Contos Tudor: Entre Reis

kings

O que irá ler a seguir, é um conto escrito por um leitor da página Tudor Brasil, este conto é um romance e não tem compromisso com fatos reais:

I


– Vossa Majestade dizia…
Novamente a imagem o atormentava. Mais freqüentes e com maior riqueza nos detalhes. Era cada vez mais difícil distinguir qual o momento em que seu corpo estava presente. Ele não sabia se aquele homem que o chamava estava fora ou dentro de si.
– Majestade? Vossa Alteza sente-se bem? A voz insistia.
O som do embaixador espanhol parecia ser o sonho. Como poderia um representante enfadonho de país tão distante chamar-me de Majestade, usando um grande casaco de peles marrom de aparência tão bárbara? Mas os segundos passavam e o representante de Espanha voltava à normalidade que lhe cabia. Fugia da impressão de ser sonho e cedia à realidade. Seu casaco era, de fato, esplêndido. Conseguiu lembrar-se da esposa, a Rainha Catarina de Aragão, tão familiar ao seu raciocínio; a Espanha não era um reino distante, mas país aliado do qual dependia a Inglaterra.
– Peço-vos desculpas sinceras, nobre Chapuys. Solicito que retorne em cinco dias, pois necessito recompor-me. Sinto muito, mas estou indisposto e não dar-vos-ei a atenção merecida. Em cinco dias trataremos de seu Imperador de Espanha e dos assuntos de meu novo matrimônio. Com vossa licença.
Foi um alívio conseguir conversar com naturalidade e sentir novamente o ambiente e os personagens que estava acostumado. Há tempos que esses sonhos – ou como o rei preferia pensar, essas “invasões à sua realidade” – o acometiam; inicialmente vinham durante as noites, mas com o tempo as imagens eram sentidas em pleno dia. Sentira-os acompanhado de Ana Bolena, jogando xadrez com Charles, numa discussão acalorada com Catarina de Aragão e agora, como mais recente constrangimento, como que acometido por um raio, durante uma reunião há muito marcada com o embaixador Chapuys, de Espanha. A ninguém Henrique VIII havia confidenciado sobre tão inusitados desvios de percepção, pois pensava serem íntimos demais para compartilhar. No percurso do corredor que terminava em seu aposento, lembrou-se do rosto enfurecido do embaixador e da gravidade da situação com Catarina de Aragão. Decidiu que devia buscar algum tipo de conselho. Seu confidente deveria ser pessoa da mais alta confiança.
Thomas More era essa pessoa.
– Thomas, confesso que é difícil descrever. Asseguro que na maioria do tempo mantenho minhas faculdades mentais e não tenho nenhum problema físico. Essas intervenções em meu pensamento, ocorrem quando estou só e quando acompanhado, sempre surgem nos piores momentos. Imagine, durante a reunião com Chapuys, desprendi-me do lugar que estava e senti ser outra pessoa, em outro lugar! Enxerguei pessoas que não estavam na reunião. Por um momento impreciso, não vi mais o embaixador e vi somente o outro mundo. Chapuys tornara-se um estranho em minha mente. Thomas, confidencio isto apenas a você. O que acha desta doença, se é que posso chamá-la assim?
– Alteza, sua condição é incomum e deve ser mantida em segredo. Creio conhecer um pouco sobre o assunto, mas necessito fazer algumas perguntas antes. Concorda?
– Thomas, faça tuas perguntas e dirija-se a mim pelo meu nome. O assunto é pessoal.
– Certo. Serei o mais direto que puder. Há quanto tempo sofre destes sonhos?
– Asseguro-lhe, que há pelo menos um ano, desde que conheci a dama Bolena.
– Estas visões ou sonhos, surgem com que freqüência?
– No início, a cada mês sofria por uma ou duas vezes, à noite. Isto me convencia de que fora apenas um sonho, nada mais. Ocorre que, neste último mês, já tive cinco intervenções à minha realidade. Eu não consigo sonhar normalmente há muito tempo, ao menos desde que o problema me afeta.
– Diga-me, quando sofre destas intervenções, consegue ou já tentou interferir neste outro mundo, ou é apenas observador nele?
– Thomas, estou sempre tão aterrorizado pelas imagens e sons, que jamais tentei. Mas sinto que não controlo corpo ou mente, que apenas posso sentir e observar por intermédio deste outro corpo a que sou transferido. Garanto que a sensação é real como são meus sentimentos agora. São sentimentos tão profundos quanto os meus, sem serem efetivamente meus.
– Henrique, sabes que sou um humilde servo de Deus e de Vossa Majestade, que meus caminhos buscam sempre o bom contato com ambos. Minha teoria parte do que os antigos filósofos afirmavam sobre as idéias; a afirmação de que os pensamentos são tão reais quanto as coisas. Isso nos leva a concluir que as idéias antecedem as coisas e que Jesus Cristo trouxe a nós que Deus é o único pensamento que antecede tudo aquilo que há no mundo. A primeira vista, sobre teu caso, diria que suas intervenções são apenas sonhos incomuns e que boas noites de sono, fariam muito bem à vossa mente. Mas seu relato não abrange apenas sonhos aleatórios. Vossa Alteza diz-me que está a pensar dentro de outra mente, sem liberdade positiva para agir. Que suas liberdades negativas estão restritas, que suas escolhas como rei não prevalecem nesta outra mente. Afirmas que este pensamento consegue agir por si só, que possui suas próprias impressões. Que pelos instantes que passam juntos são um só, com o desequilíbrio de que tu não sabes se este outro pensamento tem consciência de ti. Sou capaz de concluir que o seu pensamento usual, foi capaz de despender-se de vosso corpo de Rei e transportar-se por instantes a uma região desconhecida do mundo, para dentro de um pensamento que sobrepõe-se ao vosso. Estás em contato com um pensamento superior que o está a condicionar. Percebe aonde quero chegar?
– Thomas, crês que esta mente seja a do Criador? Não posso assegurar a superioridade intelectual dela. Eu sinto o medo dentro deste pensamento, assim como sinto medo agora.
– Henrique, conclamo que anseie pela próxima intervenção. Eu sugiro que vá até algum lugar recluso e que espere chegar o contato. Livre sua mente dos anseios cotidianos, e fique receptível e sereno. Somente assim poderemos ter maiores informações sobre seu problema, se é que isso é um problema. Se eu estiver correto desta teoria, será vossa solução.

