A Comida no Período Tudor

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Quando falamos em alimentos e no período Tudor, é natural que a atenção de todos se voltem para Henrique VIII, o segundo monarca da dinastia, que, com o passar dos anos, teve sua silhueta bastante ampliada devido a fartos e luxuosos banquetes e jantares tão conhecidos pelo povo.

No entanto, a nobreza inglesa da época, possuía a reputação de ser glutona, embora as classes mais baixas também se alimentassem melhor que as outras classes igualmente baixas do resto da Europa.

A dieta básica do povo inglês em meados do século XVI, consistia de carne e pão, e era muito mais adocicada que as comidas atuais.

Torna-se necessário salientar que, a dieta no período Tudor não era exatamente saudável, especialmente para a camada mais rica, que acreditava que os legumes e alimentos que vinham diretamente da terra, seriam mais adequados ao consumo das camadas mais pobres.

Não havia uma maneira de manter os alimentos frescos; eles tinham que ser comidos na estação ou em conserva. Além disso, o método mais usado para conservar a carne na época, era utilizando o sal. A enorme quantidade de carne deveria ser salgada através de diversos tipos de técnicas diferenciadas. A carne de animais abatidos no outono, era salgada ou mantida em conserva para ser comida no inverno. Para disfarçar o sabor, molhos e especiarias eram adicionados.

Embora seja um fato notório que Henrique VIII, assim como Maria I amavam morangos, a realidade é que muitos nobres sofriam com formas mais leves de escorbuto, devido ao escasso consumo de frutas. Além disso, a falta de vitamina A, encontrada em vegetais verdes, manteiga, leite e ovos, levava à dores na bexiga e problemas renais no decorrer da vida. As classes mais abastadas costumavam desprezar os alimentos de fácil acesso às camadas mais baixas.

A Carne para as famílias ricas:

Os ricos ingeriam uma grande variedade de carnes como:

*As que eles mesmos caçavam: Veado, javali, coelho, codorna, abetarda, maçarico, tarambola, cormorão, texugo, ouriço, garça, faisão, galinhola, perdiz e melros (bastante utilizados em tortas).

*E as que criavam em suas terras: Carne bovina, de carneiro, vitela, cordeiro, cabrito, porco, coelho, pato, galinha, cisne, pavão, pombo e etc.


A Carne para as famílias pobres:

Os mais pobres também possuíam acesso à carne, mas não em grande variedade como os ricos. Eles comiam as partes menos nobres de galinhas ou carnes bovinas, que poderiam ser compradas no mercado quando tinham dinheiro, ou coelhos e pequenos animais silvestres, que poderiam caçar. Eles também eram encorajados a caçarem corvos, uma vez que estes pássaros destruíam as plantações e danificavam a palha nas casas e celeiros.
Trabalhadores rurais por vezes comiam “coloppes” – que eram tipos de fatias de bacon.
Eles também poderiam ter a carne que roubavam dos latifundiários locais, embora isso fosse algo mais arriscado a se fazer. Se fossem capturados durante a noite, poderiam ser condenados à morte, e se fossem capturados durante o dia, o castigo seria menos severo, envolvendo uma multa ou prisão.

Frutos do mar:

Os pescadores foram muito importantes no período Tudor. Por sempre haver a possibilidade de invasão, era vital que os pescadores estivessem ocupados mantendo habilidades de marinharia, que seriam úteis na guerra.
Também era importante incentivar as pessoas a comerem peixes, para conservar os estoques de carne, especialmente em épocas do ano em que a carne fresca estaria pouco disponível.

O transporte de peixes frescos do mar era lento, por isso não poderiam ser levados para muito longe da costa. O peixe poderia tanto ser salgado, como também ser mantido em tanques (chamados stewponds) especialmente construídos para que os proprietários de terras ou mosteiros, pudessem dispor de alimento mais fresco e fácil.

As pessoas mais pobres, por sua vez, poderiam se arriscar a caçar seus próprios peixes.

*Os peixes de água do mar, disponíveis para o consumo, eram: bacalhau, arinca, ling, congro, e solha.

*Os peixes de água doce, eram: enguias, lúcios, percas, trutas, esturjões, baratas, e salmões.

