águas medicinais curativas, algo que ele não chegou a fazer. Ele morreu em sua casa em Oxfordshire no dia 4 de setembro de 1588. Elizabeth ficou arrasada com a perda de seu velho amigo e companheiro e supostamente, trancou-se em seus apartamentos por horas, se não dias. Ela guardava a carta que ele lhe enviara apenas alguns dias antes de sua morte e escreveu sobre ela os dizeres: “sua última carta”. Ela colocou-a em sua caixa de joias, local onde encontrava-se quando morreu, 15 anos depois. Leiam abaixo, a última carta de Robert Dudley:

”Eu humildemente rogo a Vossa Majestade, que perdoe seu pobre e velho servo, por ser ousado em enviar (esta carta) para saber como minha graciosa senhora está e em qual situação encontra-se, sendo a primeira coisa no mundo que faço é orar, para que ela tenha boa saúde e vida longa. Sobre meu próprio pobre caso, eu continuo sob seus medicamentos e acho que (eles) amenizam melhor do que qualquer outra coisa que me tem sido dada. Assim, na esperança de encontrar a cura perfeita em Bath, continuo minha habitual oração para a mais feliz preservação de vossa majestade, eu humildemente beijo seus pés. De seu velho alojamento em Rycote, esta manhã de quinta-feira, pronto para seguir minha própria jornada, pelo servo mais fiel e obediente de Vossa Majestade,
R. Leicester
Mesmo que eu tenha escrito tanto, eu recebi de Vossa Majestade o sinal da jovem Tracey.”

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Robert Dudley, filho ilegítimo de Dudley.

Poucos compartilharam de sua dor. Seus inimigos disseram que o júbilo da derrota da Armada, não era nada se comparado a alegria da notícia da morte de Robert. Foi dado a ele, um funeral digno de um nobre, sendo enterrado na Capela Beauchamp da Igreja de St Mary, em Warwick.

Os irmãos de Robert Dudley:
Tal como ocorre com tantas famílias deste período, muitas vezes é impossível determinar a idade e ordem de nascimento exata dos filhos. A lista abaixo, portanto, é apenas um esboço da possível ordem de nascimento dos muitos filhos de John e Jane Dudley. Apenas as crianças que sobreviveram à infância, são listadas:

Henry Dudley (morto em combate na França, em 1544)
John Dudley (morto por doença, em 1554)
Ambrose Dudley (falecida em 1590)
Robert Dudley (falecido em 1588)
Guildford Dudley (decapitado em 1554)
Mary Dudley (casou-se com Sir Henry Sidney, morreu em 1585)
Catherine Dudley (casada com Conde de Huntingdon)
Henry Dudley (morto na Batalha de St. Quintin, em 1557)
Temperance Dudley (mulher, morreu na infância)

Há também menção periódica em obras históricas de uma outra irmã chamada Jane, mas ainda há algum debate sobre sua existência. Pode ser possível que Lady Jane Grey, que tornou-se Jane Dudley em seu casamento com Guildford, tenha sido confundida com uma Dudley.

FONTES:
ElizabethI.org: AQUI.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Rayssa disse:

    Bom, o que dizer do meu casal histórico preferido?
    Eu acredito que eles tiveram um relacionamento bastante único: eles foram amigos, amantes, confidentes e estavam irremediavelmente em polos opostos. Durante os anos muitos obstáculos foram construídos para a completa união deles, e, embora fosse claro que eles eram unidos por alguma coisa pois não havia idas sem voltas. Segundo li uma vez, Elizabeth disse que somente se casaria com “seu irmão e melhor amigo, o conde de Leicester”, ora, irmão é uma parte de si mesma! Uma declaração de amor muito forte, ao meu ver, e que expandiu o significado do sentimento, pois meio que “negou” a primazia do amor Eros nesse relacionamento. Ah eu poderia escrever mais e mais e não expressaria muito mais do que já escrevi. Acho-os fascinantes! Fim.
    P.S: Sabe algum bom livro sobre eles?

    1. Tudor Brasil disse:

      Uma história triste de algo que deixou um gosto de quero mais né?
      Eles poderiam ter sido um casal incrível, mas ficou apenas no ”poderiam”…
      A vida de Elizabeth sem dúvida foi difícil, mas acho que uma de suas maiores frustrações, foi nunca ter conseguido estar ao lado de Dudley como sua esposa.
      Sobre seu pedido, existe um livro chamado: ”Elizabeth and Leicester, the Truth about the Virgin Queen and the Man She Loved.”, acho que pode ser interessante para você! 🙂

      1. Rayssa disse:

        Ah sim, já ouvi falar dele, vou procurar mais uma vez, obrigada 🙂
        Uma história triste de algo que deixou um gosto de quero mais né?[2]

  2. Junior Torres disse:

    Eis uma história: Dudley estava jogando tenis contra um outro colega e parte da corte assistia, a rainha Elizabeth estava tomando um suco pois era verão, Robert interrompeu o jogo foi até a rainha e tomou a taça das mãos da rainha para se refrescar. O chanceler William Cecil ao ver a cena tentou agredir Dudley pela falta de respeito e foi censurado pela rainha. Essa história chocou as cortes da Europa.

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