Maria I – Parte V (final) : Morte e legado

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Maria I morreu na manhã de 17 de novembro de 1558, em Londres, provavelmente de câncer. É dito que uma de suas últimas visões foram de anjos cantando e crianças brincando a sua volta.

Maria Tudor foi sem dúvida uma mulher que passou por muitos sofrimentos em vida, o fato de ser a primeira mulher a encontrar-se na posição de monarca, sua pouca experiência, e ao mesmo tempo ser tão decidida e participativa, dentro de um conselho dividido entre o passado e o presente, a levaram a grandes dificuldades, as mesmas que sua irmã, Elizabeth encontrou quando chegou ao poder, porém teve um melhor conselho privado, mais tempo, e uma tolerância religiosa mínima, algo que seus irmãos não possuíam ou perderam ao longo do tempo.

O apelido de Bloody Mary, traduzido como ”Maria sanguinária” é um tanto exagerado, pois, Maria não cometeu nada muito diferente de outros em sua época, incluindo sua própria dinastia. Em um período turbulento de reformas religiosas a perseguição, fogueiras, entre outras execuções, estavam dentro do contexto da época, apesar de soar, aterrorizador, o que de fato é. Ainda assim, é também é necessário lembrar de seus outros feitos, os que ajudaram Elizabeth e outras mulheres a assumirem a posição de monarcas em um reino, em pleno século XVI.

577579_615078748552776_88111651_nNas palavras do historiador norte americano, Will Durant em seu livro ”A História da civilização ocidental”, no capítulo ”A Reforma”, ele diz:

”Em relação a Maria I, pode-se dizer algumas palavras complacentes. Dor, doença e muitas injustiças sofridas deformaram seu espírito. Sua clemência deu origem à crueldade só depois que conspirações tentaram retirar a sua coroa. Seguiu o conselho da igreja de confiança, que tinha sofrido perseguições e buscava vingança. Ao final, penso eu, com as performances, estava cumprindo suas obrigações para com a religião que ela amava como uma razão para sua própria vida. Ela não merece o apelido de “Bloody Mary”, a menos que o adjetivo seja aplicado a todos de seu tempo; adjetivo que resume o caráter de forma errada, já que havia muito amor. Embora pareça estranho, é notável que ela tem tomado a frente o trabalho do pai [Henrique VIII], para separar a Inglaterra de Roma. Ela mostrou ao país que era ainda da igreja católica a pior característica que era servida. Quando ela morreu, a Inglaterra estava mais preparada do que nunca para aceitar a nova fé que ela se esforçou para destruir.”

Após sua morte, Maria I foi eternizada, não como a primeira mulher a ser coroada rainha da Inglaterra, mas como a tirana católica que introduziu a inquisição na ilha. Esse imaginário de ”sanguinária” foi cunhado a base de muitas leituras protestantes de seu breve reinado, durante o período Tudor Elisabetano e Jacobiano.
Tudo que fosse relacionado a Maria, era lembrado como falha e derrota, até mesmo sua luta pelo trono, suas políticas econômicas para restabelecer a moeda, suas políticas diplomáticas, tudo o que Maria trouxe de inovação como a instituição da monarquia de gênero era relegado ao esquecimento, sempre contrastando com sua perseguição religiosa.
Maria sofre com as inevitáveis comparações entre ela e sua irmã, Elizabeth. Pois foi sob Elizabeth que a construção de uma identidade na Inglaterra dava seus primeiros passos, a protestante rainha Elizabeth, aquela que levou seu país a se estabelecer como anglicano, longe da autoridade papal.
Entretanto, Elizabeth deve a Maria o fato dela ter tornado-se rainha, e de um sistema de governança feminino já estar estabelecido. Foi sob Maria que a monarquia de gênero inglesa estabeleceu-se, foi ela quem ”abriu o caminho” para que sua irmã assumisse o poder.

É contemporâneo o interesse em desconstruir o imaginário ”bloody Mary”, aproximadamente a partir dos anos 80, que historiadores e autores se debruçam a entender o que foi o reinado de Maria, que rainha ela foi e se o mito em torno dela era real ou apenas propaganda. Ainda que seja impossível não falar sobre as perseguições, deve ser reconhecido vários pontos, como por exemplo, estar no contexto do período de conflitos religiosos, e de que muitos na Inglaterra eram ainda católicos ou tradicionalistas e não criminalizavam as perseguições, ainda que fossem assustadoras.

