Contos Tudor: O Espelho da Rainha

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O que irá ler a seguir, é um conto escrito por um leitor da página Tudor Brasil, este conto é um romance e não tem compromisso com fatos reais:

A Rainha se recusava a sorrir em frente ao espelho. E de fato, ela não sorria de verdade há tanto tempo quanto sua memória, já senil, podia recordar. Por algum motivo inexplicável quase todos os seus dentes empretejaram  e tiveram de ser arrancados, contra sua vontade. A falta que eles faziam deixavam seus lábios caídos, como os de um cão e suas bochechas murchas como bolsas vazias.

Linhas… Longas linhas cruzavam seu rosto, mesmo com toda a maquiagem pesada. Estradas, ela percebeu após alguns minutos – suas damas teimavam em dizer que haviam se passado horas –, que levavam seus olhos para tão longe quanto ela podia imaginar… Rostos como os de Arabella e Robert… ambos os Roberts atormentavam sua cabeça, mas de todos os rostos, de Maria e Edward até Robert e Blache o pior era o de Essex. A culpa era sua por ter enviado o rapaz para enfrentar os rebeldes, ele já havia se mostrado inexperiente em campo e era claro, agora era claro como água, que ele havia sofrido uma traição por parte dos escoceses… Um rapaz tão fugas e tão inteligente… Nunca conhecerá alguém com um humor tão rápido e irônico quanto o dele, talvez apenas o seu se aproximasse. Mas por dentro ele era apenas cobre, bonito de se ver, mas fraco perante o poder de uma espada, de um machado… de uma pena.

A maquiagem branca já não era suficiente e desmanchava-se nas linhas profundas no rosto da rainha, enquanto as lágrimas corriam por elas como as águas de regato. Teria gritado e esperneado novamente, se tivesse alguma força física, mas esta parecia tê-la abandonado de vez. Desde janeiro, quando ela e a corte deixaram Whitehall para o calor aconchegante de Richmond suas forças pareciam esvair-se dia após dia. O sono abandonava-a nas madrugadas e a fome não fazia efeito nenhum em seu estômago. O estômago forte que suportara mais de setenta anos engolindo traidores, bajuladores e intrigueiros, o estômago de um verdadeiro rei de Inglaterra, que não mais funcionava.

A maquiagem devia ser trocada, refeita, com urgência. Um novo vestido talvez viesse a calhar, um preto, para dar destaque no meio de todo aquele branco típico do inverno, mas usar outro vestido significava trocar-se de todas suas peças de roupas e observar, aos poucos, mais linhas, múltiplas e dobras por todo seu corpo. Continuaria como estava, mas antes que alcançasse o bote com ceruse seus olhos encontraram novamente o reflexo tremeluzente do espelho.

Elizabeth estava sozinha no quarto… não, não estava, mas as duas damas dormiam, sentadas em cadeiras bem próximas. Só então ela pode observar que a madrugada caíra novamente e mais um dia, um dia inteiro tinha se passado enquanto todo um século transitava por sua mente. Quadros de sua mãe, quadros de seu pai… Maria e seu trágico fim, a coroação… As execuções, e os conselheiros, o bom e velho Lorde Burghley, Washigham e o astrólogo… Como era mesmo seu nome? John Lee? Não tinha tanta importância afinal, ele também tivera seu papel, não apenas na vida da rainha, mas também na construção de um reino.

Nem ao menos neste ponto ela conseguia sentir paz. A Inglaterra prosperava, sim, sim, seu reino estava em paz também e a ameaça maior parecia finalmente derrotada… A custo de seu sangue. E quem sabe também de sua alma. Afinal, por que não? Um bom rei deveria suceder uma rainha. – Apenas um Rei pode substituir uma Rainha… – Aquela era sua voz? Parecia o chiado de algum instrumento desafinado, inaudível, cadavérico. Mas todos em sua volta pareciam aliviados, ela ainda estava viva. E deitada em sua cama… Seu primo tomaria seu lugar e o temor de seu pai, enfim, se concretizaria. O fim de sua Dinastia deveria representar melhores dias para a Inglaterra. Afinal, ninguém melhor para reinar do que alguém que já nascera como rei.

Sua vida, parou para pensar, com um remorso pesado em seu peito e em seus pensamentos, não tinha sido uma vida dedicada ao amor. Ela amara sim, e muito, mesmo após saber da traição de seu amado mostrou-se incapaz de puni-lo adequadamente, e amou a outros também, mesmo que em menor grau de intensidade. De qualquer forma, nenhum daqueles casos se concretizara. Ela era sim, a boa rainha Bess, a gloriana Rainha Virgem… Mas a virgindade, agora, parecia ter cobrado um preço muito caro. Sentiu então um vazio em seu ventre, como o próprio abismo da Bíblia Sagrada… Aquele era o preço pelo poder, o preço pela paz e por sorte ela não tinha mais como voltar atrás.

