A Relação de Elizabeth I com sua mãe Ana Bolena – Parte III [FINAL]

ImagemPara melhor compreensão do artigo, sugerimos a leitura das partes I e II.

Elizabeth, a filha de sua mãe:

Conforme visto anteriormente, existem amplas evidências de que Elizabeth sentia orgulho e simpatia por sua mãe. Ainda assim, muitas pessoas continuam tentando contrariar tais indícios. Alguns historiadores como David Starkey, acreditam que Elizabeth tenha tido uma relação mais positiva com seu pai. Com relação a tal afirmação, é provável que seja uma generalização de uma dinâmica bastante complicada, e de fato, uma análise sobre a relação entre Elizabeth e seu pai, é digna de outro artigo.

Por que Elizabeth frequentemente afirmava que era “filha de um leão” ou “filha de seu pai”, e etc, se ela na realidade, acreditava que seu pai havia privado-a de uma mãe, acabando com sua vida com base em alegações e acusações forjadas? E por que Elizabeth I, assim como sua irmã Maria, não tentou restaurar a reputação de sua mãe a fim de que seu pai novamente a declarasse legítima?

A resposta à primeira questão é muito simples: Elizabeth acima de tudo era uma sobrevivente, considerando que não tinha mais sua mãe a seu lado, suas escolhas foram puramente estratégicas. Após o escândalo que levou a execução de Ana Bolena, dúvidas sobre a paternidade de Elizabeth tornaram-se cada vez mais comuns, sendo que, era essencial que ela continuasse a insistir ao longo de sua vida, que ela era a filha de Henrique VIII. Enquanto seu pai era da realeza, sua mãe era filha de um nobre em ascensão, um dos ”novos favoritos” do monarca. Não havia nenhuma razão para reforçar uma conexão que, politicamente falando, naquela altura, apenas lhe afetaria.

Enquanto Elizabeth constantemente desgastava-se em firmar seus laços paternos, ela nunca escondeu o orgulho de ser ”filha de sua mãe”; na verdade, ela às vezes ostentava-o. Em seu caminho para sua coroação em 1559, Elizabeth passou por um arco triunfal na rua de Grace Church durante sua peregrinação por Londres para chegar até a Abadia de Westminster. Um dos espetáculos exibidos no caminho em sua homenagem, foi uma alegoria de seu pai e sua mãe. O “Pageant of the Roses”, bonecos em tamanho natural do rei Henrique VIII e Ana Bolena, apareceram sentados juntos em um estrado. A cena foi descrita por Weir em seu livro:

”Acima da efígie de Henrique VIII e Ana Bolena, sentava-se a própria figura de Elizabeth I. Há também evidências para apoiar a teoria de que a coroa mais simples usada pela Rainha Elizabeth após sua coroação, pode ter sido a única originalmente feita para sua Ana em 1533” (citado por Weir, 322).

CoronationProcessionofElizabethICollegeofArmsDocc1559
Procissão de coroação de Elizabeth I.

Os motivos da decisão de Elizabeth em ressaltar sua paternidade ao invés de utilizar conexões que a ligava com sua mãe são compreensíveis, porém, a pergunta mais difícil de responder é: Por que Elizabeth não tentou reverter as decisões judiciais sobre o casamento dos pais, assim como fez sua irmã Maria?

Houve de fato, muito debate no início do reinado de Elizabeth para saber se ela deveria fazer o mesmo que sua irmã. Teria sido imprudente abrir e dissecar antigas controvérsias sobre a condenação e execução de Ana Bolena, pois isso certamente teria causado um alvoroço, não só na Inglaterra, mas também na Europa católica (que assistia à rainha Elizabeth e todas as suas decisões com grande interesse). Adentrar o passado poderia inclusive, lançar mais dúvidas sobre a já precária dinastia Tudor e o direito de Elizabeth em governar.

Elizabeth finalmente optou por deixar de lado sua crença pessoal de que sua mãe era inocente, e optou por favorecer uma abordagem mais razoável, que a ajudaria a garantir a estabilidade de seu reino. Em vez de encomendar uma investigação completa, a rainha Elizabeth aceitou o conselho do Lord Real do Grande Selo, Sir Nicholas Bacon, que havia apontado que ela era a herdeira legítima do trono da Inglaterra, de acordo com o Terceiro Ato de Sucessão de Henrique VIII, fazendo com que não fosse mais necessário uma validação.

O Parlamento então, elaborou um estatuto que confirmava o direito de Elizabeth pelo trono da Inglaterra. Elizabeth então criou um ato, declarando que era a única herdeira de sua mãe, permitindo-lhe herdar suas propriedades que haviam sido perdidas para a coroa em sua morte.

Elizabeth não transladou o corpo de sua mãe da Capela Saint Peter Ad Vincula na Torre de Londres (local onde foi executada), pela mesma razão anterior: ela não queria uma controvérsia judicial. Além disso, houve o tecnicismo problemático de que Ana Bolena havia morrido na fé católica, tendo sido uma reformadora da religião católica, e não uma luterana como às vezes é chamada. Teria sido muito difícil para determinar os ritos funerários apropriados para um novo enterro.