SONY DSCApós a morte de Maria as perseguições eram vistas como ”fanatismo desmiolado” e seu próprio reinado como um completo fracasso, esquecendo de seus feitos citados acima.Também é necessário lembrar que tanto Henrique VIII, quanto Eduardo VI e Elizabeth I executaram muitas pessoas, inclusive Henrique e Elizabeth eram conhecidos por suas diversas formas de tortura para com seus executados. Mas, como diz o historiador G.R. Elton em 1950:

”Todos os mártires celebrados por John Foxe, merecem, sem dúvida, nem mais nem menos empatia do que as vitimas de Henrique e Elizabeth, mas sua importância é muito maior. Maria queimou poucos se comparados as práticas do continente, mas para as condições inglesas suas atividades foram sem precedente deixando marcas, como ódio ao papa e seu catolicismo, uma das características dos ingleses por 350 anos…”

Para Patrick Collinson, o livro de John Foxe, foi necessário para que as vitimas de Kent e a causa de suas mortes nunca fossem esquecidas.
Já John Guy afirma que os mártires que morreram sob Maria, poderiam também, terem morrido sob Henrique VIII sob acusação de serem anabaptistas, por exemplo, e que não havia nada fora do comum sobre as perseguições Marianas, dentro de seu contexto. Julgar a restauração mariana como sem sentido ou regresso é uma distorção. Certamente, estava longe de ser um retorno ao “medievo” ou ao período pré-reforma, na verdade a restauração mariana antecipou algumas mudanças que aconteceriam na contra reforma, anos depois. Alguns autores como David Loades e Eamon Duff apontam a importância dela em sua política religiosa, visto que Maria se preocupava com a educação do clero e combatia o típico e antiquado clero medieval, não interessado nos assuntos da fé, sem estudo, algo que seu pai também combatia.

A ”falta de importância” relegada a Maria e seu regime, também é contemporânea. Em nenhum momento Foxe a considerou não importante, isso é um fenômeno típico do século XIX, seu sentimento em relação a ela, era de alguém que servia a fé não verdadeira, ao catolicismo, mas nunca sobre sua legitimidade como monarca. O legado de Foxe mantém-se mais em preconceitos do que em História, Maria não era seu alvo, mas sim sua fé/igreja. Ao longo de 200 anos Maria tornou-se odiosa por sua fé católica e seu casamento estrangeiro, mas não foi até o século XIX que foi relegada a insignificância.

430197_622069141155448_1716036817_nAlgumas notas da vida de Maria, de sua morte até o inicio de 1559, mantém a reputação da rainha com simpatia e delicadeza, entretanto essas versões de Maria e seu regime não se manteriam em um país ”destinado” a ser protestante.

Cabe a nós e aos futuros historiadores, desvendarem a figura desta mulher, assim como de muitos outros nomes na história, não apenas por seus credos, e sim pelo que representaram em vida, lembrando do período em que viveram e separando o período em que vivemos hoje.

Efígie de Maria I.
Efígie de Maria I.

FONTES:

COLBERT, Carolyn. The After Life of Mary Tudor
DURANT, Will. A História da civilização – A reforma. sindicado nacional dos escritores, RJ, 1957.
RICHARDOS, Judith M. Mary Tudor as ‘SOLE QUENE’?  1997.
WEIR, Alison. The Children of Henry VIII, 2001.
INNES, Arthur D. England Under The Tudors, Oxford, 4° edição, Inglaterra, 2004.
DUFF, Eamon. LOADES. David. The Church of Mary Tudor, 2006
PORTER, Linda. Mary Tudor: The first queen, 2007.
WHITELOCK, Anne. Mary Tudor: princess, bastard and queen, 2010.
WHITELOCK, Anne. HUNT, Alice. TUDOR QUEENSHIP: The reigns of Mary and Elizabeth. EUA, 2010.
WILEY, John. The Tudors for dummies. England, 2011.

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4 comentários Adicione o seu

  1. jordania Elias disse:

    Excelente, tudo muito bem explicado e de facíl leitura. Estão de parabéns todos os colaboradores. Realmente um excelente trabalho!

    1. tudorbrasil disse:

      Muito obriga Jordania!
      Ficamos muito felizes, esperamos que volte sempre!:)

  2. Helena Gouveia disse:

    Finalmente terminei de ler os posts sobre a Maria, mas eu acho que ela merece sim créditos por sua luta ao trono, mas também acho que ela e todos os outros mereciam ser chamados de bloody Mary oy bloody Elizabeth etc…Mas como Maquiavel dizia, os atos ruins feitos por um Rei/Rainha, devem ser feitos de uma vez e logo um ato bom deve ser feito, para que o ato ruim seja esquecido pela população. Logo, acho que Maria I nãi soube governar direito, não alcancou seus objetivos, mas não a culpo, pois como dito no post, ela possuía pouca experiência e isso só serviu de base para o governo de Elizabeth, que só pode governar como fez por ter visto previamente as “besteiras” que sua irmã cometeu durante o poder.

    Amando o blog! 🙂

    1. Tudor Brasil disse:

      Não creio que ela não soube governar, apenas creio que reinou por pouco tempo. Muitas de suas medidas de governo, foram adotadas por sua irmã mais tarde, sinal que funcionavam. Maria foi uma monarca de seu tempo, execuções faziam parte daquele período, então é mais complicada julgar todas estas pessoas, que viam a morte como solução para problemas sociais, políticos e etc…
      Enfim, não podemos mudar o destino de Maria, resta-nos apenas desconstruir sua anti-propaganda para o futuro, não!?
      Fico muito feliz que esteja gostando da página! 🙂 xxx

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