II


Henrique VIII seguiu o conselho de Thomas More e foi para o interior, saborear sua reclusão. Longe de companhias, mais tranqüilo, chegou a crer na teoria de More, a de que talvez estivesse comunicando-se com Deus. Ao menos isto o fazia ter algum objetivo para tamanhas aberrações que sua cabeça sofria.
Um dos seus criados acabara de servir um bom vinho. Podia sentir o copo gelado de metal e a textura das pequenas gotículas escorregando pela parede da taça. O bom líquido combinava com seu jardim, repleto de rosas que somavam cores diversas ao sabor de seu vinho e à paz de sua tarde.
– Jaqueline, apronte tudo, decidi que iremos ao comício. Você também irá.
– John, creio que precisaremos de dois ou três carros. Já conversou com o pessoal da segurança? Algo precisa ser feito.
O paletó era apertado demais e piorava com o calor e o suor. As cuecas pareciam explodir e aquele maldito elevador era sempre lento demais. Tudo tinha dado errado na última reunião do Conselho de Defesa. Para piorar, Jaqueline começava a desconfiar.
O estrondo que o elevador fez ao parar era muito semelhante com o estrondo que antecederia seu fim. A escuridão subseqüente também. Jaqueline gritou, apertando sua mão com força demais. Não era para tanto, Era somente o escuro dentro do elevador.
– Calma, eles logo estarão aqui, é só a energia.
– Como pode ter certeza? Como? E se forem eles?
– Calma, já disse! Eles já nos tirarão daqui. Veja.
As luzes eram fortes demais para Henrique, que não podia compreender aonde aquele sujeito havia ficado preso no escuro. Pôde sentir aquelas horríveis roupas desconfortáveis e também o rígido aperto de mão daquela mulher. Assustou-se ainda mais com o grupo de homens com roupas estranhas que surgiu, abrindo com rispidez a porta do quarto pequeno e escuro que o casal aterrorizado havia se metido deliberadamente.
A taça de metal jazia quente e vazia, encostada em seu pé. O vinho manchara suas vestimentas, que eram muito melhores novamente. A ansiedade que sentia se fora, bem como o estranho medo de estar sendo perseguido. A tarde continuava bela e serena, como Henrique a havia deixado.
Thomas More estava errado; aquele homem amedrontado não poderia ser Deus.