Berbigão e mexilhões também apareceram em livros de receitas no final deste período, e ostras estavam disponíveis em grandes quantidades nos mercados de Londres.

Pães:

O pão foi uma parte importante na dieta de todas as classes no período Tudor, e era muito diferente do consumido atualmente. Existiam vários tipos de pães, como por exemplo:

*Manchet: Um pão muito fino e branco, feito de farinha de trigo e uma pitada de farelo e germe de trigo de cor amarela. Este pão era destinado à nobreza.

*Raveled bread, ou pão Yeoman: Feito de farinha de trigo grossa, com farelo de de trigo. Possuía uma cor mais escura e era bem mais barato que o Manchet.

*Pão Carter ou pão preto: Era um pão de coloração marrom escura. Era este o pão consumido pelas classes mais pobres. Ele podia ser feito a partir de Maslin (uma mistura de centeio e trigo), Drage (uma mistura de cevada e trigo), ou apenas de centeio. No norte, era feito de aveia.

*Horse-corn (Cavalo de milho): Era um pão feito de ervilhas, feijões, lentilhas e aveia e comido pelos pobres apenas quando não havia fartura na colheita de trigo.

Os pães eram mantidos em uma “arca”- que era uma caixa de madeira, para protegê-los da umidade e de camundongos.

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Vegetais, ervas e flores:

– Legumes:
Os ricos não ingeriam muitos legumes. Eles preferiam dietas ricas em proteínas. As esposas dos agricultores, cultivavam legumes, ervas e flores em seus jardins para o consumo. A variedade de hortaliças cultivadas, incluía:

alho-poró
alho
ervilhas
parsnips
skirrets (algo como nabo)
couve
tipos de repolho
lentilhas
favas
cebolas
espinafres
cenoura
beterraba
rabanete
alcachofras
aspargos
Good King Henry (uma espécie de erva, parecida com espinafre, de sabor picante, hoje classificada como erva daninha)
e Alexander (com gosto semelhante ao aipo).

Hortaliças: As hortaliças não eram comidas como acompanhamento à carnes, como hoje em dia. Elas podiam ser usadas pelas esposas de fazendeiros, para fazer sopas que consistiam de ervilhas, leite, gema de ovo, pão ralado e salsa que seriam temperadas com açafrão e gengibre.

Fato interessante: As batatas não eram conhecidas na Inglaterra, no início do período Tudor. O espanhóis descobriram-nas no Peru e em seguida John Hawkins as trouxe para Europa, das Índias Ocidentais, em 1563. Não antes de 1585, que a expedição enviada à América do Norte por Sir Walter Raleigh, voltou com batatas, que depois cresceram em sua terra na Irlanda, e eram destinadas somente aos ricos e nobres.

A palavra “sallet” era usada para significar salada, não apenas como a conhecemos hoje, mas qualquer prato com legumes crus ou cozidos.

Ervas:
Os tipos de ervas cultivadas para molhos aromatizantes e carnes incluíam:
borragem
sálvia
tomilho
alecrim
salsa
e cebolinha.

Ervas também foram utilizadas para fins medicinais e cosméticos, muitas vezes eram também  espalhadas pelo chão das casas para disfarçar odores desagradáveis.

Flores:

Algumas flores foram usadas em pratos da época Tudor, incluindo violetas, prímulas, lavanda e malmequer. Marigolds foram utilizadas para dar à manteiga uma tonalidade amarela e brilhante, quando ficava muito pálida para ser vendida no mercado local.

Outras flores eram populares ingredientes na época como – taraxacum, margarida, flores de prímula, azedinhas (que eram usadas na cura do escorbuto), hortelã e alecrim.

Tipos de açúcar

Açúcar e mel:

Açúcar:
O açúcar tornou-se popular e vinha em uma estrutura em forma de cone, pesando cerca de 1,5 kg. Tinha que ser ralado ou batido antes do uso.
O açúcar branco era considerado o melhor, feito a partir de Madeira e era facilmente derretido. Também existia o Barbary ou açúcar das Canárias, ele era um açúcar comum, grosseiro, marrom e bastante pegajoso, bom para xaropes e para marinar carne; presunto assado com mel é um prato deste período.
O açúcar era tão caro, que os ricos eram os principais consumidores. O açúcar foi tão consumido, que era adicionado a alimentos do cotidiano como a cerveja, molhos para carnes, peixes e doces como “marzipan” (marzipam). Como resultado os dentes dos cortesãos tornaram-se negros e apodrecidos. No final de sua vida, a rainha Elizabeth I tinha dentes apodrecidos e negros.
Pudins, bolos e biscoitos eram muito populares e todos continham algum tipo de açúcar.