Porém um sussurro ainda invadia seus sonhos. No canto do grande quarto o espelho jazia imóvel. Projetando a imagem da própria morte, que pacientemente esperava com a mão estendida, enquanto a Elizabeth agarrava-se com força nos deveres ainda por serem cumpridos, sua última âncora naquele mundo onde todas as outras haviam afundado, como os navios da armada de Filipe. Vamos nos encontrar logo… Um receio tomou seu coração. Será que se encontrariam de fato? Mas, segurando sua mão, estava o Arcebispo de Canterbury a orar e sua extrema unção logo traria a paz final da qual ela precisava e na verdade, já podia sentir, aproximando-se como a pomba branca do Santo Espírito. Talvez ela realmente encontrasse seu ex cunhado, sua irmã e irmão, pai e quem sabe até a mãe, da qual ela se lembrava apenas por retratos, nos salões celestiais de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Derramou-se uma lágrima e o Arcebispo se ergueu, assustando-se no mesmo instante ao notar que os dedos da Rainha ainda se fechavam em torno de seu pulso. – Ainda não… – Elizabeth se forçou a dizer, ordenando que todos os conselheiros tratassem da sucessão, pois ela estava morrendo, e que o Arcebispo continuasse em suas preces. E a procissão continuou, tanto do sacerdote quanto do espelho que parecia dizer o nome da Rainha em meio aos sermões sagrados. Atormentando-a com imagens de sangue e ferro, traição e perjúrio, injustiça e feiura. Sua própria feiura. Talvez o real motivo por seu estado civil eterno.

E naquele momento o leve barulho de um trincar, como gelo se quebrando, ecoou pelo castelo, retumbando nos ouvidos da velha Rainha… O espelho havia se rompido e assim como as linhas na face da Rainha os riscos pela superfície rapidamente se espalharam. Assaltando-a com o pior de todos os medos, pela primeira vez Elizabeth temia a morte, os resultados inseguros dos mundos do além e do julgamento ao qual todos, um dia, teriam de passar. O espectro do espelho aos poucos se dissipou, dando lugar a escuridão total, que refletia exatamente a imagem do quarto e de Elizabeth com o olhar vidrado em seu reflexo disforme devido as centenas de rachaduras. O que acontecerá?

E então, como a combustão de mil estrelas no céu, o espelhou pareceu explodir em centenas de milhares de riscos de pura luz, tomando todo o recinto, que jazia no escuro lúgubre do luto e do pranto e transformou em um pequeno pedaço do céu. Nuvens de pura luz solar pairavam embaixo e anjos de plena e pura beleza carregavam a alma imortal daquela mulher de cabelos ruivos enquanto uma voz posante como uma tempestade e serena como uma brisa falavam a seu coração. – Tu que nasceste do sofrimento e com o propósito divino de vencer todos os teus inimigos e guiar teu povo para fora da idade das trevas, venha! Pois o reino do Senhor está a tua espera, Débora dos novos tempos!

– E então ela, que se casou com a Inglaterra e gerou em seu coração milhões de filhos que lhe serão fiéis até o fim de seus dias finalmente descansou, junto a sua irmã e ao lado direito do trono celestial de Deus, Todo-Poderoso, de onde sempre olhará por nós, ingleses. Essa, meus filhos, foi a boa rainha Bess. – O ano era 1620 e, sentados no chão atrás da barraca de pescados as crianças de rostinhos sujos ouviam deslumbradas o relato do senhor seu pai, que tinha pouco mais do que suas idades quando a velha rainha fora carregada pelos anjos para morar com Deus, mas ele se lembrava muito bem do cortejo fúnebre e do sentimento de perda vivenciado por todos os milhares que seguiram rumo a Westminster naquele dia. E logo a algumas centenas de metros, alguns olhares tortos eram dados à liteira que passava, carregando o filho do rei Jaime, o rapaz de modos estranhos e inclinações católicas chamado Charles, o futuro rei, que viria um dia a descobrir, embaixo de vários lençóis o mesmo espelho de Elizabeth, intacto, em algum dos quartos de Richmond para lhe mostrar um machado pingando com o sangue real.

 

CONTO ESCRITO POR: Jonatas Elyel. 

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6 comentários Adicione o seu

  1. Franciele disse:

    Ótimo conto, adorei! Escreva mais, por favor *-*

    1. tudorbrasil disse:

      Que bom que gostou Franciele, segundo o autor do conto, ele logo escreverá mais!:)

  2. luiz eduardo disse:

    gostei do conto que fala exatamente o que eu queria saber como foi os últimos dias de Lizze

    1. tudorbrasil disse:

      Mas lembre-se que é um conto, e não tem compromisso com a verdade. =)

  3. Laura Martins disse:

    Olá,vocês poderiam me dar dicas de alguns livros sobre a dinastia Tudor?

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