III


Consultou o amigo Charlie sobre as crises e até mesmo a Ana Bolena, num momento de êxtase sexual. Arrependeu-se depois de contar para aquela mulher. O rei, agora um homem mais recluso, convivia com as intervenções cada vez mais constantes e sempre mais detalhadas. John era seu pior inimigo e o sexo com Jaqueline, era angustiante.
Para desafiar sua nova fraqueza, o rei resolveu participar dos usuais torneios de justa. Charlie não queria e Ana não viria, enferma. Era um bom momento para se descontrair e concentrar-se em suas ações de força e habilidade. Precisava deixar de sentir medo.
O corcel de guerra parecia clamar por sua desistência. Ao alinhar-se para a investida, o cavalo hesitava, mudando de direção a todo instante. O escudeiro teve de interferir bastante, acalmando o animal.
Henrique tremia por baixo da reluzente armadura, sentindo-se humano. Humano e fraco demais, muito distante do grande rei que sempre acreditou ser. O medo de John, aquele maldito John, era carregado aonde fosse. E a justa, ao contrário do que achava, só piorou a sensação.
Henrique conseguira notar que John e sua esposa, eram pessoas importantes e que ambos estavam sendo seguidos por alguma seita inimiga. O rei tentava comunicar-se com aquele indivíduo frágil, para que ele diminuísse o pavor tão constante que transmitia. Apenas uma vez pareceu que John sentiu a presença de Henrique, ganhando alguma confiança. Esta transmissão invertida deu a Henrique, alguma esperança fugidia de que um dia haveria um contato recíproco eficaz. A esperança de deixar de sentir-se prestes a morrer a todo instante, era um conforto.
Esporeou o corcel com força, determinado a vencer. Com a lança em riste, sabia muito bem qual ângulo correto para acertar entre o queixo e o escudo do adversário. Bastava manter a velocidade que sabia seu corcel de batalha ser capaz, animal infinitamente superior ao do inimigo. O cavalo empinou e disparou a toda velocidade.
Ele estava em movimento num animal que não era um cavalo. Como num bloco feito de ferro, John avançava numa velocidade incrível. Jaqueline sorria disfarçada. John estava apavorado.
Uma multidão de pessoas aclamava pelo casal. Expressões repetidas sorriam na direção deles . Havia uma vastidão de edifícios que Henrique nunca vira antes. Um império que o rei da Inglaterra jamais sonhou governar.
Não houve dor, mas ele soube do fim pelo estrondo, muito semelhante ao do elevador. A mente de seu hospedeiro havia sido destruída, causando desespero na multidão. O terror que sentiu, dentro daquele pensamento aniquilado, foi indizível. O rei sentia o vazio, pois tocava o universo solitário de um cérebro morto. Viu a esposa Jaqueline agarrar os miolos de John com as mãos e tentar colocá-los de volta na cabeça estraçalhada. Enquanto ela tocava os pedaços de John, Henrique pôde sentir os dedos de Jaqueline. “Kennedy está morto!”, conseguiu ouvir de alguém.
Sentiu pena daquela mulher e desejou ser capaz de confortá-la. Mas não seria. Nunca mais esqueceria os olhos de Jaqueline, eram vazios como a cabeça que habitava. A pergunta “para sempre?” rondava Henrique e o pavor apoderou-se dele. Ficar preso dentro daquela casca imóvel, eternamente.
A situação piorou quando o corpo foi coberto.
O rei estava perdido dentro de um pensamento vazio sem nada mais para sentir. Era agora uma eternidade consciente e insensível. Era um Deus preso em um caixão, apavorado.
– Jaqueline! Berrou Deus na escuridão.
Henrique VIII ficou desacordado por quarenta minutos, causando uma comoção completa em seu reino. Ferira-se gravemente na justa. Charles emitiu um “graças a Deus!” quando viu o rei renascer.
Após morrer uma vez, sem jamais poder provar tê-lo feito, Henrique VIII não conseguiria viver como antes. Thomas More estava certo e errado.
O rei tocara Deus na morte, mas não sentiu nada. Não havia nada em Deus, somente eternidade. O terror daqueles quarenta minutos, o atormentariam para sempre. E a Inglaterra sofreria.

Conto escrito por: Denise Bertelli.

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