Contos Tudor: O julgamento do falcão

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O que irá ler a seguir, é um conto escrito por um leitor da página Tudor Brasil, este conto é um romance e não tem compromisso com fatos reais:

Irrompi como um furacão na corte de meu julgamento, minhas saias farfalhavam e a pluma em minha boina francesa balançava enquanto eu avançava para frente dos homens que ali estavam somente para me condenar. Meus ombros estavam jogados para trás, de forma a salientar meu delicado pescoço de cisne, e minha cabeça formava um ângulo arrogante de superioridade. Postei-me defronte aos abutres pagos por Henrique e observei-os todos meticulosamente, usando meus olhos para encantá-los, não da maneira que fiz com Henry Percy e Henrique, mas de um jeito que poderia comovê-los, tocá-los no fundo da alma e lembra-los que estavam a julgar uma rainha ungida.

Foi então que vi Henry Percy entre meus julgadores. Ele parecia desconfortável e até meio adoentado, pálido como sempre, seus dedos delicados retorciam a luva de couro. Nossos olhares se encontraram e tratei de amansar minha expressão, esbocei até um sorrisinho, tentei admirá-lo de modo a evocar em minhas órbitas nossos momentos felizes juntos.

Meu tio, o Duque de Norfolk, presidia o julgamento. Estava sentado soberbamente, como se fosse o próprio Rei, gesticulou sutilmente para Cromwell, que começou a ler a acusação. Revirei meus olhos.

-Vossa Majestade Real, nosso soberano Henrique Tudor, o oitavo desse nome, escreveu de próprio punho a acusação contra sua esposa, a rainha Ana- ele começou.

-Oh, sinto-me mais que honrada! Henrique perdeu seu preciso tempo para escrever sobre mim- eu comentei, com escárnio.

Ele começou a narrar, então, sucessivas passagens que descreviam –com muitos detalhes- as minhas supostas relações carnais com meus supostos amantes. A cada palavra nefasta que aquele homem terrível pronunciava, mais eu percebia que aquilo tudo não passava de um grande circo, armado com apenas um objetivo: humilhar-me.

Não havia a menor chance de salvação, eu seria condenada de qualquer jeito. Então, não satisfeito em me mandar friamente para a morte, Henrique, com toda a sua misericórdia real, queria que eu sofresse ainda mais. Vingativo e mimado, desejava constranger-me por ter, em frente a toda a corte, zombado de sua virilidade.

Minha postura, que antes tentava inspirar a compaixão dos meus algozes, agora se assemelhava a de uma fera selvagem, pronta para atacar. Sentia-me como os ursos que eram acorrentados e atacados por cães, para o simples entretenimento dos cortesãos decadentes. Assim como o urso, eu estava lá, sendo humilhada com o intuito de divertir uma corja de velhos pervertidos e decadentes.

Mas eu ainda era Rainha da Inglaterra. Todos ali eram meus súditos. Eu não deixaria que vencessem tão facilmente assim.

Assim que o insuportável secretário Cromwell fez o favor de se calar, todos os presentes voltaram seus olhos para mim e meu tio levantou-se:

-Ana Bolena, como você se pronuncia quanto as acusações de adultério e incesto, cometendo, assim, o crime de traição contra o Rei, que é punível com a morte?

Minha resposta foi uma espalhafatosa, tórrida e debochada gargalhada.

-Vocês são tão ridículos quanto o monarca podre a quem servem. Sabem muito bem que eu nunca cometi nenhuma ofensa com meu corpo contra o Rei, mas não é por esse crime que estou sendo julgada- fiz uma pausa.

“A verdadeira razão para a minha eliminação é que eu sou perigosa. Perigosa para vocês e seus interesses egoístas. Todos aqui sabem que Henrique escutava tudo o que eu lhe dizia, assim como me concedia liberdade para opinar em assuntos de Estado. Ele realmente considerava minha opinião. E, a partir do momento em que a minha voz fala em favorecer o meu povo, ao invés de ajuda-los a acumular mais riquezas, eu tenho que ser silenciada, não é? Adultério? Incesto? Vocês podiam conseguir algo melhor que isso. Por que não tentaram bruxaria?”

Ficaram todos boquiabertos, chocados com minha resposta inesperada. Reuniram-se rapidamente para decidir o veredito. Lutei para não demonstrar nenhum medo ou fraqueza, pois eu precisava me mostrar brava como uma leoa.

Os abutres levantaram-se e, como se eu já não soubesse, cada um declarou-me culpada das acusações. Até mesmo Henry Percy, que outrora fora o amor da minha vida. Mas uma pergunta ficou pairando no ar, causando um clima desconfortável, de qual crime eu era culpada? Ter cometido traição ou por fazer com que a minha voz, a voz de uma mulher, fosse ouvida e respeitada na corte?

-Senhores, como um último pedido, gostaria que falassem ao Rei que, se ele optar pela decapitação, ao invés da fogueira, eu exijo que meu carrasco seja importado da França.

-Existe alguma razão específica para isso, Majestade?- meu tio perguntou.

-Os carrascos franceses não fazem a vitima deitar a cabeça no bloco. E eu, como uma verdadeira Rainha, não abaixarei a cabeça para ninguém. Nem mesmo em minha morte.

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CONTO ESCRITO POR: Enzo Novello.

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