A medicina no Período Tudor – Parte II: A formação dos médicos na Inglaterra

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O artigo em séries, tratará sobre a medicina, desde seu início, até sua estabilização, tratamentos e curiosidades dentro da Inglaterra Tudor.
Caso tenha chegado por aqui agora, recomendo que comece pela Parte I do artigo: A Medicina no Período Tudor – INTRODUÇÃO.
No artigo anterior, tratamos sobre o inicio dos hospitais e médicos devidamente instruídos na ilha, onde anterior a este período, era uma atividade quase que completamente leiga, praticada por moradores de vilas ou autodidatas.

A reforma durante o reinado de Henrique VIII, repercutiu na atividade universitária, principalmente do ponto de vista social.
Como as ordens monásticas haviam sido abolidas e uma nova igreja estabelecida, os indivíduos menos abastados que anteriormente frequentavam as universidades entrando em uma ordem religiosa, acabaram sendo privados desta possibilidade.

A partir dai, a entrada nas universidades de Oxford e Cambridge, passou a ser um privilegio apenas das classes mais abastadas. Enquanto nas universidades, era o chanceler ou o vice-chanceler que permitia e decidia a autorização para a pratica dos ensinamentos medicinais, esta permissão, em outros lugares da Inglaterra, era também concedida pelo Bispo da diocese, desde que este, auxiliasse, juntamente com quatro peritos, os candidatos em questão.

Em 1511, um ato parlamentar, definiu que a medicina em Londres e dentro de um perímetro de 7 km, apenas poderia ser exercida, após a aprovação dos candidatos em um exame perante o Bispo da catedral de Saint Paul.

A falta do ensinamento prático nas universidades inglesas, acabou por trazer conseqüências para muitos, inclusive para os estudantes. O resultado, era que muitos estudantes ingleses, após o fim do bacharelado inglês, optavam por continuar seus estudos medicinais em faculdades estrangeiras, onde poderiam ter contato com exumações e autópsias de cadáveres, possibilitando, um maior entendimento prático do assunto. Os locais mais concorridos eram: Paris, Pádua, Leiden, Basiléia, entre outros… Ao voltar do exterior, os médicos deveriam exigir uma revalidação de seus diplomas, à fim de que pudessem trabalhar em solo inglês.

Henrique VIII fundou em Londres, no ano de 1518, por conselho do famoso médico Tudor Thomas Linacre, o ”College or Commonalty of the Faculty of Medicine”, que mais tarde viria a chamar-se ”Royal College of Physicians”. Os eleitos entre os membros do colégio, eram, entre muitos outros, estudantes de faculdades estrangeiras. Em 1533, novas atribuições foram outorgadas ao colégio; cabia-lhes fiscalizar as farmácias, e suas transgressões acarretavam em punições como o encarceramento.

Finalmente, em 1585, com a autorização da Rainha Elizabeth I, o colégio obteve permissão para realizar autópsias e lições anatômicas. Eram ministradas lições fechadas dentro do território da faculdade, e lições públicas, que contribuíam entre muitos aspectos, para o aperfeiçoamento cirúrgico.

Os físicos (nome dado ao médico que recebia ensinamento em faculdade – vide artigo I) ocupavam-se principalmente do tratamento de doenças internas, mas podiam exercer a prática cirúrgica. Eles vestiam-se com um traje preto e sob a cabeça, um tipo de pequeno chapéu de veludo da mesma coloração. Em 1533, foi permitido, que forrassem o colete de pele com tafetá ou cetim negro. Como cobravam por visitas (o equivalente a 10 xelins), seus serviços eram utilizados apenas para os mais ricos.

O salário de um médico da Câmara Real dos médicos de Henrique VIII, era de 40 libras por trimestre, valor equivalente ao recebido por um cátedra de uma universidade.

O grau inferior ao de um físico, era o do ”Master Surgeon” (Mestre Cirurgião), os verdadeiros cirurgiões, eram os únicos aptos a realizarem cirurgias tecnicamente, mais complicadas.

Logo à seguir, vinham os Barbeiros, os mais baixos da escala. Sua aprendizagem, era em geral, no momento em que serviam como auxiliares dos médicos militares em campanhas militares. Em tempos de paz, eram consultados por outras classes sociais, porém apenas em casos graves, pois também cobravam altos honorários.

Nos exércitos ingleses Tudor, a assistência aos feridos deixava muito a desejar, como podemos ver em um relatório de Thomas Gale, médico militar:

”Lembro-me, que durante a campanha universalmente célebre do Rei Henrique VIII em Montreuil (1544), faziam-se passar por cirurgiões, indivíduos suspeitos de todas as classes, tais como abatedores de gados, sapateiros e caldeireiros. Essa boa gente, usava tais tratamentos, que seus feridos, com dois curativos, eram despachados para sempre e nunca mais voltavam a queixar-se de dor frio ou calor, muitos soldados morriam em conseqüência de ferimentos insignificantes.”

Em 1540, ocorreu a fusão de duas sociedades medicinais, após os mestres cirurgiões, terem inutilmente tentado unirem-se ao Royal College of Physicians. A fusão da Surgeons Company com a Barber’s Company, veio a melhorar consideravelmente a posição dos cirurgiões, principalmente no quesito ”material de trabalho”.

Em virtude desta união, Henrique VIII entregou à Barbers and Surgeons Co., um diploma no qual eram enumerados seus privilégios. A entrega deste documento foi reproduzida por Hans Holbein em um quadro que ainda hoje encontra-se no Barber’s Hall (abaixo).

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A união dos Barbeiros com os Cirurgiões, perduraria até 1745, quando estes tornaram-se independentes e fundaram a Surgeons Company, da qual originou-se o atual Royal College of Surgeons no ano de 1800.

Farmacêuticos:

As profissões de médicos e cirurgiões instruídos, evoluiu na Inglaterra, do mesmo modo que em outros países do continente, em compensação, a carreira de farmacêuticos, desenvolveu-se de maneira completamente diferente. Como os médicos formados eram consultados apenas pelos mais ricos, pouco a pouco, os farmacêuticos foram tornando-se os verdadeiros médicos da massa popular inglesa. Quando tratava-se de doenças menos graves, eram os primeiros a serem procurados, não apenas pelos pobres, mas por todas as classes sociais. Por isso, possuíam atribuições especiais: ”Não apenas deviam preparar os remédios, segundo indicações de médicos e cirurgiões, como também era permitido examinar e prescrever medicações a enfermos”.

Além das lojas e laboratórios, os farmacêuticos dispunham de um cômodo dedicado a tratamentos e exames, alguns chegavam a fazer cirurgias e praticar obstetrícia. Durante o período Tudor, eles também estavam afiliados aos comerciantes de especiarias e apenas em 1617 constituíram sua própria sociedade, a ”Company of Apothecaries”.

No campo cirúrgico, os farmacêuticos atuavam como ”Reparadores de Ossos”, a maioria era humilde, sem amplo conhecimento médico, possuindo apenas uma certa, habilidade com fraturas.

CONTINUA…

FONTE:

ACTAS CIBA – A MEDICINA NA INGLATERRA TUDOR.

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