A Rainha Elizabeth nunca se esqueceu da macabra morte de sua mãe sob as mãos de seu pai, e ela muitas vezes fazia referências da tragédia que havia acontecido, mesmo que indiretamente. Em 1561, a rainha disse a um enviado da Escócia, que os conflitos conjugais e fins desastrosos em sua própria família (sem fazer referência à sua mãe especificamente) a levaram a duvidar da estabilidade da instituição do casamento, dizendo:

“Alguns dizem que o casamento era ilegal, alguns que eu era uma bastarda, outros, isso ou aquilo, conforme era ou não favorável. Tantas dúvidas de casamento pairava nas mãos de todos que, receio casar-me por temer as controvérsias.” (Weir, 320)

Em 1565, a rainha expressou seu temor de que, se ela se casasse, o marido poderia ”realizar algum desejo ruim, se ele assim o tivesse”, e que ela “odiava a ideia de um casamento a cada dia mais, por razões que ela não divulgaria à uma alma gêmea caso a tivesse, muito menos a outro ser vivo”. (Primeira citação entregue a um diplomata francês, registrada nas Relações Politiques de France avec l’Ecosse, citada por Weir. Segunda citação do calendário espanhol, citada por Weir)

Mesmo o Arcebispo Parker não poderia influenciá-la em suas opiniões sobre o casamento. Quando ele falou com a nova rainha a pedido de William Cecil, alertando-a sobre os benefícios do matrimônio, Parker disse: “Ela fala amargamente do santo estado do matrimônio’‘ – Cecil então disse: “Ele ficou horrorizado por ouvi-la.” (Weir)

A aversão de Elizabeth à violência, em particular a decapitação, especialmente quando se tem a ver com matrimônios, foi provavelmente, devido em grande parte ao seu trauma de infância e sua própria experiência de quase-morte no reinado de sua irmã. Elizabeth sempre fez um grande esforço para poupar o seu povo da violência frequente que ela havia pessoalmente experimentado, e que tinha sofrido sob as regras de seus familiares.

Após Elizabeth I ser excomungada pelo Papa em 1572, ela fez com que Matthew Parker, o Arcebispo de Canterbury, rastreasse e estudasse a bula de dispensa papal de 1528, que havia sancionado o casamento de seus pais. Elizabeth queria ter o documento em arquivo no caso de precisar provar sua legitimidade, sem sombra de dúvida, para a Europa católica.

Brasão de Ana Bolena, adotado por Elizabeth.
Brasão de Ana Bolena, adotado por Elizabeth.

SEMPER EADEM e Heráldica:

Outra maneira de saber o que Elizabeth sentia por sua mãe, foi quando ela decidiu adotar o emblema e lema heráldico da mesma, e exibi-lo publicamente. Elizabeth usou um lema de sua mãe, SEMPER EADEM, que em latim significa “sempre a mesma.”

Ela também adotou o distintivo heráldico de um falcão coroado em cima de um toco de árvore, cercado de rosas de Tudor. O falcão é o responsável heráldico de “perseverança”, uma qualidade que tanto Elizabeth, quanto Ana possuíam.

Anel de Elizabeth I.
Anel de Elizabeth I.

O Anel Medalhão:

30 anos após provocadoramente usar o colar de ”A” (inicial do nome de sua mãe) no retrato encomendado por seu pai Henrique VIII, Elizabeth fez uso de uma especial e simbólica peça de joalheria pessoal. A peça em questão, trata-se de um anel ricamente adornado, que esconde o busto de duas mulheres. Caso uma das mulheres retratada no anel seja de fato Ana Bolena (o que não podemos ter certeza, mas que muitos historiadores sugerem), apenas a existência do mesmo, prova sem sombra de dúvida que, Elizabeth acreditou até o fim na inocência de sua mãe.

O anel foi encomendado pela rainha em 1575. Trata-se de uma peça de ouro, coberta de diamantes que formam a letra “E”, para Elizabeth, e abaixo do ”E”, a  letra “R” de Regina (Rainha em latim), em esmalte azul. Porém, o mais curioso desta peça, é que ela possui um compartimento secreto que, ao abrir, revelam os bustos em relevo pintado de duas mulheres, ela e provavelmente sua mãe, lado a lado.

A mulher em questão, usa um capelo francês e trajes que datam do reinado de Henrique VIII. Ela também carrega uma forte semelhança com a dama nos retratos em Hever e National Portrait Gallery, Ana Bolena.

Reza a lenda que o anel foi retirado de seu dedo após sua morte no Palácio de Richmond às margens do Tâmisa, sudoeste de Londres em 1603, por Robert Carey. Foi ele quem atravessou a fronteira escocesa para levar a notícia para James VI da Escócia, que então tornou-se James I da Inglaterra. O anel está agora em exibição na nova exposição, Gold: Power and Allure.

Podemos apenas encerrar este artigo, mostrando que Ana não foi apenas a base fundamental de Elizabeth, como também, mesmo morta, esteve sempre ao seu lado. A mãe que mal conhecia, no final, foi a mulher que mais conheceu.

FONTES:
Being Bess: AQUI.

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