Odores Tudor: O cheiro no período Tudor – Parte I

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Por mais higiênicos que os Tudors possam ter sido, eles ainda viviam em um período com saneamento básico quase nulo e sem alguns cuidados essenciais que dispomos atualmente.
Criei este artigo, com base em um interessante livro inglês que ganhei de presente, que tem enfoque nos aromas que sentiríamos ao adentrar desde à Corte, até as ruas no período Tudor.

Ruas:
As ruas, becos e cidades no período Tudor eram imundas. O povo Tudor tentava arduamente manter-se limpo, aliás, eles prezavam muito mais por uma boa higiene, que muitas outras cortes estrangeiras daquele período. Porém, infelizmente as ruas não os deixavam esquecer o período em que viviam. O saneamento básico era precário e quase totalmente inexistente; alguns costumes banais como o de dar descarga nos dias de hoje, obviamente não existiam. Nas grandes metrópoles, ou até cidades rurais onde não tivessem rios ou lagos por perto, os dejetos iam para onde? Para as ruas! Era comum ser um pedestre no período Tudor e deparar-se com urina e fezes caindo de baldes e urinóis pelas janelas das casas. Era nojento, comum e dependendo de sua sorte, ou desatenção do ”eliminador de dejetos”, ela poderia acertar você.

Não era raro ver pessoas passeando pelas ruas com lenços sob a face, afinal, com as feiras ambulantes, falta de esgoto, água parada e lixo sob o chão, o cheiro além de insuportável e pútrido, atraia ratos e inúmeras moscas. Você corria o constante risco de pisar em algo indesejado, sujando seus sapatos e roupas. Para piorar tudo, a maioria das ruas não possuía qualquer tipo de pavimentação (algumas eram ladrilhadas com pedras) e acabavam virando um lamaçal.

A falta de higiene era a detentora número um do aumento no número de pragas e doenças. Enquanto as casas permaneceriam limpas o máximo possível por seus moradores – algumas com o chão forrado com folhas e ervas para ficarem totalmente perfumadas a fim de espantar o odor das ruas -, do lado de fora, o assunto era outro.

Os Tudors, como qualquer pessoa, não gostavam de odores desagradáveis. Sempre que eram expostos à tal, procuravam levar ervas e perfumes, ou até mesmo um lenço para disfarçar cheiros desagradáveis.

Perto da Torre de Londres, o odor podia tornar-se mais desagradável ainda, pelo simples fato de que como sinal de aviso, cabeças e alguns corpos eram deixados na rua e nas redondezas da Torre para apodrecerem e por medo, fazerem pessoas pensarem duas vezes antes de organizarem revoltas e rebeliões.

Vida no campo:
O campo assim como a cidade, também não escapava dos odores fétidos, aliás, as vezes podia ser até pior. Os trabalhadores rurais, possuíam um acesso muito mais limitado a água e condições de limpeza. Eles ficavam o dia inteiro embaixo do sol, cuidando de seus animais e por mais que tentassem ao máximo manterem-se limpos, eram menos limpos que as outras classes e consequentemente, seu ambiente também. Suas moradias possuíam quase que em sua maioria, chão de terra batida, que poderia virar lama e tudo era coberto de palha, um ótimo esconderijo para ratos e roedores. Durante o dia, as portas ficavam abertas e os bichos às vezes entravam e urinavam ou defecavam dentro das moradias.

A limpeza era um aspecto no qual se preocupavam, mas não era algo fácil; um trabalhador do campo possuía muitas tarefas e consequentemente, pouco tempo ou condições para efetuar alguma limpeza mais aprimorada, a palha do chão era uma forma de limpar o local, pois ela ficaria acima da lama e sujeira, conforme visto acima; não era eficaz, mas era o que podiam fazer.

No entanto, o lado bom de tudo isto, é que esta sujeira acumulada, era rica em nitrato de potássio, um dos componentes da pólvora. Deste modo, o ”homem do nitrato”, seria encarregado de ir de casa em casa, coletar um pouco desta sujeira rica em nitrato, para conseguir por fim, fabricar a pólvora de canhões e balas inglesas. Sim, a sujeira de casas inglesas foi o grande abastecimento da Invencível Armada!

