Henrique VII – O Principe Obscuro: Parte I (introdução)

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Quando pensamos na Dinastia Tudor, é natural para muitos, logo lembrarem de Henrique VIII, um dos monarcas mais conhecidos da Europa (Rei da Reforma), que casou-se seis vezes, cujo logo em nossa mente brota a velha, porém nunca ultrapassada música: ”divorciada, decapitada, morta, divorciada, decapitada, sobreviveu…”; levando o nome de seu fundador Henrique VII, quase para a obscuridade.

Não é culpa dele, afinal, estar historicamente anexado entre o reinado de dois dos mais conhecidos reis ingleses – o vilão Shakespeariano Ricardo III e Henrique VIII, seu filho e Rei da Reforma – não é uma tarefa fácil.

Henrique VII, reinou na Inglaterra por quase um quarto de século, de 1485 a 1509. Durante seu reinado, as guerras civis, que haviam amotinado a Inglaterra dentro de uma chuva de sangue durante grande parte do século XV, esgotavam-se. Ao final de tantos conflitos, ele lançou as bases para a Dinastia que leva seu nome: Tudor. Ao olhar do período, Henrique foi um homem com uma reivindicação altamente duvidosa ao trono, que mesmo assim, assumiu e garantiu uma sucessão praticamente imperturbável (em contraste as guerras de outrora), durante quase um século. Nosso misterioso monarca, ou como seu primeiro biógrafo, o pensador político do século XVII, Francis Bacon dizia ”O Principe Obscuro’‘, será agora, estrela de sua própria Dinastia aqui nesta página.

O reinado de Henrique VII é trazido para nós, como um período de transição, onde os violentos e medievais feudos de tempos passados, deram luz a um glorioso período de renascimento inglês, tanto no pensamento, arte e política, quanto religioso. Bom, na realidade, esta foi uma das mais apropriadas propagandas, que os Tudors construíram. Os Tudors que vieram depois de Henrique VII,  o enxergavam basicamente, como o vemos hoje: um unificador de uma terra devastada pelas mãos da guerra, que trouxe justiça e uma solidificação financeira à Coroa. Mesmo sob tal mentalidade, eles não conseguiram erradicar a persistente sensação, de um reinado que degenerou-se dentro da opressão, extorsão e terror, cujo em seu núcleo, estava um Rei que não inspirou-os a amar e sim a temer. Ao chamá-lo de príncipe obscuro, a ênfase de Bacon, não estava somente para o lado esquecido, como também, para o lado sinistro de tal entendimento. Como ele escreveria, Henrique VII ”foi infinitamente suspeito e tinha toda razão para ser, pois vivia em um período, repleto de conspirações secretas e problemas”. É interessante entrelaçar o fato, de que Henrique VII foi o monarca esquecido de Shakespeare, aquele a quem ele propositadamente omitiu de suas obras, mas não, não por falta de material e sim porque seu reinado, foi simplesmente muito complicado de lidar.

Desde o início, Henrique enfrentou os mais adversos problemas em seu reinado, fossem eles, sua reivindicação à Coroa e a maneira em que sustentou sua Dinastia em jogos e casamentos de poder e legitimidades, os desafios impostos em seu governo ou a dominação de um mundo que envolvia, lealdade e recentes traumas políticos da guerra civil. Henrique como armadura, construiu a sua volta um regime, cuja magnificência ajudaria a ocultar o fato de que sua estirpe, talvez fosse temporária, gerando a ele, um constante sinal de perigo. Após dezesseis anos reinando, quando ele parecia ter entendido os jogos de poder que necessitava realizar como Rei, quando suas sombras pareciam terem se dissipado, uma obra do destino, mais uma vez, maculou seu invólucro protetor. Seu filho, Arthur, primogênito proveniente da união Lancaster e Yorkista, educado no berço desta magnífica nova era, falecera. O futuro de sua Dinastia, não mais estaria nas mãos frias de seu primogênito e sim, nas pequenas mãos de um segundo, o menino que carregava muito em comum com ele, que o sucederia como Henrique VIII.

O menino que vivera à sombra de outro, que nasceu com outros propósitos, Henrique, aos dezessete anos de idade, herdou o trono de seu pai, no ano de 1509. O jogo agora, teria que ser diferente. Sua coroação, foi uma intensa tentativa de clamar louvor como o sucessor de seu pai e afastar as turbulências do reinado que se foi. Iniciou-se outra propaganda, o povo tinha que acreditar no que lhes era passado, poetas da Corte trouxeram à luz, a ideia testada e comprovada de Platão, ”A Era de Ouro”, o paraíso, o fim das tempestades, o vislumbre e renascer de um novo e imaculado período. Este robusto e ruivo jovem príncipe, foi a estrela de uma peça metafórica, sobre o novo começo, o oposto do que seu pai então seria.

Esta metáfora fora usada antes e seria depois, afinal, era funcional. Quando em 1485, Henrique VII teve de definir-se sob o Rei que havia suplantado, Ricardo III; ele utilizou da Era de Ouro, como maneira de mostrar o bem que triunfou sobre o mal. De volta para 1509, os poetas retratam o velho Henrique, como uma paisagem já inóspita, na qual a mãe natureza, como um presente divino, restauraria na forma de seu filho. Em outras palavras, se Henrique VII fora o Rei do inverno, seu filho, Henrique VIII, seria o rei da Primavera.

Era tudo muito poético, afinal, velhos tempos morreriam para dar à Inglaterra e Europa, a possibilidade de recriarem-se, reinventarem-se, de todas as maneiras possíveis. O novo brilhantismo político, contrapunha-se diante dos antigos mundos medievais de feudos, devoção intensa e medo e tudo isso, era espalhado pelo reino e selado pela pólvora.

Sob este panorama frenético, marcado pelos bancos mercantis, livros contabilistas, relatórios de espionagens, políticas de interesses, juntamente com tradições e crenças profundamente enraizadas; e novas formas de compreender os papéis de príncipes e governos; é que conheceremos Henrique VII e sua Corte.

Desde o jovem menino com um pesado fardo em suas costas, até um envelhecido e paranóico Rei e seu dinâmico e jovem sucessor, o reinado de Henrique VII, sairá novamente das sombras, que muitos curiosos Tudor, insistem em deixar.

CONTINUA…

FONTES:

 

Artigo desenvolvido com base no livro biográfico, Winter King, por Thomas Penn: AQUI.

 

Brasão de Armas de Henrique VII.
Brasão de Armas de Henrique VII.

 

 

 

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4 comentários Adicione o seu

  1. Yasmim-Deschain disse:

    Às vezes eu me pegunto quanto da tirania e loucura do Henrique, incluindo matar esposas e traumatizar filhas, veio da pressão que o pai dele colocou em perpetuar a linhagem Tudor. Freud explica.
    Parabéns, belíssimo artigo! Amei também o artigo sobre a conexão de Gales com as casas reais inglesas. Vocês poderiam fazer alguns artigos ainda mais remotos, levando aos antecessores galeses dos Tudors e onde eles viveram na terra do Dragão. Fica a sugestão 🙂

    1. Tudor Brasil disse:

      Também pergunto-me o mesmo Yasmin. Sem dúvida, Henrique VIII e seu pai, tinham em comum, muito mais que imaginamos!
      Quanto a sua sugestão, adoramos fazer artigos de genealogia, já programei alguns bem interessantes, logo postarei.
      Obrigada por comentar!:)

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