Mel: As pessoas mais pobres usavam mel como adoçante – elas mantinham colmeias de abelhas em seus jardins. As colmeias, eram feitas de palha trançada ou vime e cobertas com barro. O mel Inglês foi considerado um produto de alta qualidade e foi amplamente exportado para outros países da Europa. As abelhas nesta época, eram negras e não listradas como hoje.


Manteiga, leite e ovos
:

As pessoas ricas não comiam muito estes alimentos (a não ser como ingredientes em alguns pratos), já que eles eram usados como alimento aos camponeses. Eles forneciam uma rica fonte de alimento para as famílias mais pobres, as mulheres passariam o tempo ordenhando, produzindo manteiga, coletando ovos e alimentando suas galinhas. Manteiga, leite e ovos também eram uma boa fonte de renda para os agricultores e eram vendidos em mercados.

FRUTAS:

Havia mais variedades de maçãs, peras e cerejas cultivadas na Inglaterra durante o período Tudor, do que existem atualmente. Outras frutas populares eram, ameixas, morangos e groselhas.

A maior parte das frutas eram cozidas, já que os médicos acreditavam que alimentos crus causavam doenças. Maçãs eram trituradas em um almofariz (tendo o mesmo resultado que um processador de alimentos hoje em dia). Até o século XVIII, as pessoas não comiam frutas frescas. Muitos pratos de carne eram preparados com frutas.

Laranja ou qualquer fruta importada do exterior, era cara e portanto, comida somente pelas classes mais altas. “Apricots” (damascos) eram importados de Portugal e “maçãs do amor” (tomates) vieram do México, e uma mulher de fazendeiro comum, saberia que eles seriam caros demais para seu orçamento.

BEBIDAS:

Todos evitavam tomar água, pois era muito poluída e possuía gosto e cheiro ruim.

Hypocras: um licor doce importado do Mediterrâneo Oriental, era a bebida mais cara de todas e era servida apenas em banquetes reais ou ocasiões especiais.

O vinho: Era popular na Corte, mas era demasiado caro para a maioria das pessoas, pois tinha que ser importados de países quentes os suficiente para o cultivo de uvas. O vinho por vezes era diluído em água, mesmo que houvesse um risco de poluição.

Em 1536, o preço máximo cobrado pelo vinho era 8 pence o galão. Sack um xerez, era um tipo de vinho doce da Espanha que chegava a custar 3 xelins ou 4 pence por galão.

Aqua vitae (do latim: água da Vida): foi o nome dado a qualquer bebida forte como o brandy, que também era caro.

Ale: Foi a palavra usada para qualquer bebida fermentada feita com grãos e água. O preço foi fixado em 5 pence por nove litros. Mesmo na corte a cerveja era mais consumida que vinho.
A cerveja feita a partir de lúpulo não era tão popular, embora fosse mais barata do que cerveja comum- custava 5 pence por dezoito litros.

Cidra: Era feita a partir de maçãs e era bebida por as pessoas mais pobres.
Perry: Era uma bebida fermentada feita à base de pêras.
Hidromel: Era uma mistura de mel e especiarias.
Posset: Era uma mistura de ovos, leite e cerveja.

As pessoas podiam beber leite (embora a nobreza não gostasse), mas ele não era pasteurizado (este processo não foi inventado até muito tempo mais tarde) e não havia meios de mantê-lo resfriado, ou seja, não iria ficar fresco por muito tempo.
Não havia chá, café ou chocolate disponível, exceto em casos muito raros para fins medicinais, e  mesmo assim estes seriam muito caros, de uso restrito apenas aos nobres e ricos.

A sopa foi a única bebida quente disponível.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Marco disse:

    Excelente artigo, gostoso de ler e imagens muito bem escolhidas.

    1. tudorbrasil disse:

      Obrigada Marco, seja muito bem vindo a comentar sempre que quiser!

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