Realeza: 
A realeza Tudor era conhecida por prezar por sua higiene. Os pomos perfumados eram sem dúvidas bastante conhecidos na Corte e toda dama prendia um a cintura; Catarina Parr, Ana Bolena, Catarina de Aragão, Maria I, ou até Elizabeth I, todas usavam.
Muitos podiam ser divididos em vários pequenos compartimentos, cada um cabendo uma erva aromática diferente; conforme a dama andava, o pomo batia em suas pernas e exalava um agradável odor pelos corredores. Perfumes líquidos também ficaram bastante conhecidos após a dissolução dos monastérios, Elizabeth e Henrique VIII eram fãs e adeptos desta moda.

Porém, a Corte Tudor também tinha seus odores, um dos mais famosos sem dúvidas foi o de Henrique VIII e sua perna ulcerada e supurada. Após seu famoso acidente de justa, Henrique VIII teve muitas sequelas, uma delas foi a abertura de feridas em sua perna, que perduraram por anos, talvez com uma pequena ajuda do uso excessivo de apertadas jarreteiras nas pernas. O problema é que com o passar dos anos, relatos da corte informavam que era possível sentir a presença do rei a corredores de distância, tamanho odor que exalava sua perna. Sua quarta esposa, Ana de Cleves, foi uma das pessoas a queixarem-se do odor incessante de sua ferida.

No período Tudor – principalmente elizabetano -, com o consumo excessivo de açúcar, as cáries dos dentes aumentaram bastante, causando em certos casos, odores bocais desconfortáveis; não apenas na realeza, é claro.

Guerra e navios:
Eram outros locais onde odores desagradáveis davam, o ”ar da graça”. Na guerra era difícil manter-se limpo, os banhos eram poucos, às vezes, quase nulos. As constantes viagens, acampamentos precários, higiene precária e grande número de mortos e doenças, faziam das expedições de guerras, um local bastante desagradável neste quesito. Vale lembrar que após batalhas, tendas com feridos eram montadas e cadáveres eram amontoados e transportados de modo bastante lento, às vezes em carroças. Era um local bastante favorável à proliferação de pestes ou outras enfermidades.

Os navios eram sem dúvidas, os locais com odores mais desagradáveis naquele período, não apenas na Inglaterra. No episódio da Armada por exemplo, os navios estavam infestados de feridos com graves aflições, tendo que ser curados dentro dos compartimentos do navio. Alguns tiveram de ter braços e pernas amputadas, que infeccionavam. Os barbeiros não tinham condições de desinfetarem seus instrumentos, ou seja, as infecções nos navios era algo comum e as soluções, igualmente pobres. O banho era precário – alguns nunca tomavam-; a pouca água doce que dispunha-se era racionada, fazendo deste, um luxo. A higienização quando existia, muitas vezes era local, afinal, um banho de imersão em um navio era realmente uma grande ostentação.

Os navios eram sujos, muita comida estragava por mal armazenamento e muitos roedores aproveitavam-se do estoque de alimentos.

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CONTINUA…

Fontes:

Tudor Odours – Oxford University Press
Imagens de autoria do livro Tudor Odours.

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8 comentários Adicione o seu

  1. Bom artigo, mt. interessante. É aproveitar enquanto a «net» só tem imagem e som, ainda não tem cheiro!

    1. tudorbrasil disse:

      Que bom que gostou João! Quem sabe no futuro, não conseguiremos sentir cheiros nos artigos não é!? Apenas não sei dizer se neste caso seria uma boa ideia!hehehe…
      Obrigada por comentar. =)

  2. Bela Quadros disse:

    Pois é! Um dia comentei sobre esse assunto com um amigo que romantiza bastante essa época. Ele ficou bem bravo comigo! kakakaka

    1. Tudor Brasil disse:

      Manda o artigo para ele!rsrs…
      Os Tudors buscavam ter muita higiene – tanto quanto possível -, mas não podiam fazer milagres né!?
      Obrigada por comentar! 🙂

  3. Paula Insabraldi Tonezi disse:

    Excelente artigo. É muito bom saber do cotidiano dessa época, na faculdade estudamos pouca coisa sobre esse tema.

    1. Tudor Brasil disse:

      Fico feliz que tenha gostado Paula! Realmente há uma carência de temas assim nas faculdades e escolas…
      Obrigada por comentar! 🙂

  4. lorena disse:

    Adorei o blog!

  5. perfume disse:

    Nunca imaginei que fosse assim, isso é que devia ser um cheiro horrivel. Credo…

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